Destaques

Os melhores discos nacionais de 2019

Aqui estamos novamente, debruçados sobre 2019 e sobre a música nacional feita este ano. Se no top internacional falámos de diversidade presente, neste essa diversidade é ainda mais notória – nos 57 discos votados para a lista final há um pouco de tudo, quer em termos de estilos, quer em termos de estado de maturidade das bandas envolvidas.

Cingindo-nos ao top 20, que se encontra listado abaixo, encontramos bandas que sempre cá estiveram (Mão Morta, The Gift), um senhor multi-tasking que enche o coração de muita gente (Manel Cruz), uma senhora que nos tinha abandonado e regressou agora em força (Lena D’Água), pianistas a solo (Sassetti), pianistas a juntarem-se a fadistas (Laginha e Camané), bateristas jazz a mostrar trabalho a solo (Ferrandini), uma banda que marcou a década (Capitão Fausto), hip hop de primeira linha (Slow J e Classe Crua), cantautores a seguir os passos dos maiores cá do cantinho (Luís Severo, Salvador Sobral, Afonso Cabral) e projectos inventivos (Montanhas Azuis, Sensible Soccers, Stereossauro, David Bruno). E depois, há as bandas novas a mostrar serviço (Cassete Pirata, Zanibar Aliens), das quais o grande destaque vai, naturalmente para os vencedores do ano, os Zarco, que com um disco lançado há uns meros meses chegaram e conquistaram a nossa redação.

Continuamos, portanto, a saber fazer música aqui no nosso retângulo, não para inglês ver, pois continuamos com grandes dificuldades em chegar ao estrangeiro, mas para consumo interno, para nos deliciarmos na nossa língua materna e por ela nos deixarmos envolver. Rejubilemos, então, e até 2020!

Alexandre Pires



20. Classe Crua
Classe Crua

Lançado a 10 de Junho, para ‘homenagear a palavra’, Classe Crua nasceu sem grande plano. Composto ao longo de três anos, resultado da proximidade entre ambos e gravado nos estúdios de Fred Ferreira, para manter o ambiente familiar, na sua lista de cúmplices aparecem ainda onze convidados – com destaque para Chullage. No ano em que subiu aos palcos de Coliseu e Hard Club para celebrar 20 anos de carreira, Sam the Kid voltou a não cumprir o desejo dos fãs que há muito reclamam um disco em nome próprio. Sozinho ou acompanhado, se o assunto for hip hop, Sam the Kid garante resultados. A espera já vai longa, mas Classe Crua ajudou a matar as saudades.


19. Cassete Pirata
A Montra

A Montra é precisamente aquilo que diz ser: uma vitrine de amores, amizades e um imaginário que se estende a muitas vidas. É este o nome do primeiro álbum de Cassete Pirata, essa banda que nos traz um punhado de música confiançuda e introspectiva. Todas as músicas do álbum são um desafogado estender de toalha na areia ou um sério vendaval que leva tudo à frente. A Montra traz a 2019 o “eu” que insistimos em apagar, um mergulho de cabeça no mar revolto que habitamos com uma botija de gás bem carregada para podermos vasculhar à vontade. E prometem que o melhor ainda está para vir. Vamos esperar para ver.


18. Zanibar Aliens
III

Ao terceiro disco, os Zanibar Aliens esticam as asas para algumas novas paisagens sonoras, sem perder o puro sangue rock que sempre os caracterizou. Tal como nos registos anteriores, III é um disco curto e muito intenso. O som dos Zanibar Aliens está solidificado, nunca fugindo muito do registo do hard-rock/blues da viragem dos anos 60 para a década seguinte. Neste trabalho a banda dá um pequeno passo na abertura do seu som, com uma maior variedade estilística e arranjos mais cuidados (na utilização das teclas, por exemplo), conseguindo manter as forças que já haviam demonstrado no passado e que nos fizeram fãs desde a primeira hora.


17. Salvador Sobral
Paris, Lisboa

Em Paris, Lisboa há música essencialmente estruturada a partir do jazz. Há sonoridades diversas e saltos entre géneros, que chegam a tocar no samba, no bolero ou na valsa. Há, de facto, uma colecção de canções que refletem a diversidade de apreços musicais que conduz o gosto do autor. Mas há também, e acima de tudo, a voz de Salvador Sobral, sempre tão certeira na modelação dos versos, no saborear das palavras e nos improvisos vocais. Privilegiando a liberdade expressiva como só ele sabe. Paris, Lisboa reconfirma: a capacidade interpretativa de Salvador Sobral é realmente sinónimo de excelência. Em Paris, Lisboa o verdadeiro idioma é a música, numa incoerência artística saudável, típica dos genuinamente curiosos pela experimentação da canção-jazz, numa busca que não cessa nunca.


