Os concertos podem até ser de despedida, mas a icónica banda de Xana continua a arrebatar multidões. Cantou-se em coro, com alegria e muita emoção. Porque a memória coletiva não se apaga.
Houve um tempo em que cantar em português era visto como risco para artistas cá do burgo num possível caminho rumo ao sucesso e, portanto, surgia a dúvida se essa seria a melhor opção. O amadorismo era a tendência dominante. O acesso a estúdio e gravações? Invulgar. As salas de concertos? Rudimentares. Além disso, uma mulher a assumir o protagonismo de ser vocalista e tocar, nesse começo dos anos 80, submetia-se a uma carga de preconceitos difícil de ultrapassar. Se a isso juntarmos a separação dos pais de Xana quando esta tinha 15 anos (Flak e Alex, amigos da escola um pouco mais crescidos, foram viver com ela, formando o trio um grupo chamado Crânio), a ousadia de ascender do anonimato suburbano de Algueirão, letras sofisticadas e inteligentes, fica completo o quadro de dificuldades que os Rádio Macau souberam superar com brilhantismo.
Esta vertente pioneira é uma parte do património da banda que, tal como os contemporâneos Xutos & Pontapés, UHF, Heróis do Mar, GNR, Sétima Legião, Mão Morta, entre outros, foi ganhando evidência em diferente palcos e salas como o emblemático Rock Rendez-Vous. Agora, muitos anos mais tarde, no segundo concerto de regresso/despedida a que o Coliseu dos Recreios serviu de palco, depois de o facto de tocarem na festa dos 60 anos de Xana ser um catalisador para novas atuações, a atmosfera foi perfeita e todos deixaram bem vincada a sua qualidade. E ecos evidentes de Lou Reed, Bowie, The Cure ou Sioux and The Banshees. Apressados de última hora, envergando t-shirts de Thin Lizzy ou Tara Perdida, serpenteavam pelo labirinto de cadeiras em busca de lugar.
A noite, que foi um passeio sem ordem cronológica por entre os oito álbuns de estúdio, até começou com uma falsa partida: Xana cantava “O amor é…”, primeiras palavras de “Logo se Vê”, quando uma falha em palco silenciou tudo por instantes e o público incentivava com aplausos. A partir do regresso, a doutorada em Filosofia nunca mais parou – elegante e vibrante, ora meneando os quadris e agitando os braços no ar, ora desfilando e cantando por entre os outros músicos, ora percorrendo uma pequena plataforma um pouco acima do resto do palco.
Veio “O hábito faz o monstro” e, com “Amanhã é sempre longe demais”, o público saltou logo das cadeiras, ensaiou as vozes e dançou até ao primeiro estrondo de aplausos. Nos lábios de Xana cintilava um sorriso, os olhos claros faiscavam de entusiasmo – era essencial agradecer: “Muitos dos que estão connosco aqui hoje estiveram presentes desde o início”, admitiu, perante uma plateia em que proliferava a experiência de vidas acima dos 50, mas também não faltavam expressões de juventude. “Levo-me no voo das minhas asas” foi antecedido por palavras de homenagem ao desaparecido Jorge Palma. Seguiram-se “Entre as memórias e o sonho”, “Tão fácil”, “De azul em azul”, “90 metros”, “Quebra de ação” (em que Xana tocou um gongo oriental), “Acordar” e, para uma segunda explosão do público, “Cidade-fantasma”.
No ecrã ao fundo do palco, sob a proteção de uma cortina transparente, a paleta de cores e desenhos foi ganhando variadas formas. Majestosa, predominava a imponência da estrela que é símbolo do grupo e foi marca na capa do terceiro álbum, Elevador da Glória, de 1987. Um calor insuportável era disfarçado com leques. Xana apresentou Alex (baixo), Flak (guitarra), Samuel Palitos (bateria) e Filipe Valentim (teclas), agradeceu e mencionou nomes de quem também lhes construiu letras, como Pedro Malaquias, Vitinha, Alberto Garcia ou Emanuel Ramalho. “Bom dia, Lisboa” foi o exemplo usado, antes de “Um dia a mais” e “Entre a espada e a parede”.
O virtuosismo eletrizante do guitarrista canhoto marcou a noite, espraiando-se em solos de sons atmosféricos até uma carga próxima do heavy metal, passando pelo hard rock. Porém, enquanto Xana deixava o palco para trocar de roupa, Flak trocava a guitarra por bateria. O ecrã transmitia imagens da arrasada Gaza e de olhos de crianças de todo o mundo em grandes planos, como se nos lançassem a pergunta essencial, numa conjuntura em que prevalecem a estupidez e a desumanização: “Porquê?” Talvez uma parte da resposta exija que deixemos de eleger o ódio, a ganância e a falta de valores para governos e parlamentos em todo o mundo.
“Guarda a faca” devolveu a vocalista, cujo timbre se mantém intocável, ao centro do palco, e, no ecrã, flashes de mensagens escritas em suportes como paredes, muros, cartazes – “Vocês pensam no fim do mundo. Nós pensamos no fim do mês” foi um dos casos. “Tarde demais”, “Cantiga de amor” e “Aos meus amores” representaram a antecâmara ideal para o delírio generalizado com “Elevador da glória”. E, já com a viola a tiracolo e Flak a desfiar uma harmónica indomável, “O Anzol”, em cuja parte final entrou o trio com instrumentos de sopro: Francisco Teles (saxofone barítono), Ricardo Pinto (trompete) e José Lencastre (saxofone alto). A casa quase vinha abaixo com aplausos sem fim. Mas ainda havia tempo para encores.
“Era uma vez (e não sei mais)”, com a indelével marca do baixista, e “Vida num só dia” semearam a loucura total, ramos de flores foram parar às mãos da cantora e a primeira fila foi convidada para dançar em palco. Parecia o fim. Houve quem começasse a sair da sala. Mas não. Xana, outra vez a empunhar a viola, guardou a entrega total para “Hoje é a brincar” e “Este Macau que não dorme”.
O quinteto juntou-se, então, na boca do palco para se curvar perante o intenso afeto feito palmas dos espectadores. Vêm aí paragens no Coliseu do Porto, dia 15, e no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, a 20 de novembro. Depois, talvez ainda um disco com este registo ao vivo. E mais concertos até final de 2027. Mas Rádio Macau será, para sempre, inteligência e entrega total. A nós, meros mortais, resta fazer uma vénia e agradecer. E continuar a ouvir as canções.
Fotografias de Gonçalo Nogueira













