Lusofonia

Manuel João Vieira em entrevista: Há uma linhagem do maldizer que é profundamente portuguesa

Na tentativa de conhecer melhor o homem por baixo das capas de vários heterónimos, fomos em busca de Manuel João Vieira. Amavelmente recebidos em sua casa, falámos sobre ele próprio e Ena Pá 2000, claro, mas também sobre vida e arte e vida em Marte.

Altamont: Em 1983, participaste num disco do Vitorino, Flor de la Mar, no tema “Marcha Ingénua”. Como surgiu essa colaboração?

Manuel João Vieira: Epá, eu fazia parte de uma banda nessa altura chamada Banda Almôndega. Era uma banda de música mais ou menos tradicional portuguesa e tal. Tocava bandolim, o João Lucas tocava piano, o Pedro Melo tocava flauta, o Manuel Duarte – baixista dos Ena Pá – tocava baixo e o irmão dele, João Duarte, tocava guitarra, o Francisco Ferro – dos Ena Pá e [Irmãos] Catita – também tocava percussões nessa banda. Era uma banda séria. Aquilo que eu fazia era estar lá atrás a tocar música calmamente, tocar bandolim. Preocupava-me basicamente em não me enganar.

Portanto, o teu percurso musical começou pela música popular portuguesa…

Sim, também. Quer dizer, quando era mais puto, com 13 anos, tive aulas de viola na Academia de Amadores de Música, e tinha uma brincadeira com o meu primo João que era gravarmos cassetes de programas imaginários de televisão. Nós gostávamos à brava dos Monty Python, então fazíamos uns programas, com canções no meio, e eram na maior parte das vezes engraçadas.

Como é que conheceste o Vitorino?

Eu acho que foi através do Pedro Melo, não sei. O Vitorino conhecia os irmãos Melo. Nós conhecíamo-nos, fazíamos parte da mesma banda, e foi assim. Aliás, eu cheguei a tocar num concerto nas Caldas da Rainha em que estava o José Afonso. Acho que tenho uma fotografia disso, e eu era magro que nem um gafanhoto.

E mantiveste alguma ligação. No “Rap Alentejano”, aparece o Vitorino e o Janita Salomé…

Sim, continuo a manter. De vez em quando, fazemos umas brincadeiras com o Vítor Zamora e o Vitorino no Titanic [Sur Mer].

Nos anos 80, integraste o colectivo Homeostética, nas Belas Artes. O que era esse movimento e como foi recebido?

Nós tínhamos 20 anos ou coisa assim. Nós encontrámos valores comuns, ou ideias comuns, ou sentimentos comuns acerca daquilo que se estava a passar na arte contemporânea na época e tínhamos todos muita vontade de fazer coisas. E, apesar de termos linguagens e abordagens diferentes, tinham o comum de serem ainda linguagens em meios tradicionais, como a pintura e a escultura, embora tenhamos também feito vídeo. E fizemos uma revista, fazíamos reuniões. Uma coisa que era importante na altura, na Homeostética, era pôr em relação as raízes – a maior parte de nós tem raízes no campo, fora da grande cidade. Portanto, havia qualquer coisa nesse aspecto daquele encanto que o Cesário Verde tem pelo campo – “no campo eu acho a Musa que me anima”. Esse bucolismo era posto em cena também como um valorizar das raízes. Nós temos uma exposição chamada “Um Labrego em Nova Iorque” – acho que isso põe em cena um bocado aquilo que era a nossa consciência do que era Portugal, e Portugal em relação à arte contemporânea. Isto mesmo, apesar de todos os esforços feitos pelos artistas anteriores – o meu pai é um pioneiro da performance em Portugal desde 1971, esteve na Alternativa Zero e isso tudo… Eu, pessoalmente, queria fazer era banda desenhada. Eu sempre fui muito infantil na minha relação com a arte, e continuo. 

Mais diletante?

Não diletante mas infantil. Para mim, o trabalho de atelier é muito importante. É um trabalho que eu tenho que fazer todos os dias – não faço 8 horas porque não consigo. Portanto, não sou diletante, sou é infantil. E quero continuar a sê-lo.

