Listas

Os melhores discos nacionais de 2021

A História jogava a seu favor – em ano que há disco de Bruno Pernadas nunca ninguém o bateu no topo da classificação do Altamont. E 2021 serviu para confirmar a regra – Private Reasons, com as suas constantes mudanças de direção e caminhos labirínticos de cada canção e a sua elegância pop conquistou-nos a todos.

O nosso top é orgulhosamente diverso. Este ano, com 16 pessoas a votar, houve 51 discos escolhidos ao todo, e a recolha dos mesmos trouxe-nos um pouco de tudo – fado reinventado, fado tradicional, pop desavergonhada, rock de banda, cantautores e cantautoras, krautrock, jazz, hip hop, canções de intervenção, sonoridades de raiz africana, todo o esplendor de Portugal. De nomes consagrados como Rui Reininho, JP Simões (em versão Bloom), Carlos do Carmo a totais desconhecidos como Conferência Inferno e O Príncipe. De portos seguros como Francisca Cortesão e os seus Minta & the Brooktrout à capacidade inventiva dos Fogo Fogo. Houve também um bom equilíbrio entre discos cantados em português, inglês, ou não cantados de todos.

Foi um ano ainda quase sem concertos, para apreciarmos como resultariam estes discos ao vivo, sem festivais para descobrir em palco o potencial de uma nova banda a dar os seus primeiros passos e possivelmente isso levou a mantermo-nos fiéis a bandas que já conhecíamos. Ainda assim o disco de Jónatas Pires foi uma bela surpresa, nas palavras de um nosso colaborador “o disco mais verdadeiro do ano”, com a canção “O Padeiro de Portugal” a ser encarada como um excelente retrato do que é o nosso cantinho à beira-mar plantado.

Alexandre Pires



20. Fred
Series Vol. 1 – Madlib

Hip Hop instrumental? Jazz com ritmo de hip hop? Um baterista capaz de acertar o ritmo à vontade da missão em mãos? Já sabíamos que Fred Ferreira não é músico fácil de engavetar num único género musical – dos Orelha Negra à Banda do Mar, vai mais que um Atlântico de distância – e o seu segundo disco a solo mostra-o bem. Em Series Vol 1 –  Madlib, Fred lança-se à obra do já clássico produtor norte-americano, soando mais a jazz que a hip hop. Ou será ao contrário? Certo é que é um dos discos do ano e que ainda nos deixa de apetite aberto. Alguém faz um Vol 1 sem estar a pensar nos seguintes? Que venham, que venham.


19. Sam The Kid, Valete
Um café e a conta

E se Valete tivesse tido um só criador de batidas em toda a carreira, um Midas na arte da criação musical e instrumental do hip-hop como diretor musical permanente? E se toda as rimas do rapper português — indiscutivelmente uma das figuras de proa do hip-hop nacional — tivessem casado com a música que Sam the Kid tem na cabeça e na MPC? Um Café e a Conta fez desse exercício imaginativo uma realidade. Tendo gravações vocais de Valete em sua posse, Sam the Kid pegou em boa parte das melhores rimas e jogos de palavras do autor de ‘Serviço Público’ e moldou-as como plasticina, adaptando-as ao seu gosto, condimentando-as e encaixando-as em batidas assombrosas, clássicas, soulful, cheias de groove.


18. Príncipe
Lugares de Memória

Lugares de Memória é um disco rico em texturas sonoras, marcado principalmente pela audácia como dá elegantemente uso à guitarra portuguesa, mais electrónica do que o costume, menos protagonista do que no fado. Com queda para a poesia alimentada desde pequeno, Príncipe é ainda um notável intérprete das suas composições, com a sua voz doce, educada, com alma de fadista, mas sem os grandes trinados.


17. Conferência Inferno
Ata Saturna

Ata Saturno é um bife mal passado: é só para os paladares mais primitivos, apurados à repetição post-punk – nomenclatura assumida pela própria banda no seu bandcamp. Tem, como um bom bife mal passado, os nutrientes mais concentrados: de forma repetitiva, a voz de Ian Curtis com sotaque do Norte (és tu Reininho?) vai declamando afirmações urbano-depressivas, literariamente quase romântico, por cima de uma caixa de ritmos, baixo sintetizado industrial e, claro, uma linha de cordas. Isto é fazer punk com três instrumentos, nenhum deles uma guitarra.


