Destaques

Os melhores discos nacionais de 2018

Ao contrário do que se escreveu sobre o nosso top internacional – a propósito de escolhas fragmentadas – na música portuguesa, 2018 teve um vencedor claro: Júlio Resende.

Cinderella Cyborg foi escolhido como melhor álbum do ano por seis membros da nossa redacção e outros cinco elementos colocaram o disco no seu top 10. Nesta aliança perfeita entre ser humano e máquina, o compositor e pianista assinou este ano um álbum que deixa uma marca importante.

No entanto, Júlio Resende é o único denominador comum que encontramos entre as escolhas da nossa redacção este ano. Os restantes dezanove álbuns que elegemos espelham a mesma diversidade que detectámos entre os discos internacionais.

Temos os novos (Reis da República, Joana Espadinha, Francisco Oliveira ou Madrepaz), temos os mais que consagrados Sérgio Godinho e José Mário Branco (que entra nestas contas porque as canções deste disco nunca tinham sido lançadas ou se encontravam perdidas, embora sejam antigas), e temos os nomes já firmados desta nova geração (Linda Martini, Norberto Lobo, Diabo na Cruz, Filho da Mãe ou Glockenwise).

E também na música nacional, a vitalidade estilística é de saudar. Entre os nossos 20 preferidos, encontramos jazz, instrumentais de viola e de piano, rock popular e rock’n’roll, revivalismo 80s e country de Bucelas.

A música portuguesa está a viver uma Era de tremenda produtividade. Constatamos isso anos após ano, mas agora em 2018, já é mais seguro afirmar que são cada vez menos os fenómenos de curta duração, e cada vez mais as bandas novas que surgem e quase automaticamente se tornam relevantes. Daqui a 20 anos, vai continuar a falar-se desta época.

Duarte Pinto Coelho


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20. Francisco Oliveira
On The Act Of Reminding

Se os trabalhos anteriores do jovem compositor feirense Francisco Oliveira nos ofereciam promessas, On The Act Of Reminding surge-nos como uma certeza. O piano e a memória dão o mote para pequenas suítes de loops de piano, violino e chalumeau, engrenagens melancólicas de uma electroacústica singular. Neste rememorar, o passado sonifica e é sonificado, é significante e significado. Um disco essencial naquilo que foi 2018 para a música dita experimental (ou exploratória) feita em Portugal.


19. David Bruno
O Último Tango em Mafamude

David Bruno tece uma ode musical ao Portugal suburbano do início dos anos 90, num disco intrigante que mistura vulgaridade romântica com uma elegância inesperada. Talvez o ensejo fosse mesmo o de homenagear os Marantes desta vida, mas o que saiu foi mais sofisticado do que tudo isso. Mais do que Emanuel ou Toy, “O último tango em Mafamude”, na sua composição, soa mais a algo que um certo Serge Gainsbourg (que muitas vezes andou entre o clássico e o vulgar melhorado) faria, se tivesse nascido em Gaia e fosse ao café em Mafamude, no seu fato de treino de fim de semana.


18. X-Wife
X-Wife

Ao quinto disco, e primeiro homónimo, os X-Wife montam uma festa dos diabos, num trabalho com produção e malhas irrepreensíveis. As coordenadas que fizeram deles uma das mais coerentes e interessantes propostas musicais portuguesas estão aqui todas. A impecável fusão entre rock e electrónica, o permanente jogo da guitarra e dos teclados, o ritmo como caminho para a salvação. Um trabalho positivo, bem-disposto, ritmado, acelerado, gingão e soalheiro. No geral, X-Wife é um disco muito coeso e notoriamente bem trabalhado, desde as camadas de electrónica aos coros certeiros, numa produção absolutamente impecável.


17. Filho da Mãe
Água Má

Lançado em maio, Água-Má é o quarto álbum do guitarrista Rui Carvalho. Gravado entre o continente e a Madeira, é um disco complexo e que se vai desvendando aos poucos. A belíssima capa que o encerra surgiu antes de qualquer música e talvez por isso seja o registo mais impressionista do compositor, suscitando vibrantes e oníricas imagens a cada segundo que passa.


16. Plastic People
Visions

Continua a haver vida musical em Alcobaça. Em 2018, os Plastic People fazem-nos lembrar os Echo & the Bunnymen, os Suede, os The Horrors e tanta outra coisa boa. O que ainda falta em identidade própria é compensado nas certeiras influências, num belíssimo punhado de canções e numa estética muito sedutora onde a eletrónica ganha fulgor e o punk-pop entrelaça-se à séria com a new-wave.


15. Medeiros/Lucas
Sol de Março

Em Sol de Março, o terceiro disco da dupla Medeiros/Lucas, a voz de Medeiros está ainda mais quente e os instrumentais de Lucas mais cheios do que nos dois antecessores. E as letras de João Pedro Porto continuam a reflectir uma açorianidade das quais os principais mentores do projecto não desejam – nem devem – abdicar. E apesar de continuarem a cantar a tradição açoriana, desta vez há piscares de olhos a África e à Europa, porque cantar e experimentar continua a não incomodar Pedro Lucas e Carlos Medeiros. Ouvir as suas canções não substitui uma ida aos Açores (na verdade, poucas experiências podem substituir a sensação de chegar às ilhas), mas serve como um bom complemento ao cancioneiro português.


