Um inesperadamente bonito disco acústico, onde Cameron Picton nos atira com as muitas ideias sonoras que lhe percorrem o ser.
Os black midi foram, nos últimos anos, das bandas mais divisivas que tivemos o prazer de conhecer – simplesmente não há forma de se ser indiferente ao caos com que nos brindam desde 2019, aquando do lançamento de Schlagenheim. Depois disso houve mais dois discos, Cavalcade e Hellfire, intensos, frenéticos, mas vistos como “batedeiras da Lisnave” por quem não se deixou encantar pela falta de harmonia reinante.
A banda entrou num hiato indefinido em agosto de 2024, altura em que cada membro seguiu diferentes caminhos: Geordie Greep lançou o seu álbum a solo The New Sound, que vimos em Coura no ano passado; o baterista Morgan Simpson trabalhou com Nala Sinephro no seu excelente Endlessness (2024) e também com Little Simz, contribuindo para Lotus (2025); o baixista Cameron Picton formou esta My New Band Believe.
Eu desconhecia esta última informação, até ao dia de lançamento de My New Band Believe. Quando a banda me foi lançada para cima da mesa, desconhecia inclusivé quem estava por trás do projecto, e só o descobri após já estar conquistado, quiçá à terceira audição. E no entanto, tudo fez sentido quando tomei conhecimento, sendo a peça que faltava no puzzle a canção “Still”, de Hellfire. Terá sido uma primeira amostra do que Picton pretendia fazer no seu futuro, e agora eis que esse futuro se tornou presente.
A My New Band Believe (nome de difícil digestão, admito) é no fundo uma orquestra, na qual Picton é o maestro e compositor. A lista de contribuidores para este disco é vastíssima, e engloba sobretudo membros dos caroline, que ainda recentemente nos visitaram e que encaixam como uma luva nesta sonoridade que o maestro Picton nos oferece.
O single que já se conhecia antes do lançamento do álbum, “Numerology”, acabou por ficar de fora do alinhamento de My New Band Believe, possivelmente por Picton ter querido criar um conceito mais específico, conseguindo o equilíbrio possível e delicado entre chamber pop, art rock e folk experimental. Logo a música de arranque, “Target Practice”, evidencia uma elevada ambição estrutural, desaguando em “In the Blink of an Eye”, irrequieta, tensa (“Do you ever feel like somebody’s watching you?”), mas com o narrador a tentar convencer-nos que está tudo bem (“Don’t cry / Don’t scream / It’s just / A dream”). Depois mergulhamos no coração da escuridão (wink wink Joseph Conrad) durante oito minutos e meio, sendo o final apenas instrumental, arrastando-nos entre a penumbra. Mais à frente há outra de igual duração e densidade, “Actress”, mais lírica e inquietante, onde o ritmo varia constantemente, qual montanha russa cheia de loops e descidas abismais.
Mas o momento mais alto do disco é, inequivocamente, “Love Story”. Uma delícia de música, arranque suave com piano ligeiramente enigmático, letra que aparenta banalidade doméstica, viragem brusca a meio para outra fase de relação, tensão no ar. Tem doses iguais de melancolia, ternura e saborear de pequenos momentos, e será uma das minhas músicas favoritas que 2026 já trouxe.
My New Band Believe é um trabalho denso e multifacetado, onde a experimentação não compromete a expressividade, pelo que vos peço, encarecidamente, que acreditem nesta nova banda e a vão ouvir.