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Os melhores discos nacionais de 2025

Talvez seja um clichê, e todos os anos caímos na tentação de dizer a mesma coisa, mas acredito convictamente que a música portuguesa está a viver uma era de ouro. Pelo menos, não tenho memória de uma outra época em que o saldo entre quantidade e qualidade fosse tão positivo.

A cada ano que passa, aparecem mais e mais projectos novos – sejam bandas ou artistas a solo – vibrantes e criativos, que não se limitam a repetir modas e tendências e têm uma voz muito própria. Isto também acontece graças aos novos meios de produção e de difusão, com uma série de novas agências e editoras, que garantem maneira de fazer chegar toda a música a todos os ouvidos – e há muitos gostos distintos, muitos nichos e correntes e, em cada um deles, há artistas com quem o público se identifica.

Isto, mais ainda em tempo de sobrecarga de informação e livre acesso, leva naturalmente a uma dispersão, sendo já poucos os artistas ou géneros avassaladores, que conquistem toda a gente. Mas a verdade é que há cada vez mais gente a ouvir música portuguesa e há uma busca crescente por música cantada em português. Prova disso, no nosso top 20 discos favoritos do ano, apenas 5 são assumidamente em inglês. Há uns anos, a proporção seria inversa.

Para concluir, resta apenas refutar mais uma vez os relatos, claramente exagerados, da morte do rock. Na listagem que se segue, comprovamos que a música de guitarras continua a mexer com muita gente. Nesta lista, que reúne os votos dos membros da redacção Altamont, destacamos ainda cantautores, fadistas a dar novas cores à canção nacional, electro-shock sofisticado, canção de intervenção e uma colaboração inesperada. Segue, abaixo, aquilo que queremos recordar de 2025!

Duarte Pinto Coelho



20. Sunflowers
You Haven Fallen… Congratulations!

Oito temas em pouco mais de vinte e sete minutos? Sosseguem! Os Sunflowers não viraram minimalistas, nem muito menos numa daquelas bandas que despacha rodelas para alimentar mais um ciclo de digressões. Bem pelo contrário, os oito temas de You Have Fallen… Congratulations! integram a irreverência punk que lhes preenche o tutano com o experimentalismo e a dispersão sónica mais fácil de identificar nos dois álbuns anteriores. No registo recém lançado, os Sunflowers semeiam e nutrem os ingredientes a que nos têm vindo a habituar, colhem-nos na altura certa, preparam a marinada e prosseguem diretamente para a redução. A vida na estrada pode ser dura, mas à mesa destes três não encontrarão nem travessas tipo enfarta brutos nem triângulos de pão super processado … apenas délicatesse sónica!


19. Olivia Combs
Santa Olivia Partes

É preciso tempo e disponibilidade para ouvir o que nos propõe Olivia Combs. E se tempo e disponibilidade é muito do que nos falta nos tempos que correm, então serenem os passos e os corações e ponham a rodar Santa Olivia Partes. Por vezes, em discos minimalistas como este, tentamos aplicar sobre eles as receitas que aplicamos aos outros, aos que se revelam descaradamente. Erro crasso, de principiante, até. Estes discos são especiais, exigindo dos ouvintes uma dose acrescida de atenção e afeto. Eles querem ser nossos amigos, e “coisa mais importante no mundo não há”, como bem sabemos. Este é um disco lento, um disco que bem poderia ser um louvor à lentidão dos instantes demorados, até porque esses são os que ficam, os que permanecem mais tempo em nós.


18. Rita Cortezão
tudo, um pouco

Entrar no disco de estreia de Rita Cortezão, intitulado tudo, um pouco, assim mesmo, sempre com letra minúscula, é desencadear uma navegação por territórios de jazz, pop e indie – nada de estranho, tendo em conta a formação da própria Rita, sobretudo na área do jazz (toca desde os cinco anos, estudou na New Music School e no Hot Clube). No conjunto, há uma dezena de canções em tons sonhadores e melancólicos em que se traça uma identidade própria, sem deixar de estabelecer pontes com marcantes intérpretes femininas destas atmosferas. Mas o começo até remete para sonoridades mais antigas. Aos 24 anos, Rita Cortezão deixa propostas que abrem o apetite para mais. Cá a esperamos para outras doses de ambição musical.


