O Homem Triste foi o pretexto, mas Luca Argel e Moreno Veloso, o seu convidado muito especial, iluminaram a noite com uma banda em estado de graça. Primeiro, enfrentar os estereótipos da construção de uma certa masculinidade. No fim, tudo a dançar ao som do irresistível samba de “Um Passo à Frente”.
Ao triunfo inquestionável que assinalou o primeiro concerto sobre O Homem Triste no Theatro Circo, no sábado, em Braga, seguiu-se o avassalador sucesso em Lisboa, dois dias depois. Luca Argel, Moreno Veloso (cantautor e produtor do disco, filho mais velho de Caetano Veloso) e o maravilhoso quinteto que com eles partilhou o palco receberam trovoadas de aplausos, premiando a simplicidade elegante com que se apresentaram e abordaram o que tem sido e o que pode ser um homem. Perante uma plateia de maioria feminina, a noite musical trouxe perspetivas críticas sobre os papéis tradicionais do homem, a negação das emoções, a masculinidade tóxica, uma vulnerabilidade fictícia ou a acumulação de violência praticada por homens.
Sabem aquela expectativa de cada público, em sala ou ar livre, até ao momento em que o lento escurecer da sala remete para a entrada iminente dos protagonistas? Esqueçam: ainda a sala não aquecera e Luca Argel já estava em palco, no Teatro Maria Matos, sentado, trajando rosa da cabeça aos pés, perna esquerda cruzada sobre a direita e guitarra a repousar no colo. À medida que os espectadores preenchiam cada lugar, o artista olhava, sorria e acenava aqui e ali. E havia música ambiente, claro: além de canções suas, também “Homem com H”, de Ney Matogrosso, “Homens Temporariamente Sós”, dos GNR, ou “João e Maria”, de Chico Buarque.
As luzes nem sequer estavam apagadas e já Argel se dirigia a todos, entre agradecimentos e a fina ironia de ler, “com voz de locutor”, os avisos habituais nestes contextos, como a frase “é proibido gravar ou fotografar”. E, de seguida, para gargalhada geral, “mas se quiser, pode”. O desfile de histórias e música começou logo com a recordação de Juliano, o menino homossexual que, na sua escola, só tinha amigas e era o preferido para a chacota dos rapazes. “Quando a Cura Começa” ia a meio e as luzes desvaneceram-se, “O Homem Triste” e “Homem (A Canção)” formaram um primeiro conjunto.
Então, Luca pegou num extenso pergaminho e “revelou” a carta que os meninos “recebem” aos cinco anos. No fundo, uma lista do que não podem fazer para serem considerados homens: não podem dar a mão ou beijar outros homens; não podem vestir de cor de rosa; não podem não gostar de futebol; não podem dizer que um homem é bonito; não podem brincar com bonecas. Desconstrução sob a forma de ficção pedagógica. Tocaram “É Pedir Demais”, “Arqueologia de Armário”, “Acanalhado” e “Anos Doze”, neste caso uma nostalgia da infância. Entretanto, o virtuosismo de Pri Azevedo (teclas e acordeão), Cláudio César Ribeiro (guitarra elétrica), Júnior Castanheira (baixo), Carlos César Motta (bateria) e Neném do Chalé (percussões) já era uma evidência.
O artista homenageou o irmão com a música “Meu Irmão”, cantou “É de Hoje” e “Vila Cosmos” ao lado de Moreno Veloso, depois este ficou sozinho para recuperar “Eu Sou Melhor Que Você”, com “perto de 25 anos”, do seu álbum “Music Typewriter”. Os aplausos não paravam e Luca regressou. Ao abordar o seu ensaio “Meigo Energúmeno”, sobre Vinicius de Moraes, deu voz a “Maria Moita”, tema que o poetinha compôs em 1964 para a peça “Pobre Menina Rica”. Lembrou uma história de Vinicius em que este negava a um amigo ser autor de poesia para escapar a dúvidas sobre a sua masculinidade e, a propósito, veio “Tive de Mentir”, seguida de “Gémeos”.
“O Vencedor”, de Marcelo Camelo, e “Lenço Enxuto”, de Samuel Úria, também mereceram referências elogiosas numa ponte com a temática de Argel, antes de “Primeiro Mar”, “Imortais” e “Se Acabou”, aqui já ao lado de Moreno Veloso, tocando este “um prato que trouxe de casa da mãe” com uma faca que ganhou “no Uruguai”. A saída de palco foi breve, porque o público, numa ovação de pé, “exigiu” o regresso. O final fez-se em clima de festa dançante, ao som do samba de “Um Passo À Frente”, que Caetano até já gravou com os filhos e também Gal Costa chegou a cantar.
Fora da sala, continuou a imperar o rosa no merchandising variado, discos em vinil e CD, livros. Luca Argel distribuiu autógrafos e sorrisos. Porque não lhe bastou acompanhar quem chegava no início. Era preciso acrescentar generosidade e carinho a quem saía ainda sob o efeito da magia da música. Ser homem também é isto.
Fotografias de Valter Dinis

















