Listas

Os melhores discos internacionais de 2021

Apesar das vicissitudes do período em que vivemos, 2021 foi (mais) um ano incrível de música. Um ano em que fomos arrebatados por uma quase desconhecida, Cassandra de seu nome, que nos enviou do outro lado do Atlântico uma pérola An Overview on Phenomenal Nature e que serviu de aconchego perfeito às amarguras que se vão vivendo. O consenso à volta da beleza e profundidade deste disco foi praticamente unânime na nossa redação.

Compilados que foram os votos de 22 escribas do Altamont, obtivémos um total de 97 discos eleitos. Discos estes, para todos os gostos, como se pode comprovar facilmente ao fazer scroll por este post abaixo – temos bons discos rock inventivo, pop luminosa, jazz, electrónica, folk, world music (não apreciamos muito este conceito, mas para aqui encaixa). Temos música feita por garotagem como uns Black Country, New Road e música feita por pesos pesados da indústria, que se continuam a reinventar como os deuses Caetano e Cave. Mostramos que há mundo para lá do eixo anglo-saxónico, com a inclusão de autores de países como Turquia, Brasil, Austrália, França e Puerto Rico. Altamont é tudo isto e muito mais, ora continuem a ler o artigo e descubram o resto das nossas escolhas de 2021!

Alexandre Pires



20. Japanese Breakfast
Jubilee

Lançado em junho de 2021, Jubilee é um disco pop que constrói, através de detalhes elétricos e ocasionais apontamentos de cordas ou de saxofones, uma textura sonora envolvente, que tanto pede uma pista de dança, como uma longa viagem noturna de carro. Cada canção tem a sua sonoridade e respetiva influência, desde singles pop dançantes e cheios de luz. É um disco que sentimos que deu gozo fazer, musicalmente rico e variado, com refrões fortes e com letras que revelam não só uma grande profundidade emocional como também uma bonita capacidade de criar personagens interessantes e de contar histórias.


19. Amaro Freitas
Sankofa

Amaro Freitas é, tal como Kamasi Washington antes dele, um conciliador nato, já que o seu Sankofa chega a todos, confluindo influências da soul como Esperanza Spalding e Erykah Badu, ou mesmo uns Roots, mas mantendo o seu registo puramente instrumental, como manda o cânone jazz. Neste, podemos apontar como maior influência Thelonious Monk, inquestionavelmente um dos grandes.


18. SPIRIT OF THE BEEHIVE
ENTERTAINMENT, DEATH

ENTERTAINMENT, DEATH, quarto álbum dos SPIRIT OF THE BEEHIVE, oscila entre insanidade e delicadeza, eletrónica e psicadelismo, ácidos e sonolência. Há laivos da insanidade de um Ariel Pink misturados com delicadeza shoegaze de uns My Bloody Valentine, há drone a aparecer quando menos se espera, há riffs de guitarra rápidos e barulhentos com fuzz no máximo, sintetizadores hipnóticos e, sobretudo, há claramente muito ácido na cabeça do trio Zack Schwartz, Rivka Ravede e Corey Wichlin.


17. Altin Gün
Yol

Em Yol, uma nave espacial que garante o escapismo cósmico, há de tudo um pouco, e o grande desafio é conseguir ficar quieto e sentadinho. Como a doçura da breve introdução com “Bahçada yeşil çinar”, o quase chillwave de “Ordunun Dereleri”, o funk irresistível de “Hey Nari”, a viciante pérola pop que é “Yüce Dağ Başında” ou o disco-sound de “Maçka Yollari”. Os Altin Gün assumem que não querem mudar o mundo e sim fazer música que aproxime as pessoas e as faça querer mexer e sentir-se bem. Missão cumprida, dizemos nós, num dos discos mais viciantes do ano.


16. St. Vincent
Daddy’s Home

Em Daddy’s Home, St. Vincent faz uma homenagem à pop de inícios de 70, descartando os sons do anterior Masseducation. Um disco diferente mas familiar, conseguindo manter um pé na familiaridade de St. Vincent e mostrar algo de novo ao mesmo tempo, ainda que seja assumidamente um álbum para quem acompanha a carreira da artista, não sendo de todo, um disco introdutório e representativo dos anteriores trabalhos.