14. Diabo Na Cruz
Lebre

Lebre é um álbum bipolar, que oscila entre a alegria de bailarico e a epopeia sombria. O folclore tuga permanece mas desta vez vestido de prog rock. Gaiteiros de Lisboa meets King Crimson. A mistura de órgãos Hammond, guitarras musculadas vintage e um exército de bombos desenha paisagens épicas e trágicas: montanhas gigantes engolidas pelo fogo, mantos de cadáveres carbonizados, ventos sepulcrais assobiando na noite escura. Nunca os Diabo foram tão imponentes e desolados, tão telúricos e devastados, tão desmedidos e destroçados: a pátria ferida a gemer…


13. Cave Story
Punk Academics

Os Cave Story vão somando experiências e influências e apresentam um disco mais maduro, numa abordagem que se mantém descomplicada, alta e com bom som, como se quer neste tipo de rock. Em 2016, com West, os Cave Story mostraram-se ao mundo; agora libertam-se dentro do rock, misturando tudo neste Punk Academics, como se fosse uma aprendizagem e ensino superior do rock, onde o grupo é professor e aluno e onde as várias influências da história do punk fazem parte do corpo de estudo. Um disco para ouvir aos saltos pela casa, pela rua, por todo o lado.


12. Reis da República
Fábulas

Fábulas mostra-nos uma banda que, tendo como matriz a estrutura da canção pop, não se limita a fazer o óbvio. Neste cozinhado inesperado cabe muita coisa: pop, rock, psicadelismo, prog, toques pastorais, blues e outras coisas que, de tão misturadas, se tornam difíceis de identificar (o que, aliás, nos parece desnecessário). Se esta indefinição é sinal, na maior parte das bandas jovens, de indecisão, em Fábulas há uma descomplicação estilística absolutamente encantadora. Sejam as flautas que surgem inesperadas mas tão refrescantes e adequadas, seja a voz naif e ao mesmo tempo segura de Madalena Tamen – confortável e sedutora nos vários registos -, seja nas teclas progressivas de José Sarmento, que dão ao som da banda boa parte do seu carácter distintivo e diferente.


11. António Zambujo
Do Avesso

Midas, reza a lenda, pediu aos deuses gregos para transformar em ouro tudo o que tocasse, dada a sua ambição desmedida e gosto pelo metal dourado. Cedo percebeu que o seu desejo era, no fundo, uma maldição. Posto isto, avancemos uns anos até 2018, onde temos, no nosso cantinho à beira-mar plantado, um tipo de seu nome António Zambujo, que, não conseguindo transformar tudo em ouro, transforma, isso sim, coisas complexas, detalhadas, ricas em pormenores em simplicidade absoluta e conquistadora. Consegue juntar no seu caldeirão várias tradições portuguesas como o cante alentejano, fado, influências do outro lado do Atlântico (bossa nova e MPB) e, por fim, um lado crooner à la Tom Waits para assim produzir Do Avesso, o seu oitavo disco.


10. Linda Martini
Linda Martini

“Quero tudo ao mesmo tempo”, ouve-se a certa altura em Linda Martini. Os quatro da linha de Sintra já têm quase tudo – público, respeito, bons discos – mas chegaram à sua consolidação plena com passos seguros, sem pressas, com afinco. Intempestivo no arranque, mais contemplativo a espaços, Linda Martini é “só” mais uma prova de vitalidade de uma banda rock que tem já largas dezenas de ótimas canções e um punhado de excelentes discos. Tudo isto é rock, tudo isto é Portugal, algo disto é fado. Celebrar os Linda Martini, a sua obra e vitalidade é, ao mesmo tempo, voltar aos pavilhões dos liceus de Queluz e Massamá, onde a aventura começou, e sorrir com o tanto já conquistado e o muito que há ainda por atingir.


9. Joana Espadinha
O Material Tem Sempre Razão

Material Tem Sempre Razão, segundo álbum de Joana Espadinha, mostra uma artista apurada nas composições, sem medo de arriscar e abraçar o lado mais dream pop do seu som. É um disco sólido que revela a cantora, sem vergonhas, ao mundo. E este é um daqueles álbuns que ganha todas as vezes que o voltamos a ouvir. Um som que não tínhamos notado, um verso que tinha escapado num disco em que, além da voz de Joana Espadinha, o que brilha são as letras. Dream pop ou pop melancólico com uma boa dose de piada, que fica no ouvido e dá vontade de cantar.


8. Sérgio Godinho
Nação Valente

No seu novo disco de originais, Sérgio apropria-se de músicas de outros, fazendo-as suas. O canibalismo compensa: Nação Valente é um dos melhores Godinhos dos últimos anos. Dez grandes canções com melodias bonitas e refrões certeiros. Dez grandes arranjos, com muita guitarra acústica e percussões a darem um travo orgânico ao disco. Dez grandes letras nas quais as suas velhas temáticas regressam para nos assombrar: a sede da procura, o desejo, o carinho pelo nosso Portugal imperfeito, os amores em ruínas, a solidão.


