Foram seis anos de espera, mas Phoebe Bridgers presenteou o mundo com um novo LP. Lost Weekend foi lançado a 14 de agosto, pela Dead Oceans, e traz um indie folk bridgeriano com novas camadas de electrónica e ambient, resultando no seu disco mais sombrio e mais difícil de digerir.
Nos seis anos que separam este disco de Punisher (2020), Phoebe Bridgers terminou a relação com o actor Paul Mescal, de quem estava noiva, esteve em tour com as boygenius, começou a relação com o cómico Bo Burnham e fez um luto complexo pela morte do pai. Nunca chegando o disco a assumir um tom confessional, esta avalanche de circunstâncias faz Lost Weekend, dando a conhecer uma artista menos disposta a subterfúgios e menos “arrumada” do que na discografia anterior. Produzido pelo trio de Punisher (a própria, Tony Berg e Ethan Gruska — dupla também responsável por Stranger in the Alps (2017)), Jack Antanoff (Taylor Swift, Lana del Rey, Lorde) e Alex G, o disco conta ainda com muitas participações especiais que o tornam um trabalho feito a muitas mãos, que nele deixaram dedadas.
O disco revela-se desde logo diferente dos antecessores, com “The Outside” a abrir. Os fãs devotos de Stranger in the Alps reconhecerão Bridgers no refrão, depois de pensarem “quê?” à primeira audição. Um vocoder distorce-lhe a voz, materializando a dissociação completa do mundo à sua volta sobre a qual ela canta. As quinze faixas que se seguem têm letras afiadas, suavizadas por nuvens sonoras densas, e oscilam entre a confusão da perda, a estranheza da fama, o sufoco da inércia e a capacidade de no reerguermos dos estilhaços das coisas que nos acontecem e que nos mudam. As glitches, as distorções e as texturas electrónicas acrescentam às letras duras uma camada de fantasmagoria que torna a sua audição sempre ligeiramente desconfortável, mas sempre consciente de que a honestidade bruta denuncia experiências difíceis de digerir.
É a partir da segunda faixa que Phoebe Bridgers soa em força, mostrando que o disco é plural e complexo, mas convencendo-nos logo que tudo fará sentido no fim. “The Governor’s Waltz”, que deixaria Elliott Smith orgulhoso, é uma das faixas mais sumarentas do disco, com uma letra lindíssima sobre uma relação lentamente arruinada por expectativas diferentes, síndrome de impostor em relação à vida adulta (“Two kids in a trench coat living alone”) e a constatação de que a vida que se levava em performance é cansativa e não vale o esforço. Mas o verdadeiro tesouro desta faixa suave é que está recheada de drama da internet, que deixa qualquer pessoa que esteja a par das circunstâncias de boca aberta. Não é toda a gente que é capaz de abordar a situação Gracie Abrams/Paul Mescal com uma letra igualmente generosa e desarmante: “And she can pretend to be me / Since she took my place in my bed on my stage / I have not lost any sleep / Being myself wasn’t easy / Do it for me”).
Cheio de referências e colaborações ricas, Lost Weekend é uma mina surpreendente e quanto mais se escava mais se encontra e mais se aprecia a dimensão do trabalho. “Bobby”, que conta com a participação de Mike Kinsella (American Football), parece vir directamente de Punisher e mostra uma Phoebe desesperadamente apaixonada, com um dos versos mais potentes do disco (“And if you didn’t like either one of my friends / I’d kill them, I’d kill them”); “Lost Weekend”, que dá nome ao álbum, referencia a separação de John Lenon e Yoko Ono e é um breve vómito de tudo o que se quer dizer no fim de uma relação, terminando com “You know me, and I’ll never forgive you for that”; já em “As Above”, Bridgers está cansada e grita e surge distante das sonoridades a que nos habituou; e “I Can’t Wait” tem fragmentação do eu e vocals de Cameron Winter (Geese), creditado como Son-John Johnson, que também surge em “Kill Me”, a par da guitarra de Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs). Esta última desengana quem acha Bridgers derrotista, com os “wait” que se ouvem, depois de “This is gonna kill me”, denotando resistência no fluxo de consciência.
Parecendo que não, ainda resta espaço para a positividade. “Lost Boys”, eleita para single do álbum, é um autêntico hino às fases estranhas da vida adulta em que nos vemos em dificuldade para aceitar tamanha idade com tão pouca sapiência e certezas. Os lost boys, os meninos do Peter Pan que se recusam a crescer, vão sempre querer fugir ao compromisso e às consequências de viver no mundo. Para eles, um refrão folk que fica no ouvido. Já em “Haunted”, Bridgers encontra coragem para se reerguer, que é sempre um movimento importante de amor próprio, a decisão de não se querer sofrer mais (“I’m gonna put myself together / You can go or you can stay / I’m gonna put myself together either way”). Esta faixa é uma festa country folk, uma homenagem às boygenius, que conta com Bo Burnham, Alex G e Maya Hawke na composição e Lucy Dacus e Julien Baker nas vozes. Mas Bridgers está muito apaixonada e não resistiu a incluir neste disco demolidor “Liberty Tree”, em que canta coisas como “You were made in the image of God / But you look like your mom in this picture of us” e “Don’t die, Bobby, before I die / It feels so good to have you in my life”, que lembra muito “Please Don’t Die” de Father John Misty.
Contudo, um dos temas centrais do disco, e o mais complicado de digerir, é a morte do pai de Bridgers e o que ela faz com isso. Figura violenta e problemática, assombrou o crescimento de Phoebe e parece assombrar o seu luto esquisito, de quem sente alívio e uma perda imensa em simultâneo. “Still Standing”, uma das poucas faixas do disco escritas apenas pela cantautora, tem uma letra brutalmente honesta sobre a violência doméstica do pai, a forma como isso a afectou e a relação bizarra que isso a faz ter com o pai, agora morto “para sempre”. A música deixa-a falar, ao contrário de outras faixas, em que a voz se mistura com a névoa de sintetizadores. “Never Going Back!” é possivelmente a faixa que nos deixa com o coração mais apertado, com vocals distorcidas e um banjo, criando uma atmosfera sonora desconcertante para amparar o áudio do pai que se ouve no fim, “Hey Phoebe, it’s Dad”. O álbum termina, enfim, com “Lost Weekend (Reprise)”, que serve de catarse suave, depois de um disco inteiro a moer o coração de quem o ouve e a querer desaparecer sem deixar rasto. Em tom de conclusão pacífica, foca-se no que o pai deixa de bom.
Lost Weekend fala sobre as dores por que passa quem vive, e fala sobre elas de forma aberta e segura. Encara-as honestamente, assumindo a fragilidade e a angústia que elas espoletam. É catártico e declara que a vida não acaba quando toda ela nos desafia. Feito de músicas que se referenciam umas às outras e paisagens sonoras maximalistas que têm o seu quê de Sufjan Stevens, o disco é coeso, embora bastante longo e, por vezes, redundante. Algumas faixas são estrondosas, ora pela sua brutalidade, ora pelos seus versos suaves, mas parece que outras estão só a encher espaços que podiam ficar vazios. Não deixa de ser um trabalho completo, que funciona perfeitamente em linha com a restante discografia de Bridgers, mesmo considerando a quantidade de cabeças que o pensou e lhe adicionou uma textura inovadora. Quanto às letras, nada que surpreenda, apenas porque já todos sabemos dos maravilhosos cliff hangers de que Bridgers é capaz.