16. Stereossauro
Bairro da Ponte

A voz de Amália é a primeira neste disco, entoando “cantar como quem despe”. Em Bairro da Ponte despimos os preconceitos e vestimos as influências do fado, numa mistura esquizofrénica onde Stereossauro mistura hip-hop, electrónica, Camané, Papillon, beats, Rui Reininho e Dino D’Santiago. Stereossauro continua disruptivo e a pegar nas sonoridades, sagradas para alguns, de Amália ou Paredes, e a criar um estilo que mistura o tradicional e o moderno sem reservas, no que considera como “o começar de algo mais sério” nesta estética que já tinha explorado um pouco antes, em algumas músicas e colaborações.


15. The Gift
Verão

Começou por ser um disco feito para piano e voz, mas o tempo deu-lhe corpo e músculo. Verão é um disco surpreendente numa carreira que se aproxima dos 25 anos de vida: há ecos do passado, mas há muitas novas escapatórias na sonoridade típica dos Gift. E provavelmente a melhor canção da vida dos alcobacenses. Este é um disco para os fãs dos Gift de sempre, para quem gosta de música eletrónica, teclados, cordas, canções pop. No Verão dos Gift faz pouco sol, mas a luz que entra merece ser acarinhada.


14. Bernardo Sassetti
Solo

Solo é fruto de uma sessão de gravações que Bernardo Sassetti fez em 2005, durante três dias, no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. Foi aí que, num piano muito particular (um Steinway) e juntamente com o produtor Nelson Carvalho, se pré-produziu os temas que compõem o disco, alvos agora de uma nova produção e seleção de inéditos para integrar o alinhamento do mesmo. O resultado, bem o resultado é uma delícia e pouco mais haverá a dizer. É um nome que fala por si, e cada minuto mais que temos de Sassetti ao piano são minutos ganhos à sua precoce morte. Resta-nos ouvir com a devida atenção e saborear as suas variações ao longo de cada música.


13. Afonso Cabral
Morada

A solo – mas não sozinho – o vocalista dos You Can’t Win Charlie Brown estreia-se com um disco orquestral, cinemático, galante. Morada é um óptimo capítulo para início de conversa de uma nova fase na carreira de Afonso Cabral, com 9 canções certeiras e orelhudas que só auguram tudo de bom para o futuro.


12. Gabriel Ferrandini
Volúpias

Gabriel Ferrandini, acompanhado de Hêrnani Faustino no contrabaixo e Pedro Sousa no saxofone, todos nomes sobejamente conhecidos nos corredores do jazz nacional, conjugam-se num disco que mostra a sua incrível capacidade criativa. Volúpias é um delicioso passeio por Lisboa velha, de São Bento ao coração do Bairro Alto, sonorizado por um jazz ambicioso e inventivo.


11. Manel Cruz
Vida Nova

Ao longo das 12 faixas de Vida Nova, que imaginamos compostas com sangue, suor, e lágrimas, nada é fácil nem banal, nem nas rimas nem na composição. São canções humanas, sofridas, melancólicas e às vezes resignadas. As letras crescem, o disco evolui, ganha densidade, ganha corpo dentro da simplicidade da produção a cada nova audição. Cada surpresa em cada letra, em cada frase que significa diferente consoante o estado de espírito em que a ouvimos.


10. Mão Morta
No Fim Era O Frio

No Fim Era O Frio é um conto de desesperança em que a nossa espécie se confronta finalmente com o apocalipse ambiental, ao mesmo tempo que anseia pela salvação vinda de possíveis extra terrestres mais inteligentes do que nós. Luxúria, no seu melhor, transporta-nos para o seu mundo habitual de fantasmas esqueléticos, punhais de dor, mortes e bafejos, becos húmidos, cadáveres, almas penosas e pervertidas, naquele seu jeito fora-de-moda e erudito que nos leva para Gogol, Kafka, Marquês de Sade. Não obstante a sua capacidade valorosa de songwriting, talvez seja aqui, na música-esqueleto de uma performance multimédia composta por rock, metal, psicadelismo, jazz, electrónica e pautada pela literatura de Luxuria Canibal, onde os Mão Morta encontram sublimação.


9. Slow J
You Are Forgiven

You Are Forgiven, o disco a assinalar a entrada na idade adulta, confirma Slow J entre os melhores e mais seguros talentos entre os ‘putos’ da música nacional. Nos primeiros anos de carreira, é conhecida a convivência com NBC, histórico do hip hop e uma das melhores vozes da soul nacional, e Valete. A inspiração nos versos de Sam the Kid e Manuel Cruz também nunca foi escondida. Mas ao fim de seis anos de carreira, a música já é mesmo sua, madura ao terceiro disco. Slow J deixou de ser candidato e a declaração de intenções que deixou em “Comida” perdeu o tom de graça para a passar a real possibilidade. Será que vai mesmo “fazer ao Rui Veloso o que o Ronaldo fez ao Figo”? Ficamos à espera.


8. Camané & Mário Laginha
Aqui Está-se Sossegado

Aqui Está-se Sossegado é farto de melodias e de textos poéticos superlativos. Alguns conhecidos, outros mesmo assim ilustres, mesmo que pouco ou nada divulgados anteriormente. Resta ainda dizer que o fado de Camané combina muito bem com o piano de Laginha. Parecem gémeos que se conhecem umbilicalmente, sabendo nós que são, por natureza, crias de jurisdições tão diferentes. O fado, por tradição, restringe. O jazz, também por tradição, amplia. Aqui vivem ambos em harmonia divina e dão mostras de perfeita e sadia comunhão. Aqui Está-se Sossegado é um pequeno prodígio de elegância e requinte.