15. Caetano Veloso
Meu Coco

Será possível que o mundo inteiro possa caber dentro da rodela de um disco? Sim, pode. Sobretudo quando esse mundo tão particular existe no coco de um grande criador. Meu Coco, meu mundo. Eis o antes, o agora e o depois no disco mais autobiográfico e autorreferencial de toda a discografia de Caetano Veloso!


14. Balthazar
Sand

O quinto álbum dos Balthazar  apresenta-nos uma sonoridade dançável, entre o rock e a disco. De inspiração indie pop, com um som dançável e despretensioso, o quinto álbum da banda belga Balthazar é uma agradável surpresa. Em Sand, o grupo mistura rock com sintetizadores e inspiração disco, conseguindo uma sonoridade que em alguns momentos lembra Jungle, noutros até uns Bee Gees modernos, numa reinterpretação do disco dos anos 70, que está cada vez mais em voga.


13. Nick Cave & Warren Ellis
Carnage

Em Carnage, Nick Cave pega no discurso musical dos seus discos anteriores, mas recupera um pouco do perigoso selvagem do qual já tínhamos saudades. O disco tem um som impecável e está carregado de pormenores, coros femininos  – desde ao doce ao estilo do trágico coro grego – , electrónicas que vão do subtil ao namoro com o industrial, sintetizadores etéreos, jactos de guitarra distorcida, todo um arsenal de elementos que dão sempre algo a descobrir em cada nova audição.


12. King Gizzard & The Lizard Wizard
Butterfly 3000

O décimo-oitavo disco dos King Gizzard & The Lizard Wizard, Butterfly 3000, tem sintetizadores, arpejos orientais e um psicadelismo saltitante e feliz. Stu Mackenzie, o génio por trás da banda, não é apenas rápido e hiperactivo, é também irresponsavelmente feliz. Quando a sua euforia já não cabe no peito, extravasa um “woooh!” tão sincero, que também nós começamos a levitar em Pequim. É esse o segredo de Butterfly 3000: a música como vida, como fome de viver. Como uma criança a andar de baloiço só porque sim. Mais um tiro certeiro, para não variar.


11. BADBADNOTGOOD
Talk Memory

A musicalidade dos BADBADNOTGOOD volta a extravasar fronteiras jazz e o resultado final é impressionante – e viciante. Talk Memory não é um álbum de uma audição apenas, porque, ao longo de oito faixas, obriga a várias viagens em busca da total compreensão de todos os sons. Talk Memory é, até à data, o melhor trabalho dos BADBADNOTGOOD. É também o mais complexo e «adulto». Os miúdos de Toronto cresceram, adaptaram-se a um novo contexto grupal, mudaram de editora e, no fim, triunfaram. 2021 também pertence aos BADBADNOTGOOD.


10. Kings of Convenience
Peace or Love

Os Kings Of Convenience têm desde sempre a capacidade de construir imagens quase reais e quase palpáveis no interior sensorial dos seus ouvintes. Em Peace Or Love, voltam a fazê-lo. Da primeira faixa até à última, os nosso sentidos transportam-nos para uma tarde de verão passada numa vila rural e marítima italiana; para uma manhã de leitura numa esplanada de rua francesa; ou para uma carruagem de comboio europeia que atravessa o verde dos Balcãs.


9. Little Simz
Sometimes I Might Be Introvert

Sometimes I Might Be Introvert é um álbum (mais) trabalhado, cheio de cantos e recantos que, assentando em interlúdios mágicos e coloridos, abrem alas a quatorze fortes canções à base de instrumentais, ora provocadores, ora soulful. Neste mundo cheio de ruídos e distrações, mais artistas como Simbi precisam-se. Simbiatu Ajikawo não é pequena. Apesar de, por vezes, ser introvertida, tímida, quietinha, Little Simz é enorme e criou um álbum gigante.


8. Helado Negro
Far In

Far In, o sétimo de Roberto Carlos Lange, é um convite para uma viagem cósmica iluminada pelo pop psicadélico a que o artista já nos tinha habituado. As músicas do novo álbum denotam uma crescente eloquência na colocação de sintetizadores, num discurso em que as sonoridades instrumentais e electrónica escorrem umas sobre as outras, criando no seu conjunto diferentes respirações. É como se estivéssemos prestes a mergulhar na sua frondosa floresta sónica e a quiséssemos descobrir lentamente, passo a passo, a voz acompanhando a bateria, a bateria marcando o nosso ritmo.