Era, portanto, uma reacção à arte contemporânea da altura, que vocês achavam que era muito conceptual, muito armada ao pingarelho?

Foi o surgimento da arte conceptual, foi o surgimento da arte minimal, tudo isso. Nos anos 80, houve um ressurgimento da pintura em vários campos; como acontece, de vez em quando, a pintura morre e depois ressuscita. Mas basta dizer que nos anos 90, em grande parte da Europa, era mal visto pintar. Portanto, nós devíamos abordar outras disciplinas, como é o caso da vídeo-arte, da performance, da instalação. E isto continua em Portugal a ser assim, um bocado.

Por irem contra a maré, a Homeostética foi mal recebida pelas elites da altura?

Não, o que acontecia era que a geração anterior estava muito bem instalada e tinha uma consciência daquilo que são as relações com o poder mais clara do que a nossa e ocupou essas relações. Tanto essa geração como, sobretudo, os críticos dessa geração. Portanto, quando aparecemos, aparecemos também um bocado infantilizados porque esses tipos já tinham tomado conta do aparelho.

Mais ou menos na mesma altura, formaste os Ena Pá, com amigos de Campo de Ourique…

Sim, isto surgiu como um  grupo de bairro. Nós utilizávamos a música também como um encontro social.

Era apenas um braço musical da Homeostética ou tinha uma realidade independente?

Começaram como coisas independentes e acabaram por se aproximar, até porque um Homeostético, que é o Fernando Brito, é responsável por muitas das letras dos Ena Pá.

Como a “A Titi Fez-me Teté”…

Sim, por exemplo. Das mais brilhantes. E porque os Ena Pá tinham também uma filosofia de aproximação em relação à música onde a ironia e o paradoxo também eram muito importantes. E algumas figuras utilizadas no surrealismo.

Começaste por dizer, nos anos 80, que querias que os Ena Pá fossem a pior banda do mundo…

E, num certo sentido, conseguimos. Em termos radiofónicos, conseguimos não passar na rádio. Isso já foi um passo.

Achas que foi uma reacção à música pimba, então emergente, querendo fazer algo ainda mais estúpido e brejeiro?

Não, eu acho que é muito simples (além do facto de a Nossa Senhora nos ter iluminado o caminho; era a Nossa Senhora que soprava ao ouvido as letras e muitas melodias, vários santos estiveram envolvidos nisso, santos mesmo, alguns santos participaram, mas eu não posso dizer nomes porque eles têm advogados muito poderosos; também há o diabo, claro, mas não quero ser maniqueísta). O que acontece é que há uma óbvia relação entre o fim de uma banda que aspirava pelos amanhãs que cantam, e nós vermos que existiam várias bandas, na maior parte da música a partir do fim dos anos 70, com o começo de músicas mais terra-a-terra, com menos acordes, com o punk rock, tudo ficando mais básico, e acabou aquela onda mais poética dos anos 60 e 70, mais utópica. Toda a utopia foi pelo cano. E a utopia também foi pelo cano aqui nos anos 80. E a partir daí, achei que não fazia sentido estar com um grupo utópico. Por outro lado, também não me interessava todo aquele pseudo-luxo pós-modernista e o interesse na aparência, no dinheiro, na moda. Isso tudo, não me interessava nada. Portanto, resolvemos fazer um grupo que fosse um bocado contra tudo isso.

Nesse sentido, são a antítese de outra banda de Campo de Ourique, os Pop Dell’Arte…

Que eu respeito muito mas era preciso uma banda que estivesse nas antípodas dessas. Assim como há os Pop Dell’Arte, na altura também havia os GNR, Mler Ife Dada, essas coisas. 

Achas que neste tempo pós-ideológico a parvoíce é a única arma que nos resta?

Não. Eu acho que neste momento existe uma atomização das pessoas e dos estilos. Acho que neste momento deixou de haver sequer o fantasma de algum tipo de estrutura racional ideológica. Acho que neste momento o que existe é uma multiplicidade de possíveis leituras do mundo, e da própria verdade.

