Atmosferas entre o sombrio e a tranquilidade caracterizam o trabalho de uma cantautora que faz da música ponte entre o inquietante e a serenidade.
As canções de Catarina Branco remetem-nos para uma espécie de vidas comentadas – se fossem cinema, o movimento de câmara que mais vezes as ilustraria seria o travelling, no sentido em que aquela move-se para acompanhar outro movimento. São, no fundo, convites para uma reflexão em movimento sossegado. Cozinha requintada em lume brando.
Desta vez, o ponto de partida foi uma temporada de tranquilidade que procurou em residência artística na Sertã (Casa de Gigante, em Vale do Pereiro) para dispor das condições mais adequadas ao que buscava: silêncio e distância de perturbações que interferissem na sua criatividade.
“A Lista” é um prenúncio do que vai seguir-se no seu tom melancólico e, na aparência, calmo. “Acordava Cansada”, a canção que dá título ao álbum, estabelece ligação a todas as outras. “Eu Tou Bem” relembra alguém que Catarina conheceu na Faculdade e cuja vida entretanto se perdeu. “Onde Eu Me Escondo” foi a escolha para single e nasceu de um exercício feito quando estudava, dedicando-se à emoção de se sentir invisível sem nunca ser explícita sobre esta ideia. “Magia” traz variação aos ritmos, embora mantenha o ambiente soturno. “Beijo no Escuro” é uma loucura boa que já aconteceu e não regressa ou, como diz a canção em eco, “já foi, não volta”. Em “Olhos nos Olhos” há o principal sinal de esperança, mas logo “O Mundo Não Vai Morrer Comigo” traz um final fatalista e com destino traçado.
No disco, não falta companhia a Catarina Branco, sobretudo feminina: Catarina Valadas (flauta), Leonor Orca e Mariana Camacho (coros), Sara Gonçalves (bateria), Bá Álvares (contrabaixo) e Rodrigo Nogueira (baixo) são os músicos que dão contributo a este disco.
E havia antecedentes, das experiências iniciais como Não Tens Razão (2018) e Tá Sol (2019) até Vida Plena, o primeiro álbum (2022), antes dos EP Não Me Peças Mais Canções (2024) e 3 Canções (2025).
Mas a relação com os universos musicais remonta à infância. Ter pais que são enfermeiros no Hospital das Caldas da Rainha, mas também aí integrantes do Grupo Coral e Musical, foi um primeiro passo para o encanto de Catarina Branco pela música, pois também ela fez parte desse agrupamento. Para acentuar a tendência, o irmão optou pelo Conservatório, escolhendo a guitarra como instrumento de eleição. E Catarina não demorou a considerar que esse caminho lhe seria útil, mas viu no piano a melhor solução. Não a única, pois é tão versátil que também guitarra/viola amarantina, percussões e até trompete lhe são familiares.
E a diversidade de argumentos prolonga-se na formação, uma vez que a intérprete é licenciada em Artes Plásticas (Escola Superior de Artes e Design), adora desenhar, mas pela música mudou-se para Lisboa e obteve a pós-graduação em Arte Sonora, além do mestrado em Arte Multimedia. Mais tarde, viria a ter oportunidade de tocar com vários artistas, entre os quais Luís Severo ou Fado Bicha, neste caso um projeto de Lila Fadista e João Caçador, antes de se aventurar em nome próprio.
Assim se apresentou na BOTA, dia 2 de Maio; a 9 estará numa listening party, na Casa da Mully, e continuará estrada fora: a 16, o Rádio Clube Agramonte (Porto); a 5 de junho na Cooperativa Mula (Barreiro); a 9 de agosto no Festival de Arronches e no Café Curto de Coimbra a 3 de novembro. Porque a paixão pela música não tem fim para a “cantautora e produtora com cara de palhaça”, conforme se apresenta no seu Instagram.