Ambiguous Desire nasceu nas noites de Nova Iorque e mostra-nos um outro lado de Arlo Parks.
O impulso de ir à procura de uma visão mais adulta e de uma postura mais capaz sobre um mundo assoberbante. Uma crise de identidade aos 25. Uma suave ruptura com versões passadas. A vontade de fazer coisas novas. E de não fazer nada de todo. De dançar apenas e repetir a rotina nos dias seguintes. Até que o cansaço ocupe o seu espaço. Neste terceiro álbum de Arlo Parks, há festas em casa e pistas de dança escuras. Há cigarros de enrolar e bebida a mais. Há a Maria e o ex da Maria, há o primo da Aleda, há o Conor e a Cindy. Há noites sem rumo e noites que se transformam nas noites seguintes. O soft-rock de Collapsed in Sunbeams (2021) ficou para trás, tendo Parks mergulhado em inspirações de house, garage e techno para fazer Ambiguous Desire, um caminho de certa forma já aberto por My Soft Machine (2023).
A descrição cativa, mas revela-se uma experimentação contida, um exercício que já vimos noutros lados e melhor conseguido. Nas entrevistas que deu a propósito deste lançamento, a música e poeta britânica revelou sempre intenções bonitas na construção das músicas, mas parece que, neste disco, elas não transparecem como nos outros. A essência é a mesma, mas está atrás de um nevoeiro sonoro pouco marcante e muito repetido. Para uma artista cujos trunfos eram a voz e as letras, um álbum que põe esses elementos em segundo plano, para dar espaço a sintetizadores comuns, acaba por ser um álbum inócuo e amorfo.
Ao longo da sua discografia, encontramos poemas que falam das coisas que se passam na cabeça de todos, mas sempre num tom dócil e num diálogo constante com o mundo envolvente, ao mesmo tempo que descrevem a luz e os objectos que definem a atmosfera da narração. As faixas são quase sempre cenas e o sumo da sua música é a forma como Parks encaixa turbilhões de ideias em versos concisos. Ao longo dos seus discos, acedemos a confissões e a dúvidas descritas como se fossem as coisas mais banais, sem que o seu peso alguma vez seja desrespeitado. Não é que Ambiguous Desire difira completamente desse formato, mas tenta usar outros elementos e não consegue fazer jus aos seus antecessores. O disco está bem produzido e tem faixas interessantes, ora pelas letras (raras vezes), ora pelos ritmos flutuantes e brilhantes. Contudo, e contra as expectativas que a carreira de Parks tem alimentado, é pouco memorável.
“Get Go”, “Beams” e “Floette” são as músicas mais arloparksy, pelas tais observações afiadas que nos transportam para os seus cenários e pelos arranjos descomprometidos, mas o que predomina no disco são faixas mais nebulosas, como “Blue Disco” e “Heaven”. No fim, começa a soar tudo como mais do mesmo e o tédio começa tomar lugar à atenção. Infelizmente para todos os fãs dedicados do primeiro disco (e apreciadores comedidos do segundo), este é um álbum esquecível em pouco tempo e não parece vir acrescentar grandemente à discografia, que começou tão impressionante.
Em Ambiguous Desire, Arlo Parks não rejeita Collapsed in Sunbeams, mas está noutra. As descrições cinematográficas a que nos habituou desde o início e uma voz doce e discreta continuam a marcar a sua composição, mas, agora, há mais beats e bass drops e menos poemas preciosamente detalhados sobre o que é descobrir o mundo com 20 anos acabados de fazer. A narrativa não evolui grandemente e, sobretudo ao fim de três trabalhos, podíamos esperar crises existenciais ou desamores diferentes. É um disco muito direitinho, demasiado coeso, o que sabe a pouco naquela que é supostamente uma homenagem à cultura clubbing. Se o disco prometia o ambiente de uma pista de dança, entrega o regresso a casa, num carro em movimento, onde memórias e sentimentos enviesados pelo álcool se confundem numa autocomiseração ensonada.