Ninguém rouba a Marina, a cena do momento, mas a MPB de Ibarra e o pop-rock orelhudo de Lulu Santos marcaram, igualmente, o último dia do Coala Festival de 2026.
Uma Bala chamada Ibarra, Zé Ibarra, membro da banda que fez enorme sucesso aquando do lançamento do seu primeiro álbum, Sim Sim Sim, lançado em 2022 pela Coala Records. Ontem, apresentou-se no Festival do mesmo nome da gravadora, e foi o arranque do segundo e último dia, ao imenso calor de maio da tarde. Foi “cada um por si e Deus por todos nós “. Feitas as apresentações, do palco veio o desabafo de ser bom falar em português num show, após vinte e um quase seguidos sem que a língua unisse a voz de Ibarra com a do público. “Da Menor Importância” foi ótima, título que brinca com uma antiga canção de Caetano Veloso, presente em Cores, Nomes, álbum mítico do mano baiano. Meio experimental, fugindo às linhas direitas das canções mais comuns, a canção é excelente, seguindo-se outra feita depois de Ibarra sentir “ghost”, de nome “Transe”. A voz de Zé Ibarra é aguda, como agudas e graves são as letras das suas canções, algumas delas bem conhecidas do público. Tratam de assuntos, quase sempre, entre um eu e um você que esgrimam sentimentos, ausências, instâncias de vidas comuns. Em Marquês, 256 cantou a solidão, o sofrimento com temores do drama universal que se abateu sobre todos nós em 2019. É um álbum de reclusão que lhe permitiu tomar o pulso do mundo, tomando o mundo o pulso das suas enormes composições. Mais tarde, no ano que findou, trouxe-nos Afim, e foi deste recente álbum que fez a base do repertório do concerto de ontem, ao mesmo tempo nostálgico, bossanovista e emepêbista, tropical quanto baste para animar os novos e fazer sonhar os mais antigos, que vão sorrindo ao apanhar muitas referências que vão habitando as composições de Zé Ibarra. O solo errático de violão em “Hello” foi bonito, como também é, e muito, o tema em que canta “I don’t want to speak another language / Portuguese is a very pretty língua. E é bem verdade. Cantada, por vezes, fica ainda melhor. Belo show de Ibarra, o Zé que o Zé português vai começando a amar. Cantou “Último Voo”, um tema novo que constará do seu próximo álbum. “Segredo” não poderia faltar e fechou o show com “Infinito em Nós”. Bem bom!
“Coisa Maluca” abriu a onda veraneante de Ana Frango Elétrico, naquele jeito meia Rita Lee e muitas coisas mais. Groove dos trópicos com sabor suavemente picante, Ana foi o terno furacão que costuma ser. Animação plena, sem pausas para contemplações sobre o mundo que anda feio pra chu chu. No planeta elétrico de Ana Faria Fainguelernt tudo é festinha, festa rija, festão descomunal! Haverá sempre um outro planeta para os mais introspectivos habitarem. No seu, Ana não abre essas portas, até porque os seus melhores públicos “são sempre em Portugal”. Mais um para a contagem, o de ontem. Foi fumando o seu “ Camelo Azul”, de “cabelo brega” com vontade de “transar com você”, seja esse ser quem for. Mas a transa foi coletiva e valeu. Ninguém saiu com cara de perdedor. Assim vale bem a pena. Em transe (mudou um pouco a palavra, não sei se percebeu) ficámos todos com “Insista em mim”, numa mini histeria coletiva. Perante o pedido expresso (“me plante em seu jardim”), foi o que fizemos até ao fim do concerto. Tudo bem regado com amor e paz. O que floriu foi bonito. Teve “Cérebro Eletrónico”, de Gil, como presente inesperado. E Marcos Valle, em “Não Tem Nada Não”. Foi “de roer até o osso feito cachorro”. Bem bom!
