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60 discos que lhe podem ter escapado em 2020

É um dado notório dos últimos anos, impossível de negar: com a internet, o acesso à música explodiu, as bandas passaram a multiplicar-se e a revelar-se como cogumelos e os ouvintes deixaram de ter tempo para seguir tudo aquilo de que ouvem falar. Se antigamente um melómano passava meses de volta de um disco, agora é difícil manter a atenção quando a oferta se avoluma todas as semanas, todos os dias, a cada hora.

Porque nem só de “melhores discos de 2020” se fez o ano, porque há pérolas obscuras por descobrir — sejam discos editados em editoras mais pequenas ou discos instrumentais (que serão sempre preteridos mediaticamente pelos cantados) —, fizemos uma lista de álbuns que lhe podem ter escapado nos últimos doze meses.

Optámos por um critério: não incluímos nem álbuns que tenham sido alvo de revisão crítica no Altamont ao longo do ano (pode ler todas as criticas de discos aqui), nem discos destacados nas nossas listas de melhores de 2020, nacionais e internacionais).

Da folk ao rap, da eletrónica ao rock e ao jazz, há aqui muito por descobrir de que não lhe falámos ao longo do ano. Não deixe de ver, no final do artigo, as menções honrosas: tratam-se de álbuns que poderiam figurar nesta lista, mas que não foi possível incluir em tempo útil na seleção. E pode ainda ouvir o podcast que complementa este artigo, intitulado “O Lado B de 2020”.



A. Swayze & The Ghosts – Paid Salvation

O bom e velhinho rock and roll, apunkalhado e desvairado qb, acelerado sempre, é aquela comida de conforto que cai sempre bem: começamos a ouvir um tipo a berrar, guitarras nervosas, a canção a avançar como comboio desgovernado ou como um tipo que vai caminhando aos trambolhões e ficamos imediatamente convencidos. Afinal os outros também têm chatices…

Quem são estes A. Swayze & The Ghosts? Aparentemente quatro rapazes australianos que em 2017 formaram uma banda, que cresceram no meio de nenhures e sem nada para fazer, que já beberam e se drogaram como se não houvesse amanhã, a quem o rock, o punk e os Nirvana mudaram a vida, que gostam de David Bowie, que dizem que desprezam tipos irónicos e que cantam só coisas irónicas como se o que têm a dizer fosse igual ao litro. Este ano lançaram o álbum de estreia, um disco cheio de ingenuidades — percebe-se bem que ainda estão a descobrir o que é isto de fazer música e gravar um disco — mas com um nervo, uma energia e uma quantidade de boas referências que anteveem um belo futuro. Sim, o rock and roll tem de voltar a reclamar a energia furibunda e zangada de outrora e estes A. Swayze & The Ghost, evoluindo, podem ser até o que os Idles não conseguiram: garotos com a energia toda certa mas também com boas canções.


Against All Logic – 2017 – 2019

Confesso-me perante vós: eu, que sou um bruto incorrigível, achei os discos que o chileno-americano Nicolas Jaar editou em nome próprio este ano (Cenizas e Telas, mais ambientais) um aborrecimento infinito. Mas este álbum, que editou com o seu pseudónimo Against All Logic, caiu-me no goto, com as suas batidas dançantes — embora não seja eletrónica dançante pura, aproxima-se muito mais do que as paisagens mais contemplativas de Cenizas e Telas — e a voz mais presente ao longo do disco. Nicolas Jaar continua a inovar, mas é quando o faz sem se afastar demasiado das pista de dança que mais me cativa. Mas voltamos ao início: eu sou um bruto incorrigível que se aborrece facilmente.


Ambrose Akinmusire – on the tender spot of every calloused moment

Sendo um músico de jazz, Ambrose Akinmusire acaba por captar menos a atenção de meios dedicados à crítica musical que se especializam no pop-rock — como é o caso do Altamont e de muitos outros. O novo álbum do trompetista norte-americano, porém, merece o destaque.

Depois de quatro discos para a editora discográfica Blue Note, o primeiro dos quais em 2011 (lançara um anterior, em 2008), Ambrose Akinmusire termina a década com um quinto disco de título longo: on the tender spot of every calloused moment. Tem homenagens a figuras importantes da história do jazz (Roy Hargrove e Roscoe Mitchell). Tem o trompete de Ambrose acompanhado por piano (tocado por Sam Harris, em grande forma), contrabaixo (de Harish Raghavan, mestre da ginga) e bateria e percussões várias como só os bateristas de jazz podem oferecer (mérito, neste caso, de Justin Brown). E tem excertos melódicos quase baladeiros, de uma contenção admirável (como o arranque primeiro só com trompete, depois com trompete e piano, no início de “Yesss”), que se vão misturando com um jazz mais acelerado, quase frenético, com melodia e contra-melodia, com notas que só tiram o chão ao ouvinte no momento certo, aqui e ali com vozes que cantam em idiomas étnicos africanos (por exemplo, yoruba) ou com uma doçura desarmante em inglês (em “Cynical sideliners”). Tiramos-lhe o chapéu.


Avishai Cohen Big Vicious – Big Vicious

Continuando a navegar as águas jazzísticas, trazemos-lhe agora o novo disco do trompetista israelita Avishai Cohen (não confundir com o contrabaixista com o mesmo nome, mais popular e promotor de um jazz mais smooth). Nascido em Tel Aviv, estudou no Berklee College of Music, em Boston, e mudou-se mais tarde para Nova Iorque, mas nos últimos anos voltou a viver em Israel.

O músico lança discos desde 2003 mas afirmou-se em definitivo no universo jazzístico, com mais notoriedade, com a mudança para a editora ECM Records e com Into The Silence, o primeiro disco que ali editou como líder e em seu nome (em 2016). Este ano lançou um novo álbum, em colaboração com uma banda que criou há cerca de seis anos — os Big Vicious —  e que consiste em músicos locais que querem gravar com Avishai. São, também, velhos amigos. O resultado é uma música híbrida, com óbvia influência do jazz (o seu trompete não deixa margem para dúvidas) mas com um caldeirão de misturas que incorpora até ritmos da eletrónica, rock (com laivos psicadélicos) e (embora menos) groove do hip-hop mais clássico.

Há versões de Massive Attack (“Teardrop”) e Beethoven (“Moonlight Sonata”), mas predominam as canções instrumentais originais. Não é um disco fácil de decifrar ou de engavetar num género estilístico, mas é muito bom tocado, de bom gosto evidente e — adivinha-se pelas versões finais — muito editado e estruturado na fase de produção.


