Um dia em cheio! Grandes concertos e pequenos milagres: os da comunhão, satisfação, plenitude, que a música nos proporcionou.
Rumo ao segundo dia com a certeza absoluta de melhores e mais variados concertos. Annahstasia, Panda Bear, Baxter Dury, Black Country, New Road, e os gorilas mais ou menos animados, que estimamos sempre. O mesmo calor do dia anterior, ou talvez uns graus acima, quiçá, uma brisa tão tímida que nem esse nome mereceu. Enfim, talvez seja castigo por nos queixarmos sempre das chuvas, dos dilúvios que ainda temos na memória, e que dificilmente secarão, mesmo que expostos no estendal do tempo.
Quatro mulheres em palco. Em todos os seus dedos, cordas (guitarras acústicas, violoncelo e contrabaixo) e, por cima, a voz em tom de sussurro ao ouvido mais íntimo, partilhando algo que será, seguramente, importante, mas que custa a perceber. A pronúncia não ajuda. O canto rouco e arrastado, também dificulta. Mas não fez mal, não fez mal algum. Ficámos pelo que a música, no seu todo, é capaz de comunicar. E comunica, aconchega, faz-se amiga em três tempos. Talvez menos, até. “Be Kind” surge e cai como floco de neve que se afoga no calor da tarde. Há no ar um excesso visível de sentimento, espécie de fantasma que ecoa e ecoa e ecoa e… A serenidade que se cria na música de Annahstasia, por estranho que pareça, começa a criar raízes de algum incómodo, pela inquietação que consegue provocar. Um incómodo doce e bom, que não queremos que desapareça, que parece tatuar alguma coisa que nos coloca em perigo, num abismo em que apetece dar o passo, o salto, imaginar o baque do fim. Depois, os falsetes que nos ligam ao céu daquela voz, a espessura das composições, sem que nada pareça existir por acaso, nada falta e nada excede o que tem de ser. E se a voz fica na cabeça (a brincar, a espraiar-se, a tomar conta), a presença das quatro senhoras em palco cria magnetismo, cola-se, entranha-se. Deve ser bom sonhar com uma banda sonora assim. O que eu queria (por ter de ser, por se impor em mim mesmo) era escrever um poema, mas acabou por ficar assim. É que os sentimentos, não nos esqueçamos, são anteriores às palavras…

É quase impossível ouvir (e ver) Baxter Dury sem nos lembrarmos do pai. Não exatamente pela música, claro, mas por certos trejeitos que a genética explicará. Música para dançar, bem feita, sem preconceitos, um homem em palco que o pisa como se fosse uma persona à procura de ser desejado. Enfim, talvez a expressão seja um pouco acima do pretendido, mas há que desvalorizar excessos e outras coisas semelhantes. Talvez seja do entusiasmo, mas Baxter Dury faz com que esta escrita pulule de gozo, de animação, contentamento rítmico, certeiro ao alvo do corpo, que escreveu e dançou enquanto o filho do saudoso Ian Dury esteve a atuar. Que tempo tão bem passado, sim senhor. Techno-soul- popers of the world, unite!

A vontade de assistir a Panda Bear era quase juvenil, frenética, com arrepios de expectativa e tudo. Como estar no playground de outros tempos e com muita vontade de brincar. Que desta vez não faltasse a eletricidade… E não faltou, claro. Nem no palco, nem na plateia. Os temas de Panda Bear são artifícios de tocar, mexer, são quase palpáveis, apetecíveis, feitos para brincadeiras adultas. É no cérebro que tudo se passa, puzzles cruzados de sons e de peças rítmicas, inventivos, para pularmos, saltarmos, ou ficarmos apenas quietos, a apreciar a brincadeira no palco. De resto, como sabemos, há sempre um psicadelismo simpático, com as cores da alegria, as cores que são cada vez mais necessárias, mas para as quais o mundo tem de arranjar novos lápis. Para mais, há ainda as harmonias de vozes que surgem das idas décadas tão bem conhecidas por nós, do século passado, mas que ainda não deixaram de fazer sentido. E, num assomo de vontade de escrever mais umas linhas sobre Panda Bear, este americano (mais português do que se imagina) é capaz de montar uma teia digna da aranha Tecla. Se não souberem do que falamos, procurem. Isto não pode ser tudo de mão beijada, meus amigos. Avisámos que tudo em Noah Lennox nos parece sempre um carrossel onde podemos brincar, não foi? Então, não se acanhem e brinquem connosco. Vai ser divertido googlar. Faltou apenas ser de noite, para vermos tudo melhor. Antes do ponto final, um desejo: que este Panda nunca se extinga!