Do primeiro para o segundo disco de Ena Pá, existe uma mudança grande, a nível do “avacalhanço”. No primeiro disco não há asneiras e a partir do És Muita Linda é o “abordinanço” total, brejeirice e ainda mais nonsense. Sentiste que no primeiro disco o desígnio dos Ena Pá ainda estava por cumprir?

Ainda pensámos que podíamos… há um disco anterior a esse chamado “Pão, Amor e Totobola”. Nós ainda pensámos que conseguíamos passar na rádio.

Apesar da música raramente passar na rádio e na televisão, na primeira metade dos anos 90 tiveram muita popularidade. Se calhar, venderam poucos discos mas deram muitos concertos…

Hoje em dia, o És Muita Linda seria disco de platex. Hoje em dia, aquilo que vendeu seria muito, mas na altura a indústria ainda funcionava. O que aconteceu é que nós vivíamos de Queimas das Fitas. Não tocávamos em coisas municipais, não tocávamos em festivais, era só Queimas das Fitas, que eram organizadas pelas Comissões de estudantes, e foi por isso que conseguimos.

Essa popularidade surpreendeu-vos ou estavam à espera?

Foi muito lento, de maneira que não nos surpreendeu. É um bocado como o aquecimento global, é muito lento, então as pessoas não sabem que existe. 

Para a geração dos meus pais, o “avacalhanço” dos Ena Pá é uma coisa que não faz sentido. Para a geração dos meus filhos, mais politicamente correcta, há determinadas canções que lhes metem confusão. Na “Paneleiro”, apontam logo o dedo: “homofóbica!”.

E é, de certa forma. A letra é do Fernando Brito, mas é absurda. Na realidade, paneleiro pode querer dizer uma data de coisas. Quando chamamos paneleiro a alguém, podemos também chamar filho da puta. Mas neste caso está mesmo dirigido… “Toma duche no chuveiro”? Está bem… O que nós queríamos era uma cultura extremamente infantil, com alguma crueldade infantil, que é aquilo que existia nas canções que nós cantávamos quando tínhamos 7 anos, canções infantis ordinárias que todas as crianças cantavam.

A nossa geração identificou-se com isso. Achas que agora, com a cultura woke, seria possível haver o mesmo fenómeno?

Eu acho que seria possível haver um outro fenómeno qualquer, adaptado a esta linguagem, ou contra esta linguagem do politicamente correcto de uma forma inteligente. Provavelmente, se nós vivêssemos nesta época, estaríamos a reagir ao politicamente correcto de outra forma. E, na realidade, até acho que estamos. Eu vou fazer agora, depois de um disco a solo, vamos fazer mais um disco de Ena Pá e temos canções como “Realidade ou Ficção, Dás-me Tesão”, temos outra sobre Donald Trump que é “Eu Gosto da Mulher de Donald Trump”, e coisas assim.

O imaginário dos Ena Pá está repleto do chamado “Portugal profundo”, coisas como “beber tinto do garrafão”, “o bagaço e os coiratos”, a “costureira do rés-do-chão”. Há crítica, carinho – ou as duas coisas – a este Portugal pré-moderno?

Há aí uma espécie de pós-neo-realismo que tinha a ver com vivências nossas. Nós estivemos muito no campo, era um Portugal diferente. Campo de Ourique era diferente do que é, agora está cheio de franceses. Eu acho que é natural que haja aí alguns retratos de um Portugal que nós conhecemos na altura.

E tens ternura por esse Portugal?

Sim e não. A distância pode dar alguma ternura.

Os Ena Pá 2000 são profundamente originais no conceito, não havia em Portugal nada tão provocador e tão extremo. Do ponto de vista musical, apesar das melodias muito inventivas, há um predomínio do pastiche, da paródia de outros estilos. Não há Ena Pá sem essa ferramenta humorística?