Benny the Butcher – Burden of Proof

É garantidamente um dos três ou quatro melhores discos de hip-hop do ano — para mim, é até o melhor. Com um aroma clássico, com esquemas rimáticos prodigiosos e uma capacidade de articular e combinar sons e palavras digna dos melhores MC’s que já ouvimos, Burden of Proof é o segundo álbum completo e “a sério” do rapper nova-iorquino Benny The Butcher — a que é preciso acrescentar álbuns em parceria, EP’s (mini-álbuns) e uma quantidade impressionante de mixtapes. O disco é o momento em que Benny The Butcher se afirma em definitivo em panoramas mais mainstream (menos exclusivo aos ouvintes de hip-hop clássico). O facto da produção instrumental das batidas ter ficado concentrada em somente duas mãos, as de Hit-Boy, ajuda a que o disco soe a um álbum com princípio, meio e fim, que os diversos e bons convidados (Big Sean, Conway the Machine, Freddie Gibbs, Lil’Wayne, entre outros) vão pincelando aqui e ali de tonalidades e vozes diferentes. Não é hip-hop cantado com melodias pop — é clássico e orgulha-se disso, mas tem a pinta toda de quem domina esta arte como poucos.


Bill Frisell – Valentine

Só pela lindíssima versão de “We Shall Overcome”, o clássico do cancioneiro americano que tanta esperança deu às gentes da América em tempos mais conturbados, o novo disco do grande guitarrista de jazz Bill Frisell já merecia toda a atenção.

Editado na discográfica Blue Note, tal como o antecessor Harmony (grande parte da carreira, Frisell passou-a na ECM e na Nonesuch Records), Valentine não traz grandes novidades ao mundo do jazz mas traz a classe de sempre. É mais um daqueles discos que é absolutamente seguro pôr a tocar em qualquer ocasião: à beira dos 70 anos, Frisell continua a tocar guitarra como quase ninguém no jazz e no contrabaixo e na bateria, Thomas Morgan e Rudy Royston também não falham uma nota. Vale a pena registar o brilho de temas como o inaugural “Baba Drame”, o pausado e emotivo, mas esperançoso, “Winter Always Turn To Spring” e o já citado “We Shall Overcome”, que encerra o disco.


Bully – Sugaregg

Começa aos gritos, a prometer tareia indie-rock — com a descarga elétrica típica da música ancorada nas guitarras e com os gritos furibundos de zanga e revolta de uma rapariga. A rapariga, ficamos a saber ao ler mais sobre esta “Bully”, é Alicia Bognanno, moça (de 29 ou 30 anos, é difícil precisar) nascida em Rosemount, no Minnesota, mas que decidiu formar uma banda em 2013 em Nashville, no estado do Tennessee. Banda, sim, mas quem manda é ela. E o disco, percebemos a seguir, prossegue dando várias pistas de que esta rapariga tem angústias para expurgar das entranhas em gritos e riffs de guitarra elétrica.

A melodia está ali, mas incorporada num rock de garagem de quem ouviu grunge, punk e rock independente dos 90’s — a influência dos Nirvana é nítida. Só que, nota-se, Alicia Bognanno também terá ouvido bastante as cantautoras da folk, juntando-lhes porém a guitarra e o tom épico (é uma espécie de Phoebe Bridgers em esteróides). Há espaço para algumas cantigas mais delicodoces (em alguns momentos de “Where to Start”, por exemplo), mas o que aqui predomina é a energia de quem cresce a canalizar a fúria toda para a música. E que com isso faz boas canções, relativamente lo-fi mas sem querer inventar a roda. O disco deste ano, que é o terceiro da discografia de Bully (ainda não o tínhamos escrito), foi editado pela já mítica no indie Sub Pop.


Burna Boy – Twice As Tall

Quando em janeiro deste ano Angelique Kidjo venceu o Grammy que premeia o Melhor Álbum de World Music, dedicou-o a outro dos nomeados: o nigeriano Burna Boy, que concorria com African Giant. Percebe-se o porquê: Burna Boy encontrou uma fórmula de fazer canções dentro do vasto espectro da pop que simultaneamente popular (fácil de cativar, com ginga e groove para captar o ouvido) e única. Sim, isto é pop com influências daquilo que hoje mais a alimenta — o hip-hop, o R&B, a eletrónica — mas só podia ser feito na Nigéria.

Este ano, Burna Boy — nome artístico do nigeriano Damini Ebunoluwa Ogulu, de 29 anos — lançou um álbum chamado Twice As Tall. A fórmula não é muito diferente do disco anterior: continua a mistura da pop, R&B, dancehall e rap com ritmos nigerianos e africanos. Para dançar até cansar.


Cabrita – Cabrita

Cabrita é João Cabrita, saxofonista com longos pergaminhos na música portuguesa — esteve nos Sitiados e nos Cool Hipnoise, acompanhou Sérgio Godinho, Dead Combo e sobretudo The Legendary Tigerman. Este ano, em que assinala 30 anos de carreira como músico, lança o primeiro álbum a solo, a estreia neste modelo em que é ele que convida outros e que dirige as músicas (em vez do contrário, a que estava mais habituado).

O que une os dez temas deste álbum é o saxofone de João Cabrita. Os convidados são variados — o saxofonista Gui dos Xutos & Pontapés, o baterista Ivo Costa, o baterista e compositor Hélio Morais, o teclista João Gomes (Orelha Negra), o guitarrista Tó Trips, o guitarrista, cantor e compositor The Legendary Tigerman (Paulo Furtado), o produtor e rapper Sam the Kid, a cantora e compositora Selma Uamusse… — e as estéticas de cada canção também. Mas sempre bem tocado, sempre com bom gosto, Cabrita parte do funk-jazz como base (o groove é constantemente perseguido) com pós de psicadelismo, de hip-hop, de blues-rock, de paisagens à Dead Combo. Maioritariamente instrumental, é mais um disco de identidade muito própria lançada pela Omnichord Records, discográfica de Leiria cujas edições não costumam ser cópias de tendências e estéticas internacionais em voga.


Charles Lloyd – 8: Kindred Spirits

É um dos maiores do jazz ainda no ativo. Com 82 anos, o saxofonista norte-americano Charles Lloyd continua aí para as curvas depois de uma carreira que começou a ganhar tração nos anos 60 — e que incluiu passagens auspiciosas por exemplo pelas editoras Columbia e Atlantic (anos 60), ECM (do fim dos anos 80 até ao início desta década) e Blue Note (nos anos recentes). Depois de décadas e décadas, incontáveis discos, ainda tem Charles Lloyd alguma coisa de vital a oferecer? Tem. Basta ouvir este álbum, gravado ao vivo no Lobato Theatre, em Santa Barbara, na companhia do guitarrista Julian Lage, do baterista Eric Harland, do baixista Reuben Rogers e do pianista Gerald Clayton. 8: Kindred Spirits é o retrato de uma banda cheia de energia e claramente à procura de uma transcendência qualquer através da música. É uma hora (59 minutos) de puro deleite.


Charley Crockett – Welcome To Hard Times

Quem gostar da música country, tradicionalmente americana — com um tipo de chapéu a cantar sobre o Tennessee, sobre viver na cidade não ser para si, sobre a vida ser um casino com roleta de apostas, sobre cowboys, sobre as dores de coração — tem aqui um bom álbum para o seu gosto.

