As boas novas, por vezes, tardam em chegar. Mas quando chegam, “um pé no mar, um pé no chão”, espalham alegrias tão imensas, que fazem com que tenhamos de as celebrar.
Há sempre que ter algumas cautelas com os álbuns de estreia e com aquilo que neles podemos inferir em relação ao que esperar do artista em trabalhos futuros. Por serem os primeiros, é natural que sejam compostos de canções há muito feitas, delas saindo um lote por vezes bastante forte, coeso, de grande qualidade, pelo facto de, entre tantas, os músicos escolherem verdadeiramente as melhores. São muitos os exemplos. Tantos que nem vale a pena mencionar qualquer um. Depois, com a lógica dos tempos dos contratos que devem ser cumpridos, a coisa pia mais fino e é aí que se percebe que quem tem unhas é que toca guitarra. Mas chega de plebeísmos e passemos ao relato da fina estampa da arte da escrita de canções. Este conjunto chegou-nos no ano passado, dez boas novas que já tiveram, em nós, bastante tempo de maturação. Até demais. Já as ouvimos como trabalho de estúdio, e também já ouvimos algumas delas ao vivo, no dia final do mês de maio do ano corrente. Ou seja, estamos prontos!
Se atendermos como verdade o que esboçámos nas primeiras linhas deste texto, mais cuidado há que ter com este artista em particular, sobretudo pela linhagem em questão. Os filhos de grandes monstros da música nem sempre trilham um fácil caminho. Agora, que o embrulho está composto, abramo-lo, dando nomes ao assunto que aqui nos move. É de Boas Novas, de Zeca Veloso, que falamos. O primeiro longa duração do segundo filho do mestre maior da MPB é uma obra de requintes vários e de várias particularidades que importa conhecer. Depois de já conhecermos bem o que o mais velho Moreno faz há muito, e depois ainda da banda em que o mais novo Tom se aventurou musicalmente, eis que o do meio nos entregou um conjunto de temas soberbos, variados nos estilos, mas unidos no bom gosto, nas poéticas, em algumas experimentações, até.
O título do álbum brinca com “Boas-vindas”, canção do excelente Circuladô, álbum de Caetano Veloso publicado em novembro de 1991. “Boas-vindas” foi um tema feito para celebrar o nascimento de Tom Veloso, assim chamado por ter nascido no dia em que também deu à luz, décadas antes, Tom Jobim. Com Boas Novas, assiste-se a um outro nascimento, agora de corpo inteiro (leia-se álbum), o do jovem adulto que chocou o mundo, no melhor dos sentidos, com “Todo Homem”, das mais bonitas canções do presente século que o Brasil viu surgir.
O disco abre com uma reunião de vozes. Os três filhos e o pai cantam “Salvador”, a mais caetaneante canção de Boas Novas. Aqueles arranjos de percussões não enganam, parecendo cópias de outros tão semelhantes, ouvidos em canções de Caetano. Escutem, por exemplo, “Onde o Rio é Mais Baiano”, terceira faixa de Livro (novembro de 1997), e digam lá se o nosso ouvido se enganou… O tema “Salvador” é um hit que não aconteceu. Fosse do pai, e o mundo inteiro cantaria a canção de fio a pavio, de tão poderosa e dançante.
Apesar de todas as faixas merecerem considerações particulares, mas porque no verão o que se deseja é que tudo corra e avance como brisas frescas do mar na pele nua na praia, passemos ao de leve por “Boas Novas”, quase clássica, quase religiosa em tom de igreja (“Boas novas / O meu filho nasceu”) – percebem os sentidos do que escrevemos há pouco? – e também por “Talvez Menor”, sendo que a memória escorre no tempo até “Araçá Azul”, tema final do álbum com o mesmo título. Ainda em relação ao tema “Boas Novas”, ele celebra o nascimento de Benjamim, filho do caçula Tom, acrescentando, assim, uma terceira camada por cima das anteriores. E, se quisermos ir um pouco mais longe nesta espécie de livro de linhagens de gente e canções, recordemos “Autoacalanto”, de Meu Coco (2021), tema de avô babado, “que já é nota de Tom / E tem cor de jasmim”. Pulemos “Desenho de Animação” e entremos em “Carolina”, talvez a canção mais extraordinária, mas não a mais imediata, de todo o álbum. (Um pequeno sublinhado para referir que Caetano Veloso também tem um tema com esse nome, no álbum homónimo de 1969, mais conhecido como álbum branco.) No entanto, as duas canções em nada se parecem. A “Carolina”, de Zeca Veloso, é de um romantismo desusado, mas que sabe bem ouvir. É uma delícia! Ela terá surgido de um sonho de Zeca, em que John Lennon aparecia, cantando em inglês. A canção incorpora versos na língua do ex-Beatle com o português transatlântico de Zeca, num diálogo sublime, parecendo quase teatro onírico, experimental, tão sedutor como nenhuma das outras faixas do álbum. Tanto em disco como em estúdio, quando as ouvimos, invade-nos uma certa vontade de chorar, como só as boas novas podem, por vezes, levar-nos a esse feliz pranto. “Máquina do Rio” parece ter sido feita para as festas do Frenetic Dancing Days, famosa discoteca do Rio de Janeiro, das décadas de setenta e oitenta, onde tudo acontecia. (outro sublinhado: se o nome da casa de diversão noturna lhe diz alguma coisa, é bom sinal, é porque já ouviu “Tigresa” mais do que uma vez na vida.) “Tua Voz” e “A Carta” são doces sonoros, mel em melodia e palavras com notas de orquestra e cordas de violão. A voz suave de Dora Morelenbaum faz com que “A Carta” seja entregue a Garcia de forma ainda mais eficaz. O samba também tem lugar em Boas Novas com “O Sal desse Chão”, não fosse Zeca ter nascido na carioca cidade do Rio. Xande de Pilares dá um sopro malandro ao tema, bem agradável de ouvir e dançar. Para o fim, “O Sopro do Fole”, gravada inicialmente pela tia Maria Bethânia, no álbum Noturno, de 2021. Toda ela é poesia, magia nos céus do sertão de Luiz Gonzaga, estrela cadente que percorre gerações, “boa nova, notícia clarão” no doce falsete de Zeca Veloso. “É o fim, é o início” de Boas Novas. Adoraríamos ouvi-la na voz de Djavan. Achamos que ficaria muito bem.
Uma entrada com o pé direito (e esquerdo, e corpo e alma e tudo), este primeiro LP de Zeca Veloso! Se foi bom escrever este texto, enquanto as águas se ouviam bem perto e as areias da praia se faziam presentes debaixo dos pés, talvez fosse recomendável que em situações equivalentes deste verão, ou noutras que sejam o contraponto destas, ouvissem atentamente este diamante salvador. Se é certo que a genética tem sempre algo a dizer sobre o que somos, Zeca Veloso também tem algo a referir de seu, mesmo que o seu pertença também a outros tempos, a outras vozes tão umbilicalmente próximas de si.
O génio é tão raro como o bom senso, como bem soube pensar e escrever Ralph Waldo Emerson. Tenha você, ao menos, a sensatez de ouvir o que aqui lhe deixamos como proposta, e continue a viver o verão com as boas novas que ele sempre nos faz sentir.