Destaques

Os melhores discos internacionais de 2019

A diversidade continua a ser um porta-estandarte do Altamont – embalados por gostos distintos e votações em campos antagónicos, a nossa eleição de discos do ano mostra uma amplitude de espectro assinalável, coisa que muito apreciamos. Na lista final que vos apresentamos estão 20 discos, mas as escolhas das 23 pessoas que este ano votaram, listaram um total de 100 álbuns, mostrando que continua a existir muita música de qualidade por aí. Perceber o lugar da colheita de 2019, na imensidão da história da música, é algo que só o tempo dirá.

Debrucemo-nos então um pouco mais sobre as escolhas abaixo listadas, uma a uma, agrupando algumas delas – há cantautores colossais que sempre que editam discos correm o risco de ganhar (Nick Cave, Bill Callahan e o póstumo de Leonard Cohen); há cantautoras que vão cimentando a sua presença (Lana del Ray, Julia Jacklin); há pop rock que continua a alegrar (Vampire Weekend, Kevin Morby, Big Thief); há hip hop e derivados (Tyler the Creator, Solange Knowles); há música brasileira (O Terno e Elza Soares) e há rock mais visceral que teima em perscrutar por novos e estimáveis caminhos (DIIV, Fontaines D.C. e black midi). Mas, bem acima de todos, houve uma pérola que marcou o ano, os recém formados Purple Mountains, de David Berman, que parecia recuperado para o mundo, mas que afinal foi chama ténue que se extinguiu. Foi praticamente consensual a sua escolha para nosso disco do ano.

Para além de mais votado, e dado que estamos em 2019 e o buzz também é importante, há que atirar para cima da mesa o nome de Lana del Rey, claramente o nome mais divisivo nos nossos debates internos – há quem ache que o seu disco é o rosto do ano que agora termina, há quem continue a teimar que não passa de uma fachada de produção, fenómeno de massas corrupto e falso. Continua a ser difícil separar a obra da pessoa que a produz, questão que se aplica não só à música, mas aos vários espectros da sociedade.

Saudemos pois 2019, saudemos o fim da década, marcado por muita música boa, mas sem claros vencedores, disperso que está o gosto das audiências.

Alexandre Pires



20. Fontaines D.C.
Dogrel

Dogrel, disco de estreia dos Fontaines D.C., é mais uma demonstração da força vital que advém do rock, mais uma vez vinda da ilha que se quer afastar da Europa e é, no fundo, uma carta de amor à sua cidade de Dublin (o D.C. no nome é de Dublin City). A banda recorre a uma herança sonora que junta num só pote os Pogues e os Fall, os Joy Division e uns Strokes, dando um embelezamento intenso e puro à coisa. Dogrel é uma boa demonstração de que o rock que salva vidas continua a fazê-lo. Em menor quantidade, é certo, mas com a mesma intensidade que premeia quem procura a salvação por esta via.


19. Bedouine
Bird Songs of a Killjoy

O segundo disco de Bedouine, nascida em Aleppo mas a viver desde cedo nos Estados Unidos, é uma colecção musical que nos permite ouvi-lo em estados de espírito diferentes. Como música de fundo, calmo como uma brisa de verão, ou, de preferência, com muita atenção, encontrando todas as camadas de instrumentos presentes em cada música. Bird Songs of a Killjoy não inventa a roda mas é um trabalho muito pessoal. É doce, sonhador, melódico e é, sobretudo, um disco belíssimo e que nos encanta a cada audição. E de desmancha-prazeres (kill joy) não tem absolutamente nada.


18. Kevin Morby
Oh My God

Oh My God explora a ressaca (não) religiosa de Morby. Ao longo do disco, esta situação acaba por ser examinada de várias formas e feitios. E aqui há um pouco de tudo. Desde as abreviações de OMG! às intermináveis vezes que Deus é invocado nas redes sociais, o Gospel, as rezas. “Congratulations”, por exemplo, começa com mulheres de várias idades a pedir a Deus por misericórdia. “Sing A Glad Song” evoca as qualidades de (outro Deus) Bob Dylan através de um piano imaculado e “O Behold” fecha o álbum num momento angelical que parece ascender aos céus.


17. Leonard Cohen
Thanks For The Dance

“I move with the leaves/ I shine with the chrome/ I’m almost alive/ I’m almost at home”, recita Leonard Cohen em “The Goal”. Num disco de estúdio póstumo (talvez o único a que teremos direito), o homem que já nasceu de fato despede-se por entre doze canções que se encontram naquele espaço que habitou toda a vida: entre o divino e o profano. Cohen foi sexo e tragédia, amor e guerra, religião e humor, história e poesia, canção e humanidade. Thanks for the Dance é tudo isso e ainda saudade.


16. Big Thief
Two Hands

Editar dois álbuns no mesmo ano não é para qualquer banda. Em 2019 tivemos novo debate sobre qual o melhor álbum dos Big Thief, entre U.F.O.F. e este Two Hands. Importará discutir isto, quando são ambos a roçar a perfeição? Quando são ambos fruto de uma banda num claro pico de forma, de uma simbiose tão natural entre os seus membros como mostra a capa do álbum? Com uma mistura perfeita de força visceral e intimidade, Two Hands enriquece ainda mais a impressionante discografia dos Big Thief, que se torna cada vez mais profunda e inspiradora a cada novo álbum.