Nascido no estado do Texas (só podia) mas tendo mudado regularmente de morada enquanto crescia, Charley pegou numa guitarra ainda novo e, sem aulas, começou a tentar compor canções, a tocar e cantar na rua e a viajar com ela às costas, às vezes à boleia em camiões. Acabou a conciliar a música com a agricultura, a viajar e tocar pelas ruas de Paris durante um ano (também passou mais brevemente por Espanha e Marrocos), a ser detido por posse de marijuana, tragicamente a ver a irmã morrer de overdose.

Em 2015, lançou o seu primeiro álbum, já estabelecido novamente em Dallas (no estado do Texas). As influências que cita são muitas, de Curtis Mayfield e Nina Simone ao hip-hop, dos Flying Burrito Brothers a Hank Williams e Jimmy Reed. E história está cheia de peripécias trágicas, a fazer lembrar os heróis do outlaw country (country fora da lei), mas não importaria muito se as canções não fossem boas. Acontece que são. A guitarra é muito bem tocada, ao country que serve de base Crockett retira o azeite tantas vezes em excesso e acrescenta às vezes uns pós de blues e soul, a voz é muito boa (incrível a maneira como este amigo de Leon Bridges canta “good for my health” na canção “Fool Somebody Else”) e Charley Crockett está feito um grande trovador de corpo e alma. Venham mais discos destes para nos aquecer no Outono e no Inverno.


Christian McBride – The Movement Revisited: A Musical Portrait of Four Icons

Começa com som de piano, a que se soma depois um coro em fundo e uma voz a dizer coisas que talvez valha a pena reter em 2020: que “as trevas não podem expulsar as trevas, só a luz o pode fazer” e que “o ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode fazê-lo”. Depois multiplicam-se as vozes, o piano tocado em fundo, uma mulher a dizer que não se pode permitir “ter tanto medo que me impeça de me mover livremente e de me expressar” porque se o fazer estará “a desfazer todos os ganhos conseguidos no movimento dos direitos civis”.

O tom está apresentado e o resto do disco prossegue nessa onda: vozes que refletem sobre figuras como Rosa Parks, Malcolm X, Ali ou Martin Luther King, que simulam discursos condizentes com estas figuras para servir de intervenção social no presente. Não é, porém, um disco de spoken-word, é um disco de palavra política alimentada a jazz, em que o discurso se vai intercalando com um coro gospel e com música tocada por uma big band de 18 músicos.

Apresentado pela primeira vez no Walt Disney Concer Hall, uma sala com mais de 2.000 lugares de Los Angeles, o disco foi idealizado pelo grande contrabaixista e compositor americano Christian McBride, vencedor de seis Grammys e que conta no currículo com colaborações com gente como Freddie Hubbard, McCoy Tyner, Herbie Hancock, Pat Metheny, Chick Corea, Wynton Marsalis, Paul McCartney, Isaac Hayes, The Roots e James Brown. Num momento em que se diz que o jazz está pouco politizado, este disco prova que é precisa apenas alguma vontade para encontrar jazz interventivo que ainda por cima alia à palavra música exemplarmente bem tocada.


Christian Scott aTunde Adjuah – Axiom

No fim do primeiro tema, ouvimos um pequeno discurso que pode servir quase de sistematização do que acabou de tocar — e do que se vai tocar a seguir. Diz-nos este trompetista de 37 anos, Christian Scott, que se quiserem podem usar termos pejorativos para falar sobre isto, mas que isto não é jazz — “o jazz não tem nada a ver com o espaço em que reside a força desta música”. O que aqui se ouviu e se ouvirá, nota o músico que já tocou com Prince, com o tio Donald Harrison, com Marcus Miller, Akua Naru ou Jose James, é música improvisada e ‘expansiva’, livre e libertária: “Queremos que toda a gente saiba que é livre e está em segurança e pode expressar-se se o quiser fazer”.

Expressão sim, mas com cuidados — “desde que não espirrem enquanto o fazem…”. A piada deve-se a isto: este Axiom é um álbum ao vivo gravado em março, no Blue Note Jazz Club de Nova Iorque, já a pandemia começava a propagar-se pela América. Nessa última aparição antes do confinamento, Christian Scott apresentou-se no afamado clube de jazz na companhia da flautista Elena Pinderhughes, do saxofonista Alex Han, do percussionista Weddie Braimah (no ‘djembe’), do pianista Lawrence Fields, do contrabaixista Kris Funn e do baterista Corey Fonville.

O registo acabou por ser gravado e dar origem a este disco ao vivo, que não tendo certamente a notoriedade e impacto do anterior álbum de Christian Scott aTunde Adjuah — Ancestral Recall, editado no ano passado — tem muitos motivos de interesse. Há temas de vários discos anteriores, uma interpretação de “Guinnevere” de David Crosby (que já Miles Davis interpretara) e sobretudo uma constante procura cósmica e de escape feita através de uma música exemplarmente tocada.


Conway the Machine – From a King To a God +  LULU

Mesmo para quem não é fã deste tipo de hip-hop — por um lado mais duro e cru, sem artifícios e cantorias, sem grande flirt com a pop; por outro, também mais clássico na instrumentação e batidas —, é impossível negar que a editora novaiorquina Griselda marcou o hip-hop americano como nenhuma outra em 2020. O coletivo foi fundado em 2012, pelo rapper Westside Gunn, pelo seu irmão e também rapper Conway the Machine, pelo seu primo Benny the Butcher e pelo produtor de batidas Daringer.

Em 2020, os principais elementos da Griselda Records apresentaram-se em grande nível: Benny the Butcher lançou Burden of Proof (que garantidamente figurará numa lista de três ou quatro melhores discos de rap de 2020), Westside Gunn não parou quieto (editou Who Made the Sunshine e os muito elogiados Pray For Paris e Flygod Is an Awesome God II) e Conway the Machine também se multiplicou entre discos, lançando From King To a God e LULU. O segundo é um disco feito a quatro mãos, em colaboração próxima com o produtor de batidas The Alchemist (realeza do hip-hop na composição de instrumentais), o primeiro é um disco a solo mais esparso. Vale a pena ouvir os dois, para confirmar que o melhor hip-hop este ano também passou por aqui.


Cut Worms – Nobody Lives Here Anymore

Se a primeira canção de um disco é importante para captar a atenção do ouvinte, a deste Nobody Lives Here Anymore acerta em cheio: uma espécie de folk-rock americana com reminescências de country e da canção popular assumidamente americana, espiritual, de George Harrison fase All Things Must Pass.

Cut Worms é o projeto musical de um norte-americano chamado Max Clarke, que no passado já andou a assegurar concertos de abertura de gente como Kevin Morby, Michael Rault e The Lemon Twigs. E este é o segundo disco de Clarke com este nome artístico, um disco duplo por sinal. Não há aqui nada de muito novo (pelo contrário, é tudo de um classicismo assumido), nada de muito ‘moderno’, mas as canções, baladas americanas com melodias tão reconhecíveis quanto apuradas, tornam a audição de Nobody Lives Here Anymore um bocado muito bem passado. Por uma hora e um quarto saímos do mundo pandémico, das tensões sociais, dos problemas mundanos (nada de perjorativo no termo) e correntes e voltamos ao início dos anos 70.