Talvez, não sei. Eu acho que não existe música sem haver uma paródia de outros estilos. Se não houver uma paródia, há uma espécie de empréstimo, ou roubo, em toda a música. Existe originalidade. Há algumas músicas completamente originais, mas o que acontece é que nós quando fazemos uma citação, fazemos uma citação para que as pessoas percebam que a gente está a fazer uma citação. Não vamos disfarçar. Ora, eu ouço muitas músicas que são pastiche, ou cópias, ou aproveitam completamente a estrutura harmónica e mudam uma nota ou outra na melodia e depois mudam o estilo, a orquestração. As pessoas basearem-se em mais de 60% noutra música para fazer uma música nova – isso não é pastiche, é preguiça.

Nos Ena Pá existe uma tensão constante entre uma parvoíce manifesta e uma inteligência latente. Há nesta opção – de tentar esconder a argúcia e erudição – um anti-intelectualismo, uma desconfiança em relação ao pretensiosismo de determinadas elites culturais?

Nós tentávamos… Estou a acabar um disco a solo e, só agora, com a idade que tenho, vou fazer um disco de canções de amor, ao qual vou chamar talvez “Canções de Dor de Corno”, mas na verdade são canções só com letras de amor e tal. E eu percebi, estando em palco, demorei imenso tempo a conseguir cantar uma canção de amor. Isto é, quando nós pomos uma máscara determinada, nós não somos essa máscara, demoramos algum tempo até conseguir dominar essa máscara, que é o gajo “vão para o caralho”, não sei quê. E depois de a termos feita, é muito difícil descolá-la da cara e sentimo-nos muito pouco à vontade quando não a estamos a usar. Portanto, demorei este tempo todo para fazer um disco de canções de amor, por exemplo.

O que é que há de comum entre o verdadeiro Manuel João Vieira e as suas muitas personagens?

Em que termos, psicanalíticos, em termos de trabalho? O que acontece aqui é que eu penso nas coisas em termos de trabalho e, portanto, como trabalhador da música, há diferenças entre que entre mim e o eu como palco. Há uma diferença porque eu estou a fazer estas canções para um tipo que as interpreta desta maneira, que pode ser aquela máscara ou a outra máscara. Eu, como pessoa normal, que vou à casa de banho, tenho família, tenho relações… Às vezes, penso que utilizo as artes exactamente para conseguir compensar – e isto é uma coisa normal – qualquer coisa que eu não consigo resolver na vida normal, ou pelo menos ajuda-me, é uma espécie de anti-depressivo. Não é bem um escape, é uma construção paralela, na qual eu também espero encontrar algumas luzes sobre a minha situação pessoal. Acho que é um instrumento também de auto-análise.

Nas noites míticas dos Irmãos Catita no Cinearte, nos anos 90, qual é que foi a noite mais louca que te lembras?

Estamos a falar para aí de 400 noites. Às tantas, tenho dificuldade em distinguir umas das outras porque a partir de determinada altura estava efectivamente alcoolizado, era um ritual alcoólico. Lembro-me de situações como as pessoas estarem a dançar em cima das mesas, nós só parávamos quando raiava o sol, lembro-me de haver entupimentos na casa de banho. Nós contratámos, a certa altura, uma senhora que era a Michelle, que era uma stripper mas era uma stripper um bocado agressiva, as pessoas tinham medo dela…

Era mesmo hardcore, ela enfiava o punho na dona, não era?

Nós pedimos para ela não fazer isso. Ela tinha aspecto de lutadora de sumo, e quando arrancava um pêlo púbico para o atirar para a assistência, as pessoas encolhiam-se e fugiam, de maneira que ela causava mais pânico do que outra coisa qualquer. E uma vez, quando a Maria do Céu Guerra foi ver, foi aí o princípio do fim da nossa associação, porque era mesmo extremo. E ainda por cima, a Michelle perguntou-nos “só isso, não querem que faça mais nada? Eu nos meus dias de Barcelona fazia mais isto e aquilo”. E tínhamos convidados, houve noites fabulosas com o Jorge Palma, por exemplo, que era frequentador assíduo; tivemos convidados especiais muito engraçados, sendo que esse era o que aparecia mais.

Quando penso no universo dos Ena Pá, vêm-me à cabeça alguns nomes: Rafael Bordalo Pinheiro, José Vilhena, Frank Zappa. São referências que aprecias?