15. Big Thief
U.F.O.F.

U.F.O.F. é uma pérola, daquelas que precisamos de mergulhar no mar profundo, com escafandro e paz de espírito, para a descobrir. Ou melhor, é um oceano recheado de pérolas, que vamos descobrindo aos poucos, a premiar quem faz da procura activa o seu modo de vida. A premiar quem se atira de cabeça para o mar e por ali fica, imerso, com os sentidos adaptados a uma realidade paralela de se ter água à volta em vez de ar. Uma revisita às raízes, que é também peça chave na criação do folk rock – a base sonora dos Big Thief, às quais também acrescentam laivos de shoegaze ou de rock mais visceral.


14. Vampire Weekend
Father Of The Bride

Father Of The Bride é o disco que marca uma nova fase na carreira dos Vampire Weekend, que estão a crescer e a assumir que a mudança faz parte da vida, é preciso saber lidar com ela. Está descaradamente mais pop, tem mais guitarras acústicas, vai ao country e a Bollywood, as inspirações e influências estão descaradamente mais evidentes, não é o disco que a maioria dos fãs esperava, mas é incrivelmente melodioso e inequivocamente Vampire Weekend.


13. Elza Soares
Planeta Fome

O que dizer de Elza Soares, que teima em permanecer firme e com sangue na guelra nesta sua mais recente ressurreição artística? Referir apenas que Planeta Fome é um disco urgente. Um disco que recupera a ideia de que ouvir música pode não ser apenas um gesto de pendor cantarolante, coisa que se assobia enquanto pouca atenção se presta à vida. Pode (e deve, por vezes) ser mais do que isso. Pode ser um gesto cívico, uma arma de combate que tem nas palavras as suas únicas balas. Até porque, se forem perdidas, pelo menos não matam gente inocente.


12. DIIV
Deceiver

Em Deceiver chegamos ao terceiro capítulo da aventura DIIV, no qual Zachary Cole Smith, o ator principal, faz as pazes com o seu conturbado passado. Neste disco é clara a introdução de um lado mais grunge às canções, mais pesado e obscuro, que encaixa como uma luva no shoegaze a transpirar reverb, patente nos discos anteriores, tornando o álbum expansivo e mais intimamente relacionado com o tema de “fui drogado, já não sou, mas as marcas estão cá para quem as quiser ver”.


11. Michael Kiwanuka
KIWANUKA

Michael Kiwanuka saiu da obscuridade para o quase estrelato com o seu terceiro trabalho de estúdio, KIWANUKA. O álbum de entoação gospel, cheio de coros soul e um toquezinho de funk, sem esquecer a guitarra, soa bem do início ao fim. Tudo isto pautado pela voz quente de Kiwanuka, que se enquadra perfeitamente. Mas há mais: há cordas, há metais, uma harpa e até guitarras à Hendrix. KIWANUKA é uma excelente evolução face aos trabalhos anteriores, menos produzidos e longe de arriscarem tanto.


10. Karen O + Danger Mouse
Lux Prima

A sensualidade rock de Karen O junta-se às orquestrações elegantes de Danger Mouse num disco que é banda sonora de um qualquer filme sobre viagens ao Espaço, atmosférico e contemplativo mas com traços pop altamente viciantes. Como o nome indica, este disco é um jogo de luz e escuridão. Com uma narrativa sonora, mais do que lírica, esta é uma obra circular, intensa, dramática, contemplativa, mas sempre sob o signo do formato canção. Um disco cheio de espaço – entre as notas cabem mil respirações – e cheio de Espaço – pode ser visto como um dia completo, que começa e acaba na madrugada.


9. Julia Jacklin
Crushing

Como compositora, Julia Jacklin podia achar que um conjunto de canções com uma mensagem tão forte dispensava a qualidade musical, mas não é isso que fazem os bons compositores de canções e por isso não é isso que acontece com Crushing. Há grandes malhas, com guitarras distorcidas e ritmadas e explosões de energia mas também baladas muitíssimo bem esgalhadas. E no centro, a servir de cola às letras honestas e composições bem pensadas está Julia Jacklin. Mas o que é mais importante nunca esquecer – e que Crushing lembra a cada audição – é que o mundo é um sítio lixado, no entanto, Julia Jacklin compôs um disco que vai ajudar a salvar esse mundo.


8. black midi
Schlagenheim

O dizer “primeiro estranha-se, depois entranha-se” é a melhor forma de catalogar este álbum de nome esquisito dos black midi. O universo criado pelos britânicos é totalmente experimental, aproximando-se, à vez, de diferentes sonoridades que compõem o espectro do rock, mas parecendo ser pré tudo o que já se fez. O caos que é gerado é tão primário que a banda parece realmente nunca ter ouvido música na sua vida, tão alheia que está à noção vigente de ritmo e harmonia que domina esta indústria.