Dinner Party – Dinner Party + Dinner Party: Dessert

Não se trata aqui de um disco, mas de dois EPs. Abrimos porém uma exceção porque a qualidade dos intervenientes é fantástica, porque é um projeto novo e porque em 12 meses nos revelou um belo e variado conjunto de temas. Os Dinner Party juntam duas figuras maiores do jazz moderno e do jazz moderno que se mistura com outros géneros da música negra, como a soul e o hip-hop —  Kamasi Washington e Robert Glasper —, um belo interveniente do jazz, R&B e hip-hop chamado Terrace Martin e o produtor de batidas de hip-hop, também com um currículo invejável, 9th Wonder.

No primeiro EP, Dinner Party, a mistura gourmet da soul, do hip-hop e do jazz traduz-se em sete temas açucarados, cheio de pinta e groove, relaxantes. O segundo pode parecer ter uma fórmula pouco interessante — são novas versões das mesmas canções — mas é mais uma bela sobremesa musical, com rappers (Buddy, Punch, Rapsody, Cordae, Snoop Dogg), cantores (Bilal) e músicos (Herbie Hancock) a tornarem as canções novas e excelentes.


Disclosure – Energy

Pode um disco de dança ser melhor do que nos parece a todos, neste momento em que andamos semi-confinados em casa, sem borga, má vida e sem a euforia e estado de espírito de que a dança se alimenta? Talvez, porque não é um exercício fácil de fazer esse de nos abstrairmos do contexto (neste caso, pandémico) e ouvirmos um disco como se os bares e as discotecas não estivessem fechados e o mundo não estivesse sombrio. Por isso mesmo, talvez valha a pena darmos mais oportunidades ao novo disco dos irmãos Lawrence — em especial quando a pandemia der tréguas.

Howard e Guy Lawrence, os irmãos que compõem o duo Disclosure, conseguiram nos últimos anos acertar num ponto de rebuçado difícil: o de fazer música que pode ser ouvida por uma massa enorme de gente, nem toda ela melómana ou apreciadora de música “alternativa”, mas ainda assim fazê-la com pinta e um bocadinho mais original e própria do que a que se ouve na pop mais indistinta. Em Energy, disco repleto de participações vocais de peso do hip-hop e do R&B — Kelis, Slowthai, Kehlani, Syd, Common, Khalid… —, há faixas menores e algum cansaço para o ouvinte (mas lá está, talvez seja difícil entrar num estado de espírito imersivo que permita ouvir mais de dezena e meia de temas dançantes com gosto, nesta fase) mas é um disco que pode ser colocado a tocar do início ao fim numa festa de bom gosto, com algumas canções (“My High” com Slowhtai, “Douha (Mali Mali)” com Fatoumata Diawara) que acertam em cheio.


Everything is Recorded – Friday Forever

Ninguém lhe ligou nenhuma, não é um disco que vá mudar a vida de ninguém, não é um disco sequer à prova de bala mas é uma bela audição para quem apreciar esta nova pop dançante que se ouve impregnada de música eletrónica, hip-hop e R&B — até com espaço para misturas entre reggae e hip-hop (pode não soar bem, mas em disco soa bem: oiçam a quinta faixa do disco) .

Everything is Recorded é o projeto musical do produtor de discos e presidente da grande editora britânica XL Recordings, Richard Rusell. Este Friday Forever é o sucessor de um disco anterior e homónimo (Everything is Recorded), editado em 2018. Com um conjunto enorme de participações, com espaço para imensas variantes musicais dançantes, o disco propõe-se a imaginar uma banda sonora (moderna e sintonizada com as novas explorações da chamada “música urbana”) de uma noite caótica que começa às 21h46 (primeira faixa) e acaba na manhã seguinte, às 11h59 (última faixa).


Freddie Gibbs ft The Alchemist – Alfredo

Aparecerá, por certo, em muitas listas de “melhores discos de hip-hop do ano”, está candidato a um Grammy e é um daqueles álbuns aos quais é difícil apontar grandes erros. Alfredo é o disco que une o rapper Freddie Gibbs, o badass das ruas e das rimas que não gosta de palavras meigas porque também não cresceu com elas, ao produtor The Alchemist, que teve em 2020 mais um grande ano.

Em “1985” há uma guitarra omnipresente a provar que o rap reclamou hoje, para a juventude, o espírito de rebelião e purga que em tempos alimentou outros géneros musicais até ao mainstream. “Frank Lucas”, com Benny the Butcher, “Something To Rap About”, com Tyler, The Creator como de costume em grande nível, e a final “All Glass” são merecedoras de destaque, num álbum das ruas para o mundo, cru como carne ensanguentada. Talvez não seja inovador e aberto (a outros géneros musicais) o suficiente para trazer alguma coisa de muito diferente ao que já foi feito, mas Freddie Gibbs e Alchemist sabem pelo menos fazê-lo muito bem.


Future Islands – As Long As You Are

Um hit pode ser uma benção mas também uma maldição: e os Future Islands sabem-no bem. Há meia dúzia de anos foram à televisão americana apresentar o single “Seasons” e de repente transformaram-se de uma banda indie razoavelmente desconhecida em banda indie muito procurada e ouvida. A culpa era dos movimentos epilépticos de dança do vocalista, um rapagão crescido que dançava e dança como um desengonçado em speeds.

O problema é que a banda não tinha nem arcaboiço (estrutura, mental e não só) nem um número suficiente de canções para suportar o hype. E com o tempo, começou a atrair intolerâncias como atraiu fãs. O ritmo de trabalho teve de acelerar, os compromissos multiplicaram-se, a pressão aumentou e a banda esteve por um fio — contam no The Guardian que se “perderam” —, mas agora parecem ter encontrado um equilíbrio e uma acalmia melhor. O novo disco deste ano, As Long As You Are, é os Future Islands no seu melhor, que não chega a ser brilhante: as letras estão muito longe de ser um espanto, mas as melodias synth-pop e eletrónicas estão cada vez mais apuradas. Não sendo uma obra-prima ou um disco para figurar entre os melhores do ano, As Long As You Are é um belo disco para ouvir descontraidamente. Experimentem que não se arrependem.


Fuzz – III

Então e não há para aí discos de rock pesado, que nos façam recuar aos tempos em que podíamos ir aos bares esconsos e escuros de música pesada, mas com uma banda sonora um bocadinho menos, digamos, empoeirada? Pois claro que há. Aqui vai um, dos Fuzz, a banda de três rapazes cheios de força e com jeito para o rock — Ty Segall, que aqui além de cantar toca bateria e não guitarra como faz a solo; Charles Moothart, que faz segundas vozes e toca guitarra (e toca guitarra suficientemente para percebermos porque é que Ty Segall é só baterista); e o vocalista e baixista Chad Ubovich.