16. Pedro de Tróia
Tinha de ser Assim

Tinha de Ser Assim soa a fim de festa. O ambiente para onde somos atirados é o de umas 4 horas da manhã, depois do baile, quando ainda há alguns balões cheios mas mais confetis no chão, já temos o colarinho desabotoado, a voz rouca e a cabeça meio zonza. Tróia está maduro na escrita e na composição, sabendo que não precisa de ser veloz pra ser eficaz. Só duas das oito canções recuperam mais ou menos os ritmos de outrora, a maioria das músicas é lenta, lânguida, impactante e envolvente, como uma energia de polvo que nos suga para dentro das canções, agarra e puxa devagar, mas com firmeza sem largar.


15. Rui Reininho
20.000 Éguas Submarinas

Regressa ao fim de vários anos de silêncio. Há muito que não o ouvíamos assim, em nome próprio, e dificilmente o reconhecemos agora, exposto desta forma tão aberta, tão pura, sobretudo se continuarmos a pensar nele como figura ímpar da história do nosso pop-rock. Seja bem-vindo, Rui Reininho, e bem-vindas sejam as suas novas avarias!


14. David & Miguel
Palavras Cruzadas

Palavras Cruzadas é um conjunto de oito faixas em que cada tema diz respeito a um episódio distinto. No entanto, as historietas são transversais, na medida em que todas, de uma maneira ou de outra, abordam o amor. As faixas estão, por isso, cruzadas. É complicado não esboçar sorrisos enquanto David & Miguel cantam para nós. Palavras Cruzadas é, acima de tudo, um álbum divertido, porque põe o ouvinte bem-disposto, ao mesmo tempo que o atinge com referências foleiras, preciosas, genuinamente portuguesas e docemente sexuais.


13. Salvador Sobral
bpm

Ao terceiro disco em nome próprio temos um cantor e compositor em pleno controle das suas capacidades, mostrando a quem vier espreitar que é indiscutivelmente um porto seguro da música portuguesa. As suas questões de coração continuam presentes, e a opção para nome do disco traz-nos uma bela ponte entre a música e a vida – os sempre intensos batimentos por minuto, aos quais não conseguimos fugir.


12. Gisela João
Aurora

AuRora, o terceiro LP de Gisela João, é um frasco de álcool etílico que desinfeta as mais sangrentas feridas de amor, ao retratar, de um modo transparente e brutal, os tempos que chegam após o fim de uma relação. A fadista portuguesa apanhou os estilhaços do coração do chão e espalhou-os ao longo de doze temas íntimos. AuRora é um ato de coragem e de inspiração pura mas refletida; é autenticamente um trabalho diferenciado, composto por diversas camadas que conectam a música portuguesa ao seu passado, presente e futuro.


11. 10 000 Russos
Superinertia

O novo disco dos 10 000 Russos é forte, poderoso e não brinca em serviço. Ouvir Superinertia de fio a pavio é obra. E a obra, de facto, é tão bem feita que merece aplausos vigorosos. O som tornou-se mais encorpado, com um brilho particular, mesmo sabendo-se que o trio em questão prefere as sombras ao sol. O uso dos sintetizadores tê-los-á tornado mais espaciais, e a vertigem pós-punk talvez mais acentuada, mais volumosa e frequente. O apelo à dança também se faz por via das constantes repetições rítmicas. Tudo isto em Superinertia, tudo isto fresco e pronto a saborear.


10. Joana Espadinha
Ninguém Nos Vai Tirar o Sol

Joana Espadinha documentou aqui um momento da sua vida, em que passou por transformações profundas a nível físico e espiritual. Crescer, seja em que idade for, implica sempre constatar a quantidade de coisas que se perde e fazer paz com isso (até porque são sempre mais do que as que se ganha). Mas ela consegue trazer-nos para o seu mundo em mutação, sem ceder ao desencanto fatalista e sem se armar em influenciadora moralista. E, pelo meio, tornou-se definitivamente uma estrela pop do nosso tempo.


9. Carlos do Carmo
E Ainda…

E Ainda… é um trabalho de despedida. Uma despedida de alguém que sabia estar quase a partir. Por isso é frágil, mas também forte. Por isso é precioso, sobretudo por ser um espaço onde se finta a inconveniência da morte. É o trabalho de toda uma vida que termina com “um sorriso traquina”, como tão bem soube cantar n’ “Os Putos”. Trata-se, sobretudo, de um belíssimo adeus. Um até sempre rumo à eternidade. As palavras sempre soaram redondas na voz de Carlos do Carmo. E ainda assim permanecem…


8. Fogo Fogo
Fladu Fla

Nascidos para animar as tardes de domingo na Casa Independente, no Intendente em Lisboa, seis anos depois os Fogo Fogo trazem mais seguidores que discos no currículo. Fladu Fla, o primeiro disco de pleno direito, traz-nos o Funána feito por cá, música de raízes africanas, mas salteada com rock psicadélico. De ritmo irresistível, uma misturada só possível em Lisboa.