7.Lana Del Rey
Norman Fucking Rockwell

O sexto disco de Lana Del Rey era um dos mais aguardados deste ano. Tal como Norman Rockwell, também Lana Del Rey é hoje considerada uma espécie de sumidade no retrato da sociedade norte-americana. Tem sido assim em todos os álbuns e, neste aspecto em particular, Norman Fucking Rockwell! não é diferente. Tal como se mantêm as canções sobre como é viver nos dias de hoje, com vitórias e derrotas e relações problemáticas e até submissas com homens que nunca saberemos se são personagens reais ou imaginárias. É o disco onde a composição lírica de Lana e a composição musical do produtor Jack Antonoff melhor se conjugam e atingem o seu maior patamar.


6. Tyler, The Creator
IGOR

IGOR está no mundo, e nos nossos ouvidos, desde 2019, mas parece que existe desde sempre, não fosse este «o» projeto que melhor representa a musicalidade de Tyler. Em IGOR fica a ideia de que Tyler parece conseguir atingir aquilo que havia iniciado em Cherry Bomb: ambos assentam naquele soul-jazz negro característico da costa oeste dos Estados Unidos da América. Tyler também sustenta que este não é um álbum de rap e confirmamo-lo em 39 minutos, divididos em 12 faixas, nas quais estamos acompanhados, não só por Tyler, como também por uma vaga de talentosos músicos que, nos últimos anos, se aproximaram da loucura e da criatividade do rapper.


5. Bill Callahan
Shepherd In A Sheepskin Vest

Nestes seis anos ausente dos discos, Bill Callahan encontrou a mulher da sua vida e teve um filho. E viu-se perante algo que nunca conhecera: o norte-americano é, agora, um tipo feliz. Callahan, o tipo melancólico e muitas vezes lúgubre, não se limitou a encontrar a felicidade no seu lar: ele canta exactamente sobre isso. O ritmo aqui é lento, calmo, satisfeito. As histórias e as canções sucedem-se bonitas, sem sobressaltos, sem rupturas. A voz do ex-Smog continua magnífica, como que feita de mogno nobre, e comandando a autoridade de sempre. Bill Callahan encontrou a paz e a felicidade, e entrega-nos um disco bonito e com a qualidade do costume.


4. Solange
When I Get Home

When I Get Home insere-se numa linhagem de R&B alternativo, íntimo e experimental que se tem começado a alastrar na segunda metade desta década. No seu último disco, Solange desconstrói-se ainda mais, criando um disco genuíno e com uma personalidade muito vincada, surgindo no seu panorama musical como o suspiro de alívio de uma artista que está mais preocupada em seguir a sua musa do que em provar o seu valor aos críticos e às massas. Esse alívio e descontração estão patentes no alinhamento, constituído principalmente por canções curtas, minimalistas e sem grande apego por estrutura ou coerência.


3. O Terno
<atrás/além>

A banda O Terno vestiu um fato diferente do que costumava vestir, e é certo que lhe assenta como uma luva que parece ter sido moldado ao corpo de Tim Bernardes. E, por extensão, à banda que ele próprio lidera. O novo trabalho é constituído por doze canções, todas delicadas, clássicas (no sentido composicional mais restrito), mas bastante contemporâneas nos discursos poéticos produzidos. O presente disco parece começar onde Recomeçar, disco a solo de Tim, termina. Ou seja, de mãos e corações dados e comprometidos com um novo e mais delicado caminho.


2. Nick Cave & The Bad Seeds
Ghosteen

Parece haver em Ghosteen uma cisão, um afastamento do corpo, uma libertação do espírito e da alma. Nick Cave é, ele mesmo, o protagonista dessa complexa metamorfose, porque já só lhe importa alcançar o etéreo, aquilo que o espera para lá da existência. É para esse local que aponta as suas forças. Os temas do disco apresentam-se totalmente descarnados, desmaterializados, como se apenas a sua essência importasse. Adornos e adereços são inexistentes. Só a crueza importa. Nick Cave chega de alma aberta para nos oferecer um arrepiante testemunho artístico. No seu coração há melancolia, sofrimento e espectros de crianças que flutuam num céu imaginário de adultos em busca de paz.


1. Purple Mountains
Purple Mountains

A alma e a voz dos Silver Jews regressou sob um novo nome e, através dos Purple Mountains, com ajuda dos Woods, fez um disco pessoalíssimo e extraordinário, naturalmente marcado pelo lugar sombrio onde Berman viveu. A perda da mãe e, sobretudo, o fim do seu casamento, são os acontecimentos que servem de coordenadas para as extraordinárias letras que compõem este trabalho. O que é fantástico e pode ser surpreendente para quem ainda não ouviu este disco é que este está longe de ser um disco deprimente. É outro dos velhos truques de Berman, falar de algo muito sério com música deliciosamente agradável, e isso há por aqui em abundância. Infelizmente, quando o seu regresso à ribalta parecia eminente, os seus fantasmas regressaram para o levarem de vez deste mundo. A depressão é uma doença e não deve ser glorificada. Mas a depressão, a desadequação de um ser humano, deu-nos um dos discos mais profundos e mais bonitos dos últimos anos.

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