7.Sensible Soccers
Aurora

O 2019 dos Sensible Soccers foi feito de renovação e revitalização. Aurora, o glorioso disco deste ano, é o terceiro do grupo e surge após mudanças de formação, que agora, ao vivo, atua em formato quinteto e com redobrado foco na percussão. Disco 100% instrumental, e produzido por B Fachada, Aurora abre novos horizontes ao grupo: dificilmente trará novos fãs, é certo, mas consolida o estatuto dos Sensible Soccers como fazedores de camadas sonoras únicas, tão ingénuas quanto certeiras, tão a puxar à nostalgia como a olhar para o futuro. Aurora é um novo triunfo para um grupo que ainda não nos falhou.


6. Capitão Fausto
A Invenção Do Dia Claro

A Invenção do Dia Claro tem, a espaços, uma certa poética da ingenuidade. Não só nas letras de algumas das canções, como também num certo aligeiramento rítmico e melódico, sobretudo se tivermos em conta os primeiros dois trabalhos da banda. O facto de terem estado a gravar no Brasil poderia pressupor um disco de matizes mais tropicais, mas também isso não se verificou, havendo no entanto algumas exceções que poderão confirmar a regra exposta. Desta vez, a banda não se reinventou, antes apostando na continuidade. Não evoluíram, mas também não envelheceram. Parece terem feito tudo para agradar. Às mães e aos seus amores. Fizeram bem.


5. David Bruno
Miramar Confidencial

Fica a ideia de que falta pouco para Miramar Confidencial ser daqueles álbuns de antologia, uma obra de ficção onde vídeo, áudio e texto convivem para dar uma ideia da Gaia litoral nos anos 90, onde há projectos megalómanos de construção com 12 andares, piscina e área de lazer, construtores civis com Fiat Uno e BMW Brancos, Sapateira e Arroz de Tamboril. Um mundo que David Bruno sabe muito bem trabalhar, entre o parolo da meia branca e o irónico que a exibe, sem se perder nas referências e nas piadas, sempre com bom gosto como pano de fundo a contar a história.


4. Luís Severo
O Sol Voltou

Não foi só a beleza das canções – e a produção orgânica à Cohen e Fausto dos anos 70 – que nos abespinhou. Foi também a sua arrogante ousadia: a de ter arriscado um caminho estético novo, ainda para mais com bons resultados. Onde Luís Severo era citadino, bem-disposto e “orelhudo”, O Sol Voltou é pastoral, melancólico e deliciosamente esquivo. O novo Severo é mais ambicioso e contemplativo, mais exigente e amadurecido, mais profundo e indizível. Temos escritor de canções.


3. Lena D’Água
Desalmadamente

O regresso de Lena D’Água em Desalmadamente decorre todo ele do carinho que uma nova geração – a que era ainda criança quando Lena estava na berra – agora lhe dedicou. Desalmadamente é uma autobiografia de Lena D’Água, que por acaso foi escrita por outra pessoa. O resultado é um grande disco pop: fresco, soalheiro e divertido. Sabe a Rita Lee e a algodão doce, a Entre-Aspas e a calippo de limão, a Clã e a melancia no Verão. Mais: sabe a aqui e agora, a Lena d’Água no século XXI.


2. Montanhas Azuis
Ilha de Plástico

Montanhas Azuis são três fulanos a brincar com sintetizadores, uma espécie de Au Revoir Simone mas sem a parte das miúdas giras. Não são, porém, três sujeitos quaisquer mas sim Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas: três dos músicos mais inventivos da sua geração. As canções são exóticas e tropicais, como se tivéssemos ido de férias à Polinésia, menos a maçada das indígenas bonitas com doenças venéreas. E o langor dream pop, pegajoso e melancólico, é de tal ordem que no final do disco parece que engolimos dois frascos de drunfos.


1. Zarco
Spazutempo

É possível misturar nomes maiores da música portuguesa como José Mário Branco ou Fausto Bordalo Dias com Frank Zappa e o rock com toques de progressivo? Bom, por estranho que pareça, parece bem que sim, e a prova está dada com o primeiro disco dos Zarco. As letras contam-nos histórias de outros tempos, muito devedoras ao imaginário de Fausto e a sua revisitação da saga portuguesa, com episódios de corsários e de mar, embora sem que o todo seja consumido por um carácter efectivamente conceptual. Os temas vão sendo transformados, vão evoluindo, e num só cabe muita coisa de vários géneros, daí a já costumeira associação ao delicioso e esquizóide som de Zappa. Já a forma de cantar, com a dicção e entrega das palavras a lembrar muito os tais pais fundadores da música de intervenção portuguesa, completa esta receita, que só ao início se estranha, para depois nos conquistar com extrema facilidade.

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