Tivemos de pular Slowdive. Talvez seja pecado para alguns, mas o da gula bateu exatamente nessa hora, e havia um depósito para encher de ingredientes, líquidos e sólidos. Teve de ser. A esperança é que a punição não seja severa. Ou melhor, que sejamos absolvidos pelo tribunal doa altamontianos que nos acompanham. Pedimos perdão, reverencialmente.
Black Country, New Road é todo um outro território de inventividade. Ás voltas com as reviravoltas de alguns temas, é assim que lidam com a música, e nós com eles. Unir um ponto A a um ponto B, com os Black Country, New Road, nunca será feito através de uma linha reta. Há sempre uma ligeira subtileza que surpreende, um contragolpe de rins e de ritmo, algo que não estávamos à espera. Depois, surge um violino, um saxofone, o som de um piano, uma flauta transversal e todo o embrulho se desembrulha de outra maneira. Até o baterista, depois de perguntar se achávamos que Portugal iria vencer o campeonato do mundo da bola (do Infantino, acrescentamos nós) largou as baquetas e tocou banjo elétrico. Tudo pode acontecer com estas raparigas e estes rapazes. E por falar nas três meninas em palco, elas cantam como se a juventude fosse eterna, Sininhos sem Peter Pan que lhes faça companhia. São autênticas fadas do pedaço e parecem contar histórias entusiasmantes para todos os públicos. Vibram com isso, e os versos cantados parecem ser narrativas de um mundo muito particular, muitos deles, e que de forma generosa resolvem abrir o livro para que entremos no jogo. Há muita inteligência e emotividade no ar. Há sempre, tanto nos discos, como nos concertos ao vivo, passe a redundância. Clever-clever sem serem espertinhos, inteligentes sem habilidades saloias. Sem os truques clássicos dos solos de guitarra, ou quaisquer outras coisas parecidas. Por vezes é art-pop, outras chamber-folk, outras tantas parecem atravessar (por momentos) estradas que cruzam o clássico com o post-rock sinfónico. Ouviram Genesis, os álbuns do tempo de Peter Gabriel? Claro que sim. Kate Bush? Pois, como é óbvio. O que surpreende, nas suas canções, é que fica tudo bem, como se num tetris de sons angulosos, acabássemos todos por vencer. Que bom que foi!

A intro de tonalidades orientais do concerto dos Gorillaz pôs-nos a postos, mas fez-nos refrear a expectativa de um começo de festa à grande, sempre anunciado quando esta versão de Albarn acontece. Com imagens dos improváveis irmãos Mael (Sparks) a passarem nas telas, aí sim, tudo começou. O mítico homem maior por detrás dos Blur sabe rodear-se de gente de muita qualidade. É um facto, assim como é factual que estes bonecos não brincam em serviço. “Tranz”, “19-2000”, “Rhinestine Eyes” nunca deixam o público indiferente. De barretinho vermelho na cabeça, à la Seu Jorge no aquático filme de Wes Anderson, lá foi comandando as tropas, dando motivos de dança atrás de motivos de dança, sempre à grande. Barriguinha cheia de alegria e excelente digestão durante hora e meia de festa. Eram milhares e milhares à nossa frente, e bastantes outros, ainda mais distantes do palco Estrella Damm. “El Mañana” antecedeu a espantosa “On Melancholy Hill” (estavas por lá, Mafalda?). A belíssima “Orange County” também vibrou nos ares do Primavera. E sim, porque o texto que está a ler agora fez esticar muito a noite de ontem, podem ficar sossegados que também ouvimos “Dirty Harry”, “Feel Good Inc” e a inevitável “Clint Eastwood”. Bang, bang, bang, três disparos que nunca falham os alvos. O que dizer dos Gorillaz, que não tivesse já sido dito. Muito pouco, seguramente, pelo que está na hora de dizer que foi muito bom, um dia em cheio, e que está na hora de ir à sua vida, amigo leitor, sobretudo se nos prometer que amanhã vem cá deitar um olho para saber tudo sobre o terceiro dia do Primavera Sound do Porto.
Fotografias: Inês Silva




















































