Numa rara matiné de sábado à tarde, com feeling de domingo por ter sido feriado do 1.º de maio no dia anterior, Pedro Antunes reestreou, embora num formato intimista, mas igualmente imersivo, o seu mais recente trabalho Asas de Borboleta num espaço emergente em Alvalade, a Casa da Mully.
Num café acolhedor no centro da cidade, que esconde na sua cave uma pequenina sala de concertos transformada e decorada para a ocasião com um rigor instalativo, a sala parecia ter sido convertida num pequeno ninho de borboletas. Fruto da pequenez do espaço, da disposição em palco, da luz, dos movimentos e até da própria proximidade à plateia, obrigada a juntar-se ao máximo, tudo contribuía para a forma como cada elemento visual prolongava aquilo que estava prestes a ser dito e tocado num cenário que se aproximava de um espetáculo performativo, onde corpo, som e imagem coexistiam como partes de uma mesma narrativa, com um início, meio e fim cuidadosamente pensados pelo artista. Repleto de mensagens reproduzidas em gravação e palavras ditas ao vivo, criou-se um diálogo íntimo e permanente entre o Pedro e a sua mãe, como se a música servisse também de arquivo emocional e lugar de reconciliação com o passado. Frente a frente, com o também músico e produtor Daniel Constantino, responsável pelas teclas e pelo processamento de som em directo, os dois encheram o palco de ruído e camadas ambientais que nunca funcionaram nunca só como acompanhamento, mas como paisagem sonora ilustrativa desta erosão do corpo. Um som semelhante ao da maresia confundiu-se frequentemente com um ruído constante ao longo de praticamente toda a atuação, tornando-se quase uma presença fantasma a par das projeções em tela, síncronas com o som, que visualmente traduziam aquilo que a música apresentava como sugestão.
O disco, cujo título recupera o próprio símbolo associado à doença de que o artista padece, a Epidermólise Bolhosa, assume-se como um exercício de consciencialização. Esta doença rara caracteriza-se pela extrema fragilidade da pele, tão delicada que é frequentemente comparada às asas de uma borboleta. E é precisamente dessa imagem que nasce este trabalho de Pedro Antunes. Conhecido por acompanhar artistas como Inóspita, MURTA, xtinto ou Emmy Curl, o baterista apresenta-se a solo com um disco sensível, frágil e corajoso, construído não só enquanto desabafo íntimo, como também de gesto de visibilidade para uma condição rara que muitos desconhecem. Ainda assim, o concerto recusou sempre cair na explicação linear. Havia qualquer coisa de pedagógico na forma como a experiência era construída, quase como uma aula sobre a doença, sem nunca perder a sua dimensão artística. O que ali se expunha não era apenas um diagnóstico ou uma narrativa de dor e sobrevivência; era a tentativa de habitar publicamente uma pele que não pode ser despida e encontrar nela outra possibilidade de existência.
Ao longo de cerca de quarenta minutos, o espetáculo desenrolou-se em cima do palco e na plateia com o artista, em diferentes momentos, a querer despir em palco aquilo que não consegue abandonar fora dele, transformando a sua vulnerabilidade em matéria performativa. É talvez aí que o concerto encontra a sua maior força: na forma como prova que a música pode funcionar não só como mecanismo de sobrevivência, mas também como elemento de transformação. Não apenas pela honestidade do que o Pedro ali expõe, mas pela maneira como cruza som, imagem, performance e corpo numa visão absolutamente total, ora constante, ora sincopada, da sua realidade.
Perto do final, a imagem da borboleta a regressar ao casulo introduziu uma das sequências mais simbólicas da atuação. Provavelmente não como regresso ao ponto de partida, mas como possibilidade de reconstrução, finalizando num tom, até do ponto de vista musical e harmónico, mais esperançoso. Depois da erosão, da doença, do ruído e da entropia, surge uma ideia de renascimento, de um corpo novo que acorda lavado das impurezas acumuladas, capaz de finalmente voltar a levantar voo. O que em disco dura pouco mais de doze minutos expandiu-se ao vivo, ganhando, para além do tempo, uma dimensão física e emocional.
Pedro Antunes prova assim ser muito mais do que um mero músico que acompanha outros artistas estabelecidos. Afirma-se aqui como um verdadeiro criador, capaz de transformar experiência íntima numa linguagem artística multidisciplinar, cruzando composição, performance, imagem e encenação com uma maturidade rara e em condições técnicas desfavoráveis. Há uma coragem evidente na forma como expõe o seu corpo e a sua fragilidade sem cair no sentimentalismo fácil. Asas de Borboleta não funciona apenas como concerto ou objeto de consciencialização, mas como manifestação artística completa de alguém que parece finalmente reclamar um espaço autoral absolutamente seu.
Texto de Luís Judícibus, fotografias de Gonçalo Nogueira.