Frank Zappa é um músico do caraças! É um músico fabuloso, que optou também por ser irónico, não ter umas músicas como “eu gosto de ti, tu gostas de mim” ou coisas assim do género, ou “vamos destruir isto, vamos destruir aquilo”. Portanto, era um tipo irónico que tinha uma mensagem um bocado mais complexa, não era propriamente um pornógrafo. O Vilhena é uma coisa que faz parte da minha infância mesmo, os meus primos mais velhos tinham aquela Enciclopédia Vilhena e coisas assim. Acho que há uma tradição portuguesa que tem a ver com o grotesco e com a caricatura, que vem de muito antes do Bordalo Pinheiro e vem antes das poesias obscenas do Bocage, até vem de algumas poesias galaico-portuguesas. Portanto, há uma linhagem do maldizer que é profundamente portuguesa.

No início, falaste do teu pai, artista plástico de renome. Em que medida é que te influenciou, enquanto pessoa e enquanto artista?

O meu pai começou a influenciar-me mais na minha adolescência. Eu achava que a arte era muito engraçada. Eu tinha gostado muito de uma exposição que vi, a certa altura, do Turner na Gulbenkian, não sei se antes ou depois do 25 de Abril, o que é estranho, uma exposição do Turner na Gulbenkian, fora aqueles dois quadros que há lá. De vez em quando, tinha algum fascínio por alguma arte, mas não me interessava a arte moderna, achava que a banda desenhada era mais interessante porque tinha ao mesmo tempo a parte visual e a parte da literatura. E comecei a dar-me com o meu pai assim mais tarde e resolvi, aliás, ir para as Belas Artes para desenhar melhor, para fazer bandas desenhadas. 

Portanto, não foi por muita influência do teu pai?

Nesse aspecto, não. Talvez eu quisesse fazer a diferença, talvez não me interessasse ser um artista sério. Interessava-me fazer banda desenhada e conseguir ganhar dinheiro com isso. Depois, conheci o grupo Homeostético e aconteceu-me uma vez… Eu era obrigado a pintar, portanto estive um ano a pintar, coisas que não achava muito interessantes mas lá tinha eu que saltar do mundo da banda desenhada para um mundo da pintura, e houve uma altura que tive uma espécie de iluminação com uma ou duas pinturas que fiz. Tive uma iluminação, essas coisas que hoje em dia chamam epifania, que eu nunca percebi muito bem o que é. Mas sim, foi uma descoberta, para mim tinha qualquer coisa de espiritualmente extraordinário, digamos assim. E tornei-me cada vez mais preguiçoso a fazer banda desenhada e comecei a fazer mais imagem, comecei a trabalhar com o grupo e a parte da literatura foi começando a ser canalizada para contos, ou descrições, ou diários e outras coisas assim.

No final dos anos 60, no Brasil, houve o tropicalismo, que questionou as hierarquias do gosto vigentes, celebrando a mestiçagem estética e o kitsch. Os Ena Pá nos anos 90 – também disruptivos, também kitsch…

Atenção, que aquilo que nós fazemos não é exactamente um espelho daquilo que nós gostamos, é mesmo uma coisa composta para ser uma coisa diferente. Nós gostamos de muitas coisas que não são irónicas, não passamos o tempo a ouvir George Brassens e Frank Zappa. Por exemplo, em relação à música brasileira fomos buscar muito pouca coisa, fomos buscar a canção “Puta”, que tem um ritmo bossa nova.

Achas que há algum paralelismo – se calhar é forçar um bocadinho a coisa – entre o tropicalismo e o avacalhanço dos Ena Pá, numa versão ultra hardcore, ou não tem nada a ver?