Azar dos azares. No concerto da Marina Sena, tive uns tipos que podiam ser centrais de um qualquer clube da primeira liga alemã. A espaços (eles mexiam-se bastante) lá consegui ver a moça sensação da música brasileira. Pose de Marisa Monte (aquele ar de deusa grega dos trópicos) com canções (todas elas?) entoadas por milhares de vozes que não falharam uma palavra, uma nota, um suspiro por ela. A partir de agora, ou andam todos a dormir, ou não tardará a fazer várias datas fora dos circuitos festivaleiros. A sensualidade é uma arma poderosa, como bem se sabe. E Marina sabe. Tem “perfume de rosas” na voz e no corpo, exalando esses encantos a que ninguém resiste, homens e mulheres. Marina Sena é um fenómeno, talvez o mais saliente da chamada nova MPB. Escrever sobre fenómenos nos tempos que correm, nos instantes em que estão a acontecer, comporta riscos que só o futuro avaliará. Mas que importa tudo isso? Viver o instante foi mesmo a melhor postura. Ir na onda é bom, por vezes, sem grandes agitações (“cair no mar”) e deixar que a música faça o seu efeito, seja ele qual for. A cada um, os seus arrepios. Canções como “Me Toca”, “Por Supesto”, “Dano Sarrada”, “Numa Ilha”, “Desmistificar” e “Carnaval” ajudaram a esses movimentos involuntários da pele. Bem bom!
A hora seguinte foi a de João Gomes, mas também a de descansar pernas e consequente corpo. Beber, comer qualquer coisa para suportar o que aí vinha. Daí que fomos ouvindo o forró piseiro pernambucano de João Gomes bem de longe, vendo-o de camiseta da seleção da sua terra no tronco. É um embaixador do nordeste brasileiro, tem percorrido a Europa com shows, sendo também presença assídua em Grammys Latinos. Ontem, tinha uma verdadeira multidão à sua frente, gente que ficou nas linhas de fronteira entre Marina Sena e Lulu Santos. No entanto, muita gente (muita mesmo) foi cantando as canções que saiam de cima do palco do Coala Festival. Pouco conhecedores do estilo e do músico, tudo nos foi parecendo festeiro, canções que lembravam outras já cantadas, coisa do estilo em presença, certamente. No entanto, fomos ficando contagiados. Surpresa total, a versão feita para “Como Eu Quero”, dos meus adorados Kid Abelha, banda que qualquer adolescente gostava, no tempo do Brock, bastando lembrar Paulinha Toller, esbelta estrela dos anos oitenta brasileiros. E sim, esse momento foi ótimo. Assim como “Da Lama ao Caos” (Chico Science) e “Anunciação”, do enorme Alceu Valença, mas também “País Tropical” (Jorge Ben) e, imagine-se, “Anna Julia”, dos Los Hermanos. E assim, afinal, valeu bem a pena. Bem bom!
Às 22.30 horas em ponto, entrou em palco o último romântico Lulu Santos, a estrela maior da noite, vasta carreira pelo pop-rock do país irmão. Portugal nunca o teve na exata consideração que a sua figura merece. Início meio sinfónico, grandiloquente, ao som de “O Guarani”, logo seguido de “Toda Forma de Amor”, a canção que deu o tom a todo o concerto. Celebração de vida e de amor. Outra coisa seria difícil em Lulu Santos. A levada rock de “Um Certo Alguém” animou ainda mais uma imensa plateia sedenta de animação, da festa, como foi esta edição do Coala 2026. Excelente cartaz, sem dúvida, onde juventude e veterania se conjugaram na perfeição. O concerto continuou com elogios à bonita lua no céu de Cascais (Caetano Veloso havia feito o mesmo, ontem), aos portugueses e suas conquistas, a canção e à cultura brasileira. “Tudo Azul” e “Assaltaram a Gramática” estiveram de mãos dadas. O fim de semana já ia longo, após duas maratonas coalenses. “Adivinha o Quê” apareceu no momento certo, lembrando-nos da fabulosa canção que é. Assim como “Tempos Modernos”, bem do início dos anos 80, ainda e sempre tão contável quanto bela. Se nessa década se cantava “Eu vejo um novo começo de era / De gente fina, elegante e sincera”, então talvez seja importante cantar de novo, fazendo figas para que se torne real agora, em tempos deselegantes, fingidos e toscos, pois “Assim Caminha a Humanidade”, infelizmente.
Lulu Santos tem 73 anos, mas continua em boa forma. O seu estilo mantém-se intacto, a sua presença em palco bastante jovial, sempre de guitarra elétrica nas mãos. Boa banda de apoio, um concerto bem oleado, tudo rolando como deve rolar. “Como Uma Onda (Zen Surfismo)” não poderia faltar, quando o show já percorria a sua reta final. Foi, naturalmente, um sóbrio e bem conseguido concerto. Bem bom!
Resta-nos fechar com o desejo que a quarta edição do Coala chegue dentro de um ano. E que seja uma edição tão boa como esta, pelo menos. Parabéns, Coala Festival! Estamos de olho.
Texto de Carlos Lopes, fotografias de Felipe Kido.





