7.Filipe Sambado
Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo

Num salto de gigante, Filipe Sambado inscreve o seu nome na mais alta categoria de compositores e intérpretes. Um disco essencial em 2018. Composições e letras brilhantes e os temas da discriminação, sexismo e objetificação, que atravessam todo o álbum, são pertinentes e bem trabalhados. De alto gabarito são também os acompanhantes, Alexandre Rendeiro (Alek Rein, Sun Blossoms), Manuel Lourenço (Primeira Dama, Migas), Adriano Fernandes (C de Crochê) e Luís Barros que, fazendo jus ao nome, acompanham Sambado nesta viagem musical.


6. Madrepaz
Bonanza

Bonanza é um disco mais confiante que Panoramix. Vai a mais sítios e explora mais linguagens musicais, conseguindo nunca perder a identidade Madrepaz. É, sem receios, a confirmação de uma das mais interessantes bandas portuguesas dos dias de hoje. E com um bónus que valorizamos: num tempo em que a ironia ganhou contornos de divisa nobre e serve muitas vezes como salvo-conduto para a aceitação artística, Bonanza é um disco sem um pingo dessa muleta. Há um respeito pela música que se faz e pela mensagem que se quer transmitir, num classicismo tranquilo que nunca cede à tentação do exercício irónico, cínico ou pós-moderno. É um belo disco. Só. Dêmos graças.


5. Norberto Lobo
Estrela

Sabemos que Norberto é irrequieto, que não gosta de ficar muito tempo no mesmo poiso estético. Mas, apesar da fama de saltimbanco, nada nos tinha preparado para algo tão radicalmente diferente como um disco de jazz. Estrela rompe também com o individualismo e virtuosismo que até hoje o definiam. Onde antes Norberto era lobo solitário, agora anda em alcateia de quatro: trompete, bateria, violoncelo e guitarra eléctrica. Onde antes era rapidez e esbanjamento, agora é simplicidade e contenção. A guitarra é aquática e nostálgica, ensopando-nos de infância e maresia. As melodias são lindas de morrer, doces e tristes ao mesmo tempo, como a terna melancolia do passar dos dias.


4. Dead Combo
Odeon Hotel

Qual é o segredo da arte dos Dead Combo? Simples: confundirem-se, numa feliz mania das grandezas, com a sua própria cidade. A fórmula é infalível. Como poderia Odeon Hotel não ser belo, mestiço e cosmopolita se ele é a própria Lisboa vendo-se ao espelho? Odeon Hotel é a nossa Lisboa atravessando a rua, indo do que foi para o que será. Velha e nova. Antiga e aberta. Triste e solar.


3. José Mário Branco
Inéditos -1967-1999

José Mário Branco dá-nos 26 músicas que foram ficando injustamente esquecidas ou não editadas ao longo da sua carreira, num exercício aventureiro que nos leva das cantigas de amigo ao ié-ié. São 26 temas, hora e meia de música. É claro que, com origens tão dispersas tanto cronologicamente como de intenção na sua génese (discos próprios, encomendas específicas, etc), unidade é coisa que não existe em Inéditos. É difícil e até algo descabido analisar este álbum enquanto tal, porque o único conceito é o seu autor. Desligando a análise de uma coerência que seria sempre impossível, podemos mergulhar sem complexos nesta alegre esquizofrenia, que nos mostra bem a amplitude do arsenal lírico e estilístico da voz do célebre “FMI”.


2. Glockenwise
Plástico

Apesar do título, nada na vida nova dos Glockenwise é de plástico. Não é fingido nem é descartável. É uma nova forma de estar, a cantar na língua materna, a fazer uma música mais suave, mas guardando sempre e acima de tudo a identidade já claramente definida. E este é um álbum que vamos querer mostrar aos nossos netos. O alinhamento do disco é certeiro, as primeiras três canções arrancam do lugar onde Heat parou e as restantes seis músicas são o encadeamento lógico que vai mostrando os novos caminhos da música do grupo. Um álbum que é a mais perfeita manhã de sol.


1. Júlio Resende
Cinderella Cyborg

Cinderella Cyborg vive à altura do seu nome – misturando a beleza da personagem da Disney com a distopia de um futuro possível. O piano de Resende assume o papel do humano, cérebro pensante que conta com contrabaixo, guitarra elétrica e bateria do seu lado, ao passo que pads, gravações e máquinas de sons assumem o outro lado, o da música eletrónica. Dificílimo de descrever em palavras (como aliás qualquer um que esteja nesta linha de “trangressão” entre géneros), Cinderella Cyborg é um assombro de disco, daqueles que nos ficam na retina do ouvido e não se dissipam na espuma dos dias, e que a cada audição nos mostra novos recantos que antes tinham passado despercebidos. A descoberta é pois, constante.