Não acho que exista. A única coisa comum é uma heterodoxia naquilo que diz respeito aos diferentes géneros musicais, aos géneros étnico-musicais. Na altura, chateavamo-nos de estar sempre a fazer a mesma coisa. Eu agora consegui fazer um disco de fado e é complicado estar a trabalhar sempre no mesmo estilo, no mesmo género musical. Eu não sou fadista, isto é um exercício… Eu acredito em trabalhar um bocado sobre as nossas origens. Nós temos uma associação para-Homeostética, que é a Associação Etnostética, e acreditamos que é possível e inevitável encontrar uma forma maior de estar na arte com assento nas nossas raízes. Por exemplo, toda a gente fala muito bem da arte africana, étnica e não sei quê, e ninguém fala bem do que é uma arte que possa ter a ver alguma coisa, etnicamente, com aquilo que é Portugal. Acho que existe um preconceito contra o que é Portugal, e os portugueses sempre tiveram um certo preconceito contra si próprios.

Os Ena Pá são uma banda profundamente portuguesa…

Sim. O Fernando Pessoa não ia gostar, nas suas notas sobre estética.

De alguma forma, a música popular portuguesa do Zeca Afonso, e dos seus herdeiros, exploraram essa portugalidade de uma forma séria. Vocês exploraram-na sobre a forma do “avacalhanço”…

O José Afonso é um fenómeno, que eu acho mais ou menos à parte. É um fenómeno em termos de cantor e é um fenómeno em termos de escritor de música, embora não fosse o tipo que tivesse uma instrução musical maior.

No “Rap Alentejano”, o Vitorino e o Janita Salomé cantam um bocadinho da “Grândola”…

Que foi a única música que eu cantei ao mesmo tempo que o José Afonso num palco. 

Antes de começar esta entrevista, estavas a tratar ali de uns arranjos para um novo disco a solo que vais fazer. Queres destapar alguma coisa desse projecto?

Estou a gravar na Valentim de Carvalho. As bases já estão todas feitas. Neste momento estou a fazer arranjos, vou fazer arranjos com o Nuno Ferreira e, se calhar, pedir ajuda a uma outra pessoa, porque eu sou péssimo arranjador. Estou aqui num programa de música e isto demora-me imenso tempo. Estou no Google a tentar perceber como é que se fazem algumas coisas. Mas já tenho os arranjos todos feitos em voz, agora é só passar daí para a escrita musical. Este disco era para se chamar “O Tempo das Andorinhas” mas vi alguém que fez uma canção ou qualquer coisa que envolvia andorinhas, então pensei mudar para “Cantigas de Dor de Corno”, que é a mesma coisa. Embora me tenham chamado à atenção “mas aí estás num registo, em termos de título, das músicas de Ena Pá 2000”, quando as músicas não têm nada a ver com isso.

E qual será o universo musical?

Isso só ouvindo. Eu posso-vos mostrar [e assim o fez. Ouvimos dois pequenos excertos e podemos garantir que está a soar muito bem. Aguardamos ansiosamente]. Eu agora comecei a fazer algumas canções para poemas de poetas portugueses, Camilo Pessanha, Cesário Verde, Mário Cesariny, Fernando Pessoa – fiz porque tive um convite para fazer e depois achei porreiro porque são canções muito simples, só com guitarra e cordas.

Sinto que há uma série de artistas que foram influenciados pelos Ena Pá. Reparas nisso?

Não. Tenho visto algumas bandas muito giras que podem lembrar ou sugerir pequenos tiques, mas são pequenas coisas que ficaram e puderam ser reaproveitadas para outro tipo de discurso. Algumas têm a ver com a parte visual, outras têm a ver com atitudes nas letras, portanto, acho que isso está muito dividido. Não existem propriamente, como houve nos anos 90, bandas de humor para aproveitar aquele filão. Neste momento, as coisas dividem-se e percebe-se que algumas coisas foram buscadas, se calhar, a quem nós fomos buscar também. Mas existe esse acontecimento que pode ter ajudado.

Se tiver havido alguma influência, sentes orgulho nisso?

Não, porque a mão final é de Nossa Senhora de Fátima e de todos os Santos. E também de alguns extraterrestres, que nos ajudaram durante todo este tempo, e a nossa música é sobretudo muito ouvida em Marte. Agora esses gajos todos, Elon Mosquito e esses gajos que estão a fazer coisas e naves espaciais, estão a perturbar a vida em Marte. A vida em Marte está no subsolo e quando eles chegarem lá, eles vão perceber. 

Fotos: Duarte Pinto Coelho

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