Quem gosta do bom e velhinho rock, e quem tolera um rock mais pujante, vitaminado e pesado (mas bom, não o dos Idles), tem aqui oito canções e 36 minutos para purgar demónios e zangas. Os riffs de guitarra são estupendos, o baixo é tocado como um baixo de um power trio de rock pesado deve ser tocado e Ty Segall é aquela voz que já reconhecemos a cantar e que torna isto mais aprazível a ouvidos, digamos, indie-rock. Quem já os viu ao vivo percebe a força dos Fuzz, mas em disco vale apena prestar atenção àquele que é o terceiro álbum da banda (depois de Fuzz, editado em 2013, e II, de 2015).


Haim – Women in Music Pt. III

Figurou em algumas listas de melhores do ano, o que, opina este que vos escreve, é capaz de ser um poucoquinho exagerado. Mas Women in Music Pt. III, o novo disco da banda familiar Haim — composta por três irmãs, a vocalista principal, guitarrista e baterista Danielle Haim, a baixista e vocalista Este Haim e guitarrista, teclista e vocalista Alana Haim —, não só é o melhor já gravado e editado pela banda, como é um disco que merece oportunidades e audições.

A fórmula de canção pop está apurada como nunca esteve e no campeonato das canções mais ou menos acessíveis, este será certamente um dos discos mais catchy e de bom gosto do ano. As canções são bem cantadas e o arranque do disco é excelente (“Los Angeles” é um óptimo tema de abertura e a seguinte “The Steps” também tem tudo certo. O foco perde-se um bocadinho daí em diante — se não se perdesse, este seria certamente um dos quatro ou cinco melhores discos de 2020 —, mas ainda assim, seja na variante mais eletrónica de “I Know Alone” ou “Another Try”, seja nas melosas (em bom) “Gasoline” e “Leaning On You”, o bom gosto das Haim nunca foge demasiado para o chinelo. Eis um bom manual do que a pop pode ser.


Hailu Mergia – Yene Mircha

Preparem-se para aterrar na Etiópia e no melhor que o ethio-jazz (o jazz da Etiópia) tem para oferecer com o novo disco de Hailu Mergia, que sendo maioritariamente instrumental também escapa mais facilmente à atenção mediática. Este jazz tem ritmos africanos, flirt com os ritmos da pop, do funk e do jazz-rock — e na dianteira, a imaginar tudo isto, está um veterano do funk-jazz que nos anos 70 foi estrela no seu país (na banda Walias Band), que se fartou do regime politicamente repressivo do país e que se mudou para os EUA.

A história podia ser a do sonho americano, mas nem por isso — Hailu Mergia começou por abrir um restaurante nos EUA mas foi sobretudo do trabalho como taxista que sobreviveu nos últimos largos anos. A internet, nomeadamente a editora Awesome Tapes From America, descobriu-o, relembrou o mundo de Hailu Mergia e desde aí o músico reeditou discos, editou o novo Lala Belu em 2018 e este ano saiu mais um: Yene Mircha.

Com um trio base formado por Hailu Mergia (teclados, acordeão, melodica, vozes), Kenneth Joseph (baterista) e Alemseged Kebede (baixo), a que se somam guitarras, trombones, saxofones e voz só aqui e ali garantidas por outros músicos, o disco assenta no groove, tem até uma pitada de reggae (oiça-se ali a meio de “Bayne Lay Yihedal”) mas nunca perde o bom gosto e a capacidade de transportar os ouvintes numa viagem cósmica até territórios distantes. É verdade que por vezes a monotonia ameaça instalar-se, mas a curta duração (34 minutos) permite evitar que isso se torne um problema que impeça o prazer da escuta.


Hamilton Leithauser – The Loves Of Your Life

Uma pessoa diz a alguém “o antigo vocalista dos The Walkmen tem um novo disco a solo” e é provável que do outro lado ninguém salte com entusiasmo, ansioso por ir ouvir o que sai daqui. Mas Hamilton Leithauser continua a ser um grande cantor, um tipo com uma pinta e uma classe (musicais, também) com pouco paralelo e que está num momento interessante da carreira. Claramente pouco importado com a necessidade de mostrar que é alguma coisa ao mundo, fez um disco livre e solto.

Há aqui algumas canções menores (nenhuma má) mas também há canções que nos dão vontade de reafirmar que este é um dos grandes tipos do pop-rock que interessa: “The Garbage Man” com Leithauser em modo crooner épico, “Til Your Ship Comes In” para danças desengonçadas (e o coro feminino tão bem), “The Other Half” e o seu classicismo da pop e do rock de outras eras. Quem o viu este ano a dar um daqueles concertos online percebe que Hamilton está feliz e a viver num mundo que não este em que andamos todos a viver. E isso sente-se no disco.


Irreversible Entanglements – Who Sent You?

Voltamos ao jazz politizado de que falávamos quando mencionávamos o álbum de Christian McBride. O rótulo do free-jazz pode assustar muita gente — até porque abrange, convenhamos, gente de talento muito diferente e que usa a liberdade e a improvisação de maneiras muito distintas, algumas muito boas, outras quase inaudíveis — mas quando serve ideias musicais bem trabalhadas e desenvolvidas por músicos dotados pode resultar em coisas destas.

Os Irreversible Entanglements são um coletivo norte-americano nascido num protesto contra a violência policial — alguns dos seus membros conheceram-se e tocaram juntos nesse momento — e podem ser resumidos numa fórmula: gente do jazz e do free-jazz que se alia a uma poeta, ativista e, digamos, agitadora incisiva chamada Moor Mother. O primeiro disco (homónimo e de 2017) era muito bom, este é igualmente bom. O que aqui temos é música-pancada, música que funciona como um soco no estômago, livre e libertária, com palavras duras mas necessárias (sobre o racismo, a desigualdade económica, o passado histórico e o presente mais aflitivo) que aliadas a um jazz cósmico e muitas vezes acelerado quer combater o mundo à pancada. Melhor de tudo: é tudo isto e é bem bom.


Jay Electronica – A Written Testemony

Por conseguir ficar ali a meio caminho entre o disco que os puristas do rap ainda gostavam de ouvir em 2020 e o disco que os miúdos do trap e das batidas mais modernas mais gostam, A Written Testemony figurou numa catrefada de listas de melhores discos de 2020 — logrando um consenso que poucos discos conseguiram no rap americano deste 2020, talvez à exceção de um (RTJ4) que por sinal até pode ser uma desilusão para quem esperava excelência dos Run the Jewels.

Por conseguir apelar a várias sensibilidades do hip-hop, mas também porque Jay Electronica é um tipo cheio de créditos e há muitos anos seguido mas que tardava em lançar um primeiro disco completo, A Written Testemony foi um sucesso. Acresce que este rapper de 44 anos juntou o amigo Jay-Z à comitiva, para participar no álbum transversalmente (quase de fio a pavio). É, ainda assim, a qualidade das batidas instrumentais e o jeito de Electronica para as rimas que torna este um belo disco de rap.