17. Carminho
Eu Vou Morrer de Amor ou Desistir

Comecemos pelo final. Em “Dia Cinzento”, Carminho canta um poema sobre um motivo de piano tocado por Mário Laginha. É uma canção que é mais do que um fado, é um pequeno milagre que termina em menos de três minutos, mas que não se esgota. Carminho é uma das principais vozes do novo fado que não obedece cegamente às estruturas rígidas desta canção centenária. Ouvem-se pianos, guitarras eléctricas e até sintetizadores que complementam a – e a gerência pede desde já desculpa pelo cliché – a alma de fadista. Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir é um disco para ouvir hoje e amanhã. É o presente, o passado e o futuro. É um grande disco que fica para os anais do fado. Benz’a e que a guarde dona Amália.


16. Romeu Bairos
Romê das Fürnas

No disco de estreia de Romeu Bairos temos desde os temas universais, com forte presença dos elementos da natureza, ao humano e ao mundano. O sotaque e as letras trazem-nos uma verdade, uma realidade, que não conhecemos, apenas intuímos e respeitamos de imediato. É um disco acústico, conduzido pela omnipresente viola da terra, mas também com um violino precioso, baixo, percussão e clarinete. Romeu tem raízes na tradição etnográfica de São Miguel, e este disco soa, mais do que a uma reinterpretação, como se estivéssemos a ouvir canções de sempre do arquipélago, cuja origem se perdeu no tempo. Romê das Fürnas é um dos discos mais únicos de 2025 no panorama musical português.


15. Gisela João
Inquieta

Em 2025, Gisela João mostra-se Inquieta e recupera clássicos que infelizmente estão na ordem do dia pela sua temática, mas que são sempre bons para ouvir e especialmente apetecíveis com estas novas roupas. A escolha das canções, quase todas de José Afonso, são extremamente bem produzidas dando o espaço necessário à voz da cantora, num disco que transcende o fado como já tinha acontecido em alguns laivos do trabalho anterior. Os 50 anos do 25 de Abril foram o ponto de partida deste disco. E que ponto de partida mais rico, para poder pegar nestas canções icónicas e com este nível de qualidade e gosto, poder criar este álbum com poemas e canções necessárias para a nossa identidade, cultura e futuro.


14. Them Flying Monkeys
Best Behavior

Best Behavior obriga a ser ouvido repetidamente. E a experiência é que, a partir da terceira audição, se começa a perceber que sair da gaveta do psicadelismo do início do séc XXI para entrar na desarrumada estante do post punk atual não implicou que a banda deixasse cair a musicalidade e os jogos intrincados entre instrumentos ou o encadeamento de movimentos para além da dinâmica loud/quiet/loud. É um disco que transposto para os palcos nos faz mexer e vibrar, mas que em casa, pede atenção e dedicação … e que muito faz por a merecer!


13. Cortada
Gānbēi ( 干杯 )

Embora o registo seja de estúdio, Gānbēi (干杯) consegue o feito de transportar a fricção e o suor do palco para disco: a produção não quer polir, prefere preservar arestas — a voz de Pedro Dusmond soa irónica e chateada, as guitarras têm margem para rasgar e o baixo fala alto — tudo isso contribui para a sensação de documentação de uma banda que funciona melhor em cima do palco. A própria nota de apresentação sublinha esse vínculo entre o disco e quem já os viu ao vivo. Gānbēi (干杯) é um soco rápido e certeiro: oito faixas que variam entre chapadas e piscadelas de olho, sempre com a urgência de quem vem do punk e do noise e não tem tempo a perder. Um disco que respira a cidade acelerada que o gerou e que, mesmo comprimido em poucas músicas, continua a crepitar como se ainda houvesse público a berrar por mais.


