Vai sendo tempo de despedidas dos maiores astros da MPB. Gilberto Gil é apenas mais um caso. Rei do seu próprio Tempo, ter-nos-á dito adeus, ontem, em Cascais.
“Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver”
Tempo Rei, Gilberto Gil
O tempo é uma medida precisa, exata, que ganha lastro e segue sempre numa única direção, rumo ao que chamamos futuro. Claro que o tempo é também o que fazemos dele, e por vezes quase o tratamos como se fosse moeda de bolso. Desperdiçamo-lo quando julgamos tê-lo em excesso, poupamo-lo ao sentirmos que escasseia. Vivemos nele e com ele numa gestão difícil, sinuosa, conscientes apenas de uma coisa, embora nem sempre pensemos nisso: o tempo acabará por vencer-nos. Somos os eternos derrotados dessa instância contínua. No entanto, por vezes, acontece que alguns de nós, vassalos dessa invisível e permanente transição, conseguimos que o passado resista ao esquecimento que esse mesmo tempo promove e proporciona. Quando assim é, o “tempo rei” curva-se perante as “velhas formas do viver” e coloca, em sinal de respeito, a sua coroa na cabeça de quem, de maneira inequívoca, a soube conquistar. Este poderia ser o resumo do concerto “Tempo Rei”, que Gilberto Gil anda fazendo como (suposta) despedida dos palcos, aos 84 anos, e que ontem surgiu na forma d’aquele abraço bem apertado, que já tantas vezes recebemos dele. Mas vamos lá, uma vez mais, desafiar o tempo, puxando um pouco o filme atrás…
Mais uma edição do Ageas Cooljazz, e mais uma vez o Altamont marcou presença. Dia de abertura do Festival, dia de sotaques lusos irrepreensíveis. Uma menina chamada Marta Garrett (que em declaração óbvia de interesses dizemos que gostamos muito, que conhecemos, que é amiga) e que fez do seu português um trampolim para o castelhano e para o catalão, sem esquecer a língua pátria original, mas também na variante transatlântica, que muito afirmam ser mais doce e calorosa; houve igualmente Maria Luiza Jobim, que edificou uma Casa Branca em 2019, pintando-a mais recentemente de Azul, dando cor a um repertório tão bonito, quanto delicado, plantando agora uma Rosa no Céu, cheirosa e fresca; e claro que, por fim, Gilberto Gil, músico que sempre foi Rei do seu Tempo musical. Para a primeira de muitas noites, nada a obstar!
Marta Garrett e mais um trio de músicos encheu o palco Jazz Sessions by Smooth FM com a sua voz e o seu repertório que se dividiu em temas lusos, outros brasileiros e outros ainda na língua de Shakespeare. Mas também catalão, naturalmente, e italiano. Poliglota de sons e de ritmos, por vezes mais festivos, outros mais introspetivos, é assim Marta Garrett. Boas misturas de músicas, num set bonito, muito bonito, e com muitas e merecidas palmas. A Marta é uma intérprete de mão cheia que faz vida lá por fora, desde o distante Japão à mais próxima Catalunha, Barcelona. É uma mulher do mundo, que por vezes “aterra” em Portugal, como foi ontem o caso. Tem a escola do jazz, mas abriu os horizontes e fixou-se no bom gosto dos temas que escolhe e noutros que compõe (“My Love”, por exemplo). Algumas canções do álbum Assanhado passaram ontem por Cascais, tornando o espaço ainda mais cool do que já é. Terminar com “Desde que o Samba é Samba”, do deus Caetano, foi a cereja no topo do bolo sonoro que a Martinha nos ofereceu. Foi muito bom ouvi-la, vê-la, e dar-lhe um forte abraço, com mais de uma década de amizade. Tens de voltar mais vezes, Martinha, si us plau.
Maria Luiza Jobim foi o que se esperava. O calorzinho bom que vem da sua voz, a suavidade do canto, as canções feitas à medida para que o encaixe de sons e ritmos fossem peças perfeitas do puzzle sonoro que foi construindo. Claro que a bossa (já não tão) nova assim lhe está no sangue. Não é filha de um peixe qualquer, como bem sabemos, assim como deve ser um (quase) peso, o apelido que tem e transporta. O concerto foi prazeroso, intimista, soube bem. Assim como nada destoou na sua atuação, também nada surpreendeu, o que, na verdade, nem sempre é uma coisa negativa. Talvez falte um repertório que puxe pelo público, sobretudo um público que ali estava para a animação que o baiano que se apresentava a seguir costuma trazer. Mas, para sermos justos, esse não é um pecado que possamos atribuir a Maria Luiza Jobim. O ideal seria um outro espaço, uma outra sala, onde a sua música pudesse olhar olhos nos olhos com os olhos daqueles que quisessem mesmo vê-la e ouvi-la.
À hora certa, chegou o “Expresso 2222″ com Gil acenando da janela da sua provecta presença, esse “Viramundo” baiano, tão do nosso contentamento, tão cá de casa. Foi com samba que seguimos, mastigando “Chiclete com Banana”, nesse sabor tropical que já provámos tantas vezes e queremos sempre repetir. “É Luxo Só”! Para fechar o lote de canções dedicadas ao samba e seus infinitos contornos, “Garota de Ipanema” em jeito meio reggae (foi-nos apresentado assim por mestre Gil) contou com a voz da neta Flor Gil, lembrando, em certos momentos, Astrud Gilberto.
Durante muitos anos, temos essa convicção, Gilberto Gil abria os seus concerto com a extraordinária “Palco”. Ontem, foi mais ou menos a meio que a apresentou. Já de pé – esteve sempre sentado até esse momento – e de guitarra elétrica entre mãos, “Palco” foi mais um bálsamo com que nos brindou. Até Xangô esteve presente, vindo dos candomblés dos mundos negros, até aos mundos mais pálidos de Cascais. Foi bonito, esse sincretismo de crenças, vozes, misticismos que fazem parte, até hoje, da cultura brasileira. E, como não poderia deixar de ser, veio a “morena pros meus braços”, na reta final de um concerto que foi sendo construído em crescendo. “No Woman, No Cry / Não Chore Mais”, “Aquele Abraço”, Toda Menina Baiana” e a fabulosa “Andar com Fé” proporcionaram alegrias no quintal do Hipódromo Manuel Possolo.
O tempo vai deixando marcas, cicatrizes várias, até na nossa própria memória. Ontem, ter visto, quiçá pela última vez, Gilberto Gil em palco (a “alma” já não “cheira a talco, como bumbum de bebê”, mas apresenta ainda um odor bem satisfatório) foi um grande prazer.
Obrigado, mestre Gil, pela procissão de álbuns e canções por mais de cinco décadas!
Fotografias por Alexandre Pires
