Jeff Parker – Suite For Max Brown

Um bom freak (nem que seja só musicalmente) que cresça em Chicago e goste de música conhecerá, certamente, o nome de Jeff Parker — ou pelo menos o das bandas de Chicago de que fez parte, os Isotope 217 e os Chicago Underground Trio na ponta final dos anos 90 e, desde os anos 90 até aos dias de hoje, os Tortoise, que tinham por lá sede.

Parker na verdade nasceu no estado de Connecticut, hoje já vive em Los Angeles mas foi naquela cidade do Illinois que se afirmou. Hoje tem 53 anos e, apesar de continuar a trabalhar com os Tortoise (ainda em 2016 saiu o disco The Catastrophist, pela editora Thrill Jockey), é com o seu nome que se tem mostrado mais produtivo nestes anos recentes, pese embora continue a chamar músicos para gravar consigo.

Este disco começa a prometer um tipo de música à Bruno Pernadas (a utilização da voz feminina na primeira canção lembra a forma como a utiliza o português também guitarrista, também ligado ao jazz mas igualmente com gosto eclético), mas não se deve esperar isso de todo o álbum. Entre uma espécie de R&B digital, drones e batidas eletrónicas, samples e beats de hip-hop, sopros funk-jazz e riffs rock, entre baixos, pianos elétricos, sintetizadores, saxofones, trompetes e violoncelos, compôs aqui um disco que é uma viagem cheia de ritmos (dos mais calmos e descontraídos aos acelerados) e peripécias. Maioritariamente instrumental, sem “singles” ou canções propriamente ditas, gravado por Parker e vários comparsas —um dos quais Makaya McCraven —, é mais um grande trabalho de um músico que não pode ser engavetado num só estilo mas que compõe e toca como poucos.


Jennifer Castle – Monarch Season

Esta recomendação é para fãs de cantoras e compositoras como Jessica Pratt ou, mais próxima ainda, Meg Baird — para não ir ao passado e à mais velhinha e britânica Anne Briggs. A referência britânica não será um acaso porque apesar de canadiana, esta Jennifer Castle viveu por uns tempos em Londres.

Entre guitarra acústica, harmónica, piano e voz, Jennifer Castle compõe, toca e canta uma folk com sabor ancestral, que parece retirada de velhos contos, melodias ou poemas. Mas na verdade, isto não é exatamente folk no sentido que uma Joan Baez, por exemplo, a faz: parece música de fada, encantatória, que convoca estranhos espíritos ancestrais e que se apropria de vários géneros baladeiros com uma sensibilidade e uma doçura ímpares. A voz, quebradiça e bonita, parece fazer desta uma espécie de música em suspenso, capaz de se desintegrar como uma bola de sabão. Canções como “NYC”, “I’ll Never Walk Alone” e “Monarch Season” são um espanto. Na última ouvimo-la cantar estas palavras e apetece viver no mundo encantado de Jennifer Castle:

I listen for joy and I listen for pain
I laboured all night for it
Laboured all day
And I birthed from the mouth of a cave
And I walked to the front of the stage
And on the stage I put out my new plays
I laboured all night for them
Laboured all day
And when the moon is crescent, I swing
And when the moon is half, I laugh at everything


Jenny Beth – To Love Is To Live

Figura proeminente do rock pelo seu trabalho nas Savages, banda apunkalhada e ruidosa que veio injetar algum nervo a um indie-rock demasiado pastelão e sensibilóide (a palavra não existe, mas vocês percebem), Jenny Beth estreou-se a solo em 2020 com um disco intitulado To Love Is To Live. Começamos no arranque a ouvir uma voz sobre uma camada instrumental misteriosa (parece a banda sonora de um filme de suspense, talvez até de terror) em “I Am”, tema em que Jenny Beth se agigantará depois, apropriando-se do espírito de Nick Cave para nos cantar como se fosse uma espécie de profeta musical.

O resto do disco, não sendo fenomenal, é bom e merece uma oportunidade que aqui não lhe concedemos: tem o nervo e a tensão que Jenny Beth explora nas Savages, mas desta vez sem a camada de tareia elétrica e rock and roll que lá lhe conhecemos. O que se ouve é antes uma espécie de pop eletrónica bem feita, com algum nervo, um tom misterioso e “cortante”, no bom sentido. O tom meio misterioso, meio místico-profético, talvez se explique por isto: Jenny Beth começou a decidir que haveria de fazer canções a solo, menos de banda rock/punk, quando ouviu o último álbum de David Bowie. A julgar pelo resultado, fez muito bem.


Jessie Ware – What’s Your Pleasure?

What’s Your Pleasure?, o novo disco da cantora e compositora, padece de uma daquelas complicações chatas: uma pessoa ouve a primeira canção, “Spotlight”, uma espécie de pop-disco com muito bom gosto, com os versos todos no sítio certo e os segredos da fórmula de uma boa canção catchy todos aplicados (até o refrão, aquele “if only I could leeeeet you go / if you only I could beeee alone”, a ginga dengosa e lânguida que vem a seguir…), e a partir daí das duas uma: ou o disco prossegue com canções do mesmo nível, o que seria muito difícil, ou tudo o que se segue vai saber a pouco.

Não é que o álbum seja mau — aliás se não fosse bom não o destacaríamos aqui — mas a primeira canção destaca-se de todas as outras, o que é um problema. Problema ainda maior? A segunda melhor canção vem logo a seguir, à segunda faixa. What’s Your Pleasure? é, ainda assim, um disco globalmente melhor do que os que Jessie Ware fez antes, o que já é dizer alguma coisa porque a classe esta cantora e artista britânica sempre teve. Se a pop eletrónica mainstream fosse assim, tão sexy e bem embrulhada, o mundo estaria bem melhor — não chega para mudar o mundo, mas chega para alegrar e inspirar muita noite bem passada. E más canções aqui, nem vê-las.


Jessy Lanza – All The Time

Continuamos a navegar as águas da pop eletrónica, agora ligeiramente — mas só ligeiramente — mais afastada da fórmula de canção pop tradicional. Num certo sentido, é uma eletro-pop um pouco mais brincalhona, mais marota, do que a de Jessie Ware, que é mais clássica. Mas isso garante a Jessy Lanza, produtora de batidas, compositora e cantora canadiana que editou em 2020 o seu terceiro álbum, um disco de pop eletrónia bastante original, com sons que às vezes parecem de alguém a pegar em instrumentos (físicos ou virtuais, por computador) que não domina e a moldar barulhinhos como plasticina, tipo sons de Nintendo. Só que depois chegam os refrões, ou o mais próximo que Jessy Lanza faz de refrões, e percebemos o que já percebíamos se estivéssemos atentos à sequência de ritmos da sua música: que a intenção, o domínio das batidas e da boa escrita eletrónica não lhe escapam.