12. Marquise
Ela caiu

Se no disco anterior havia um lado mais cru e sujo, reminiscente do grunge, agora a sonoridade é mais refinada e as letras mais introspectivas. A “teenage angst” deu lugar a temas mais intrincados, quase líricos. Mas apesar da evolução, a identidade da banda mantém-se. Os Marquise trocam o grunge por atmosferas mais densas e emocionais, onde guitarras e bateria se entrelaçam com a vulnerabilidade da voz de Mafalda. O ambiente, quase digno de um conto de Edgar Allan Poe, provoca inquietação e melancolia. Ela caiu marca um novo capítulo na carreira da banda, consolidando-os como uma das propostas mais originais da música portuguesa atual.


11. Capicua
Um Gelado Antes do Fim do Mundo

Em Um Gelado Antes do Fim do Mundo, Capicua apresenta-nos um disco que não é só um disco de hip hop: além das palavras afiadas da artista este trabalho traz-nos uma produção mais envolvente, com mais camadas, e com uma enorme fluidez e onde a escrita continua a ser o fio condutor. É também um disco que nos conta uma história, como se lêssemos cada canção como um capítulo de um livro ou uma notícia num jornal. A escrita é confessional sem ser auto-centrada, política sem ser moralista. Capicua não nos quer dar lições sobre o mundo: ela sabe que nós já sabemos que vivemos num lugar estranho. Musicalmente, o disco afasta-se do hip hop puro e duro, abrindo espaço a arranjos interessantes e a uma produção cuidada. As colaborações são discretas e funcionam como um complemento à canção.


10. Evols
The Ephemeral

Há muita coisa a descobrir em The Ephemeral, camadas sobre camadas de saborosas melodias, improvisações espaciais e exploração de novos estilos musicais, tudo trabalhado com o máximo cuidado, E não são apenas as colaborações que trazem uma nova dimensão ao som dos Evols, é também a composição cuidada de cada tema, a atenção que dão ao pormenor, ao detalhe, que contrasta, lá está, com a efemeridade dos tempos. Quando damos o tempo necessário ao que quer que seja, o resultado é sempre melhor.


9. Hetta
Acetate

Acetate é o primeiro álbum dos Hetta, mas traz mais do que a continuação dos temas editados no passado – os gritos, a velocidade, a violência continuam lá. Mas a voz não está sempre no mesmo lugar, canta, berra, lamenta. Enquanto a guitarra chora, o baixo socorre e a bateria não arreda pé. A beleza no caos, a morte ao silêncio. Tudo no mesmo saco. E se não for para deitar fora, é porque é mesmo para pegar fogo. Das tripas coração, da música compreensão. A missa a metade, a vida por inteiro. Se os passos pequeninos dos Hetta os fizeram grandes, o álbum de estreia torna-os reais. A sua missão não se fica por aqui: evangelizar com o peso da música para retirar o peso da vida pesa também. Há sumo para espremer, sangue para jorrar. E nós vamos ficar para mais um copo. Até não haver mais para beber.


8. Jasmim
Dias Em Branco

Num cenário musical muito marcado pela predominância da ironia – na pose e nas letras que os artistas e bandas vão cantando -, é refrescante ouvir alguém para quem a canção não é uma mera brincadeira lúdica de plasticina. Jasmim, nome artístico do músico, cantor e escritor de canções português Martim Braz Teixeira, não precisa de pose, de ironia, da coolness forjada que esconde a infantilidade. Ele não quer ser admirado, invejado ou desejado, quer ser ouvido. E tem muito para nos dizer. Os arranjos são seríssimos, por vezes solenes, de uma delicadeza e bom gosto inatacáveis. Isto é um rapaz que ouviu muita música boa, de que foi bebendo e que foi misturando numa liquidificadora, até encontrar a sua receita própria, original e de instintos certeiros.


