Um disco para uma vida. Um álbum que nos conforta, que se nos cola à pele e nos faz pensar que a vida pode ser mesmo bela, sedutora e mágica. Eis, The Greatest, a obra eterna de Cat Power.
Ah, a tão desejada eterna juventude! Há muito que se anseia e se procura o segredo para tão imensa vontade humana. O percurso, no sentido do seu encalce, será tão longo quanto impensável, pelo menos por agora. No entanto, existe um caminho alternativo bem simples, que mitiga o que ainda não se obteve. Em pouco mais de quarenta minutos, temos em mão o que existe há vinte anos. Essa redução de tempo torna-nos duas décadas mais novos e o mistério esclarece-se na viagem que fazemos ao tempo em que pusemos a rodar The Greatest, de Cat Power, pela primeira vez. Depois, é repetir e repetir e repetir a forma, que o denso e insondável mistério fica instantaneamente resolvido. Não se trata, como é óbvio, de qualquer contrato feito com Deus, antes com a deusa Charlyn Marie Marshall, ou Chan Marshall, se preferirem, ou ainda Cat Power, como preferem quase todos, nós incluídos.
No entanto, o álbum encerra também um outro segredo igualmente importante e decisivo para que se mantenha a estima que por ele temos. Trata-se da sedução que ele emana de cada poro de som produzido, de cada pedaço de pele da alma que o canta, tão celestial como profana. Uma voz marcada, simultaneamente, por um grão divino no timbre, e por algo que tresanda a ressaca mundana.
Aqueles instantes iniciais de “The Greatest”, que poderiam perfeitamente ser de uma qualquer grande composição dos Bad Seeds e de Cave são, afinal, de uma canção com o duplo dom atrás mencionado. Não será a juventude uma eterna (enquanto dura) sensação de eternidade? Ou a sedução um esgar de encantamento que nos parece, enquanto não se escapa, poder durar até ao fim dos tempos? Para que tudo isto se aceite e se sinta, muito contribuem os arranjos do álbum, no ponto exato entre a contenção e a elegância, saia curta e justa que balança ao sabor da voz que se insinua e do corpo que se arrepia ao ouvi-la. Assim sendo, o charme sedutor dos temas de The Greatest (“Living Proof”, “Lived In Bars”, “Empty Shell”, “Where Is My Love”, “The Moon”, bem como todos os outros, caramba!) comportam esta extraordinária qualidade: não se nos impõem, antes parecem convidar-nos em cada piscadela de piano, de voz, de sons para que nos entrelacemos com eles. É difícil, acreditem, magia maior e mais profunda do que esta, daí a nossa profunda devoção quase religiosa, quando ouvimos cada segundo do disco como se de um leigo rosário se tratasse, conta a conta, canção a canção, até ao derradeiro segundo de “Love & Communication”, cujo título parece contribuir para o que aqui vamos referindo.
Em The Greatest não há dramatismos baratos, não há facas banhadas por sangues de amores desesperados. Não há nada que nos desvie do essencial: a voz de Cat Power, que parece não se importar de não ser ouvida, ou que parece relativizar o caráter absoluto do seu magnetismo. É esse tremendo sentido melódico e esquivo, prosaico e elevado que endeusamos quando ouvimos The Greatest. E essa talvez seja mesmo a essência do que mais procuramos na arte, mesmo que de forma ínvia, sem (quase) pensarmos nisso: o que fica connosco torna-se eterno, porque a sedução que nos une terá o mesmo fim que nós, embora o mundo continue e outros contágios se façam de iguais ou semelhantes maneiras. A música será sempre o convite supremo, que torna impossível a recusa.
Ouvir The Greatest vinte anos depois de ter sido dado ao mundo faz-nos acreditar em muitas coisas. Algumas delas já aqui as referimos, mas a derradeira pode muito bem ser esta: por vezes, é melhor não se levantar a voz, se quisermos ser eternamente escutados.