João Barradas – Portrait

Do prodígio português de acordeão João Barradas, ainda habitualmente tratado como “jovem” mas já uma certeza do jazz e não apenas uma promessa, Portrait sucede a Directions, o primeiro disco que Barradas editara com o seu nome e como líder de uma formação. No ano em que lançara Directions, chegou-nos também Home – An End as New Beggining, disco de um outro projeto muito interessante do músico e compositor: a banda Home, com vários músicos portugueses da geração de Barradas.

Este Portrait é, porém, um salto nítido em frente, um álbum em que confirma os dotes de compositor e líder e já não apenas de intérprete. Para sua companhia, Barradas juntou uma comitiva de luxo nas gravações, aliando-se à vibrafonista Simon Moullier, ao baixista e contrabaixista Luca Alemanno e à baterista Naíma Acuña — mas também, em alguns temas, ao saxofonista norte-americano de renome Mark Turner. É jazz exemplarmente tocado, capaz de se esquivar ao cânone sem que por isso se perca em caminhos disruptivos. Note-se a beleza de “Common Good”, a energia elétrica de “AMFM” e a excelente “Episode XII (Drums Chant”). Este ano, João Barradas editou ainda o álbum gravado a só e ao vivo “Solo I (Live At Centro Cultural de Belém)”.


John Jeffrey – Passage

O nome de John Jeffrey não dirá nada a ninguém, mas a banda de que faz parte, como baterista, já é mais conhecida: os Moon Duo. Este ano, Jeffrey decidiu fazer um disco a solo que é uma viagem instrumental cósmica por vários ritmos. Pegando nas baquetas mas sobretudo dedicando-se mais ao sintetizador (e, já agora, também ao baixo, guitarra e vibrafone), Jeffrey compôs quatro peças instrumentais que vão da música ambiental a paisagens sonoras mais jazzísticas e ao psicadelismo eletrónico.

É um daqueles discos, livres, para colocar a tocar se o contexto for propício a embarcar-se numa viagem para outros mundos, um álbum em que o músico assume ter-se inspirado “nos princípios de espontaneidade, dinamismo, progressão e improvisação do jazz”, na “espiritualidade singular da Alice Coltrane” e em pinturas do canadiano Takao Tanabe. Por outras palavras: fritaria da boa.


José James – No Beggining No End 2

Cantor e compositor que ajudou a alavancar uma estética sonora, a que chamam neo-soul, antes da grande explosão de artistas e cantores que agora se assiste nessas ondas (de Mahalia a Jorja Smith, de Cleo Sol a Solange), José James lançou o seu primeiro álbum há 12 anos, na editora fundada pelo radialista e dinamizador musical Gilles Peterson (a Brownswood Recordings). Foi porém com a chegada à Blue Note Records, já nesta década, que se afirmou, com a edição do álbum No Beginning No End, em 2013.

Sete anos volvidos, José James editou uma espécie de sequela desse primeiro álbum na discográfica que o catapultou para o mundo (e que ajudou a afirmar outras vozes, como a de Emily King e a de Hindi Zahra). Neste novo disco, com convidados como Christian Scott aTunde Adjuah, Aloe Blacc, Laura Mvula e Hindi Zahra, a receita não é muito diferente do que lhe ouvíramos antes: uma mistura de vários géneros, da soul ao jazz, do rhythm and blues ao funk e à pop, sempre com groove. O açúcar das canções (melosas) às vezes pode soar excessivo, mas é um belo disco para se ouvir descontraidamente. Antes deste álbum, José James gravou alguns discos de interpretação e tributo a artistas como Bill Withers (Lean On Me, de 2018) e Billie Holiday (Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday, de 2015).


Jyoti – Mama, You Can Bet!

Jyoti é o nome artístico da cantora, compositora, multi-instrumentista e produtora musical norte-americana Georgia Anne Muldrow. Uma artista com uma carreira já longa, iniciada há 15 anos, que conta com passagens por editoras como a Stones Throw Records, a Mello Music Group e a Brainfeeder (fundada por Flying Lotus), com uma grande quantidade de álbuns lançados e com colaborações com Erykah Badu, Mos Def (que publicamente a posicionou como descendente de Nina Simone, Roberta Flack e Ella Fitzgerald), Akua Naru, Madlib, Robert Glasper e com os Blood Orange.

As credenciais são todas muito boas. Este novo álbum, dedicado à sua mãe, Rickie Byars (que tocou em projetos como Pharoah Sanders Ensemble, Sir Roland Hanna’s New York Jazz Quartet e Agape International Choir), foi colocada em muitas listas de melhores discos de jazz de 2020 — e até em listas de melhores discos do ano, não exclusivas a nenhum género. Percebe-se ao ouvi-lo: entre temas instrumentais e cantados, entre o jazz espacial, o funk, a soul, as baladas jazzísticas, os blues, as batidas mais hip-hop e o R&B, Mama, You Can Bet! é uma espécie de caldeirão freak bem bom, onde cabe tudo e mais alguma coisa, sem soar a mixórdia indecifrável.


Ka – Descendants of Cain

É um daqueles que está absolutamente farto das novas batidas trap do hip-hop, que já não consegue ouvir rappers com discursos redondos e palavras simples (sempre as mesmas?) sobre o que conquistaram, como deram a volta às dificuldades e como se puseram “a viver bem”? Por outro lado, também está farto do rap e hip-hop que soa exatamente como se tivesse sido feito nos anos 90?

Então tem aqui um disco para si: como sempre nos álbuns do rapper Ka (nome artístico de Kaseem Ryan), as batidas soam a tudo menos o que é padrão no hip-hop, criando sobretudo ambientes graves e escuros, crus, para as palavras e as histórias que discorre. A palavra — meio rappada meio falada, proferida naquele tom grave, em voz rouca — é mesmo o principal, como se percebe logo ao primeiro tema. Bíblia, racismo, violência, criminalidade, dores expurgadas: encontram referências a tudo.

For those concerned, I learned from jailbirds
Not from no failed curbs, over here the crack sales surged
Our engine bingin’ for years, black males purged
Want progress, now digest bullets, inhale words
On this earth, brave known to earn (gravestone to urn)


Kassa Overall – I Think I’m Good

Da já mencionada editora do radialista e curador musical Gilles Peterson, a Brownswood Recordings, chegou em 2020 mais um belo disco: I Think I’m Good, feito pelo “músico de jazz, MC, cantor, produtor e baterista” (assim é descrito na biografia presente no seu site oficial) Kassa Overall, um “produto da cena jazz da cidade de Nova Iorque”.

As batidas eletrónicas, a toada jazzística, o funk-rap pejado a sintetizadores, as rimas rap mais puras, tudo está presente neste belíssimo álbum, o segundo de Kassa Overall (o primeiro foi editado no ano passado). Também aqui a mistura de géneros resulta num caldeirão difícil de descrever, exploratório, mas profundamente melódico e agradável ao ouvido. Kassa Overall acha que é bom e tem razão — é mesmo muito bom. A capacidade de cada canção conter, aliás, diferentes ritmos e estéticas lembra-nos o que Tristany fez em Portugal, sendo que aqui a inspiração de mistura passa mais pelos géneros da música negra americana.