7. First Breath After Coma + Salvador Sobral
A Residência

A Residência é um trabalho conjunto dos First Breath After Coma e Salvador Sobral, que trabalharam sofregamente num projecto que começou por ser pensado primeiramente para o palco. Durante duas semanas viveram juntos na Casa Varela, confraternizaram, talvez sem se dar conta, elaboraram um dos discos mais impactantes da música nacional dos últimos anos.  O disco está concebido com a clara intenção de nos transportar até àquela residência – ao início até se ouve uma porta a ranger, abrindo-se lentamente para nos deixar espreitar. Ouvimos as primeiras notas de “Intro”, instrumental, lânguida, que logo nos aguça a curiosidade. Perscrutamos mais um pouco e ouvimos cantar em francês, “Je Galère”, e a partir daí já não conseguimos fugir. Há, ao longo de todo o disco, uma força gravitacional que nos faz ficar colados ao chão. Não vale a pena tentar resistir. Ficamos sim. Não queremos – nem podemos – ir a lado nenhum.


6. Noiserv
7305

7305 é o quinto trabalho de estúdio de Noiserv, disco onde mantém o seu experimentalismo e conceptualidade. A música navega num território entre o intimismo, a melancolia e o cinematográfico, construída em torno de camadas de sons, com instrumentos clássicos e texturas eletrónicas, a que se juntam vozes suaves. Neste trabalho, canta quer em português, quer em inglês, e conta com vários convidados como Surma, Milhanas ou A Garota Não. Um disco para saborear com atenção e ouvir uma e outra vez, descobrindo cada camada escondida que aparece a cada nova audição.


5. Minta & The Brook Trout
Stretch

Como em todos os discos de Minta, esta é uma rodela para consumir por inteiro. É dessa forma que melhor funciona um certo efeito hipnótico e calmante que sempre os acompanha. Mas não resistimos a destacar todas as canções, todas discretas obras de relojoaria cançoneteira, com arranjos bonitos e inteligentes a esconderem-se por baixo da simplicidade da superfície. Com mais um excelente disco, os Minta & The Brook Trout descansam-nos e dizem-nos que ainda estão aqui, connosco, e que sim, a vida tem altos e baixos, mas que podemos ser. O companheiro ideal para qualquer Outono.


4. Femme Fafalel
Dói-Dói Proibido

No seu disco de estreia, Femme Falafel dá-nos acesso privilegiado ao seu monólogo interior, enquanto lida com as dores de ser uma mulher a tentar sobreviver ao século XXI. Sendo um disco formal na sua matriz jazz, é também louco nas batidas house e nos sintetizadores idiossincráticos, mas são os versos rápidos e intrincados, quase como um fluxo de consciência sem grandes filtros, carregados de ironia e de trocadilhos inesperados, que tornam este disco divertidíssimo do princípio ao fim.


3. A garota não
Ferry Gold

Em Ferry Gold, A Garota Não expande o seu universo poético e musical, transformando cada canção em retrato íntimo e denúncia social. Um disco exigente, belo e profundamente emotivo, que pede atenção, entrega e, sobretudo, um coração aberto. Vale a pena ver este disco ao vivo, porque é nesse encontro entre artista e público que a poesia, a música e a emoção se completam verdadeiramente.


2. Mão Morta
Viva La Muerte

Em Viva La Muerte está tudo, de Trump aos venturinhas, dos que se apressam a tirar selfies com neo-fachos aos que fetichizam o Estado como entidade nacionalista, que prega os bons costumes, a pureza étnica e o culto da violência como forma de purificar um povo que será pobre, mas que terá sempre o consolo de se sentir útil para o Líder. É um trabalho necessário, uma reinvenção da música de intervenção, uma obra marcante e urgente que tem de ter a nossa atenção.


1. Vaiapraia
Alegria Terminal

Musicalmente, Alegria Terminal é o expoente máximo do que se pode chamar de “rock apunkalhado e louco e divertido”! Um novo punk que foge às fórmulas e privilegia “a desarrumação e a atitude provocatória”, sendo que transbordante é a palavra: de vitalidade, de urgência, de ousadia. Punk no coração mas mandando à merda qualquer manual de etiqueta. Uma declaração de guerra a tudo o que é comezinho e arrumadinho.

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