7. Floating Points, Pharoah Sanders & The London Symphony Orchestra
Promises

Ao todo, somos presenteados com nove movements, mas é como se fosse apenas um. Enquanto escutamos as notas respiradas por Pharoah, os apontamentos eletrónicos de Floating Points e o trabalho de cordas discreto, mas assertivo, da London Symphony Orchestra, não sentimos a passagem do tempo. É inegável que, a cada audição, ficamos sempre um pouco mais velhos, contudo, o efeito das horas, dos minutos e dos segundos esbarra na porta de Promises.


6. Cory Hanson
Pale Horse Rider

Pale Horse Rider é um cruzamento entre um certo country definitivamente alternativo e um psicadelismo cósmico, como um cowboy olhando as estrelas brilhantes no céu do deserto, sentado numa cadeira desdobrável, à porta da autocaravana. Tudo regado generosamente com uma deliciosa e infecciosa guitarra slide, omnipresente em quase todos os temas.


Arlo Parks - Collapsed In Sunbeams capa

5. Arlo Parks
Collapsed in Sunbeams

Arlo Parks é poetisa antes de ser cantora e as suas músicas com descrições detalhadas, quase cinematográficas, disfarçam a ira que às vezes é cantada. Entramos na sua maneira despreocupada (o que não significa menorizante) de ver a vida e deixamo-nos levar pela sua crença num futuro mais luminoso. Não só nele crê, como para ele trabalha – porque se há coisa que Collapsed In Sunbeams deixa bem claro é que o mundo tem uma geração inteira à espera da sua vez para falar.


4. The Weather Station
Ignorance

O novo disco de the Weather Station traz-nos profundidade e obscuridade nas letras e na composição mas com uma maior densidade na produção. É um conjunto de bonitas canções para ouvir com atenção e cuidado. Todas estas canções pintalgadas de algum sofrimento são pintadas pela voz característica de Lindeman, entre o sussurrado e o grito, suave, rouco, mas também perturbador. E em cada música a profusão de instrumentos que a canadiana escolheu para a acompanhar são organizados e valorizados de forma diferente, num equilíbrio delicado.


Superwolves

3. Matt Sweeney, Bonnie Prince Billy
Superwolves

Superwolves não é um disco imediato. Se a EDM tão em voga é desenhada para prender a atenção de um mentecapto com novos truques a cada três segundos, aqui estamos perante um cozinhado lento mas delicioso. Vamos sentindo o cheiro, sentamo-nos, bebemos um copo, conversamos um pouco, fumamos, contamos umas piadas, perguntamos pela família. Como um bom whisky, o resultado leva tempo e não é óbvio, Conquista-nos pouco a pouco, leva-nos a descobrir os seus segredos, até se tornarem nossos também.


2. Black Country, New Road
For The First Time

O primeiro registo da nova promessa do indie britânico guarda algumas surpresas até para os fãs mais devotos, que os foram acompanhando desde o início. Em várias entrevistas que anteciparam o lançamento deste trabalho, os Black Country, New Road frisaram que o objetivo deles com For the first time era capturar a banda nesta sua primeira fase inicial. Se foram bem sucedidos ou não, só eles saberão. O disco que nos deixaram é um monumento do rock e uma lufada de ar fresco num género que precisa desesperadamente disso.


1. Cassandra Jenkins
An Overview on Phenomenal Nature

Cada pessoa arranja a sua maneira de buscar integração no mundo em que vivemos. Cassandra fá-lo através de contar vivências do dia a dia, dando-lhes uma roupagem de actividades maiores que a vida. Cada momento vivido, sejam encontros com estranhos, aulas de condução ou conversas de café, torna-se um monumento perante o qual só nos resta observar e admirar a beleza pela sua simplicidade. Assim dita a “religião cassandrista“: são os pequenos momentos que dão significado às nossas vidas aqui no planeta Terra. Oremos. A delicadeza de An Overview on Phenomenal Nature é transcendental, se a deixarmos entrar pelos nossos poros dentro seremos, garantidamente, pessoas melhores no fim da experiência.

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