7. Luta Livre
Técnicas de Combate

Neste ano de 2021, o veículo de Luís Varatojo chama-se Luta Livre, e o resultado é este disco, Técnicas de Combate. Aqui fala-se de luta e de combate, sim, é um disco que se insere de forma torta nessa nossa tão valiosa tradição do disco de intervenção, também. Mas não se espere aqui trovadores emotivos ou punks zangados. Esta luta é uma boa onda pegada. Aquilo que surpreende em Técnicas de Combate é exactamente isso: como as letras de intervenção são entregues de forma natural e por vezes quase blasé, sobre uma cama sonora cheia de luz, groove e com deliciosos sopros que dão um toque excelente de exotismo ao conjunto. Mais Manu Chao e menos Zeca Afonso, portanto.


6. Bloom
Drafty Moon

O novo disco de Bloom é pop mas denso, groovy mas sombrio, teatral mas verdadeiro. Um diálogo enternecedor entre o discípulo JP e o mestre Bowie. Quatro anos volvidos, Bloom regressa com Drafty Moon, em tudo uma reacção ao álbum anterior. Onde Tremble Like a Flower era bucólico e introspectivo, aceitando com resignação a tristeza do mundo, Drafty Moon é eléctrico e teatral, gritando com o irresponsável firmamento, dançando com os lascivos demónios.


5. Cassete Pirata
A Semente

No espaço de apenas dois discos, em dois anos, os Cassete Pirata deram um salto gigante, alcançaram num instante uma maturidade que muitas bandas demoram cinco álbuns a alcançar. Lançaram agora A Semente, um disco conceptual, de preocupações ambientais, assente em rock da mais portuguesa tradição. A Semente é um documento que merece ser tido em formato físico, em que o livro com as letras vale como obra poética independente, em que cada canção sobrevive perfeitamente como single isolado mas, enquanto obra de arte, merece ser sorvido do princípio ao fim sem moderação e deve ser guardado na melhor estante, ao lado de enciclopédias e livros de História.


4. Minta & The Brook Trout
Demolition Derby

Em Demolition Derby somos novamente embalados pela lenta mestria pop, pelos temas acústicos, pela voz serena, bonita e understated de Francisca Cortesão, rodeada de suaves harmonias vocais e arranjos enganadoramente simples mas muito eficazes. Tudo como cama para letras cada vez mais bem construídas. Um oásis sonoro nestes tempos conturbados de gritaria e grandes proclamações.


3. Jónatas Pires
Terra Prometida

Terra Prometida é, unânime e inequivocamente, um dos álbuns que marca 2021. Primeiro, pelo facto de nos trazer Jónatas de volta. Depois porque é um trabalho repleto de óptimas canções, cheio de luz, carregado de esperança e que nos mostra o caminho até um lugar de paz. Jónatas tem o condão de homenagear a língua portuguesa ao trazer para canções vocábulos e expressões que habitualmente não moram no pop-rock, mas fá-lo graciosamente e sem soar forçado.


2. Sensible Soccers
Manoel

Servindo de banda sonora para dois filmes de Manoel de Oliveira, o último disco dos Sensible Soccers vê a banda portuense a expandir a sua palete sonora. Manoel pode não ser tão “épico” no seu pathos como 8, nem tão dançável como Aurora mas, em termos formais, é um disco irrepreensível de Sensible Soccers. E isso é bom o suficiente.


1. Bruno Pernadas
Private Reasons

A primeira coisa que nos apraz referir é que Private Reasons é um disco intrinsecamente pop! Luminoso, radiante, belo e repleto de boas ideias em diálogo constante e permanente. É, ao mesmo tempo, um quebra-cabeças, sobretudo pelas constantes mudanças de direção, pelos caminhos labirínticos para onde se dirige cada canção, mas que encontra, todavia, espaços luminosos e amplos onde desaguar. Private Reasons é, sobretudo, uma peregrinação sonora ao que está simultaneamente longe e perto de nós: o mundo e a sua diversidade!

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Comments (1)
  1. Gonçalo Meireles diz:

    Haja alguém que tenha feito justiça ao disco do Jónatas Pires.

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