Kelly Lee Owens – Inner Song

Inner Song, o novo disco da cantora e produtora galesa de música eletrónica Kelly Lee Owens, não é um disco tão impactante como o seu disco de estreia — homónimo e editado em 2017. Porém, é mais um passo seguro dado por uma artista tão capaz de envolver o ouvinte tanto em assumida batida eletrónica de discoteca de bom gosto (oiçam “Melt!”) como numa pop eletrónica sonhadora, espacial (oiça-se “L.I.N.E.”). Este segundo disco de Kelly Lee Owens espraia-se por vários modos, da dream-pop eletrónica a algumas (menos) batidas para quando a noite já virou madrugada fora de horas, e ainda lhe soma um extra: a presença de John Cale, que participa no tema “Corner Of My Sky”. Como o anterior, vale muito a pena descobrir.


Kevin Morby – Sundowner

Primeiro as más notícias: Sundowner ainda não é o disco portentoso que se pressente que Kevin Morby pode fazer desde que começou a fazer a sua música a solo, desde que se mostrou escritor de canções de verso apurado e melodia americana sofisticada, desde que se revelou cantor com uma voz já reconhecível. Sundowner, o sexto álbum de estúdio de originais de Kevin Morby a solo, não é sequer o seu melhor (esse é o belíssimo e tristíssimo Singing Saw, o terceiro, de 2016) mas é mais um disco seu, o que equivale a dizer: é mais um bom disco, de bom gosto. E mais um disco com algumas canções de meia cheia, de alguém que cada vez mais se inscreve na história dos novos grandes cançonetistas americanos.

Oiça-se a triste e baladeira “Sundowner”, de alguém à procura de um amor que não encontra (“see I like a crowd but I don’t know how / to keep one / surrounding me). Oiça-se “Campfire”, espécie de duas canções em uma, talvez o melhor tema do disco; oiça-se a amorosa “Don’t Underestimate Midwest Sun” e o fim perfeito de “Provisions” (o dedilhado de guitarra, a mesma nota hipnótica e constante, e a voz de Morby como um profeta das canções). Pena que noutros temas tente inventar a roda — e saia ligeiramente chamuscado, nunca muito, o suficiente para o disco ser um dos melhores do ano mas não ser um álbum à altura do seu talento musical e da sua inteligência. Depois de dois discos editados em anos consecutivos, talvez valha a pena agora aguardar mais um pouco, respirar, deixar a vida respirar e inspirar mais canções com mais tempo.


Letrux – Letrux Aos Prantos

Letrux é o nome artístico de Letícia Novaes — e foi com ele que Letícia editou em 2017 um álbum intitulado Letrux Em Noite de Climão, um dos dos melhores discos da música brasileira nos anos recentes. Este ano, sem que se desse muito por isso em Portugal, Letrux apostou numa fórmula sonora com algumas semelhanças, escreveu letras novas (canta sobretudo em português, mas com brincadeiras com outras línguas, como o espanhol e o inglês) e editou mais um óptimo álbum, também este de synth-pop e pop eletrónica sensual e sexualizada, livre de amarras e de pruridos castradores.

Canções como a inaugural “Déjà-Vu Frenesi”, “Dorme Com Essa”, “Fora de Foda” (com participação de Lovefoxxx, que ficou conhecida como vocalista da banda Cansei de Ser Sexy) e “Cuidado, Paixão” (esta a terminar com um coro e uma percussão que só no Brasil poderiam existir) e “Sente o Drama” (com participação de Liniker) são muito boas, mas todo o disco é muitíssimo recomendável. As melodias e harmonias são ótimas, os teclados (em grande evidência), a bateria, as guitarras e o baixo são muito bem tocados e tudo junto forma um conjunto de belíssimas e desempoeiradas canções, de uma artista maior destes tempos — e não apenas da música brasileira.


Lomelda – Hannah

O disco começa como se estivéssemos a ouvir alguém a tentar fazer uma canção, como se estivéssemos a ouvir um esboço de canção, a voz ainda meio trémula, meio balbuciante, sem ter a certeza absoluta como se vai expressar. Depois percebemos que esse traço de aparente ingenuidade, artesanal, é na verdade o ângulo muito próprio e original com que Lomelda aborda as canções. E ao longo do disco será assim: tantas vezes parece-nos que um polimento maior tornaria a canção mais arredondada, mais bem-comportada e perfeitinha, mas lhe tiraria o encanto rústico. Oiça-se o final de “Sing For Stranger”, por exemplo: barulhos de televisão com a antena a falhar, uma distorção que poderíamos ouvir numa rádio fajuta e amadora com interferência.

Hannah é o quarto álbum de estúdio e originais da norte-americana Hannah Read, uma guitarrista, cantora e compositora nascida no Texas, que tem algumas semelhanças na originalidade e procura de alguma “estranheza” no formato tradicional da pop e da folk que ouvimos também em Tenci (igualmente incluída neste artigo). É um daqueles discos para pôr de tocar ao fim de tarde ou noite, ou em momentos tristes ou em momentos tão felizes que só pedem alguém a cantar baixinho, quase magicamente, criando uma espécie de caminha sonora para um ambiente profundamente íntimo em que estamos envoltos.


Magic Markers – 2020

Quem não os conhecer e começar a ouvir o arranque do disco pensará que isto é uma espécie de indie-pop drogada, movida a calmantes, mas relaxada, vulnerável, “íntima”, à Beach House. E de repente as teclas chegam ao espaço, a guitarra elétrica com distorção entra em modo jam desvairada qb e ficamos conquistados logo à primeira faixa. Magic Markers é uma banda que integra a editora Drag City, o que é logo um bom sinal, e que até já existe há quase 20 anos. Já foi inclusivamente maior, mas um dos seus membros, Leah Quimby, decidiu deixar-se de música para se dedicar a ser ventríloqua. O que aqui ouvimos neste disco, o primeiro dos Magic Markers em dez anos, é noise-rock, rock espacial, com bocados cantados, outros bocados instrumentais. É música de freaks bons, de gente que reclama do jazz a liberdade que quer aplicar às guitarras e baterias rockeiras.


Moor Mother – Circuit City

O disco começa com jazz espacial, nervoso, tenso, espiritual. E assim há-de prosseguir por mais de um minuto. Como se Moor Mother (ou, como diz o cartão de cidadão, Camae Ayewa, afroamericana) estivesse à procura de uma transcendência cósmica, que a libertasse do mundo terreno, antes de declarar, naquele seu se estilo de spoken word artist e declamadora de poesia ativista: “It’s been so much drama… I don’t even know where to start… Like I don’t even know what year”.

Até aqui, era no grupo Irreversible Entanglements que mais apreciava o trabalho de Moor Mother — não pela força das suas palavras, duras, explícitas como uma ferida aberta, com referências ao racismo, à história americana (e à história da escravatura americana), à violência histórica dos EUA, aos traumas por sarar; mas pela música, mais free-jazz libertário do que industrial (como se ouvia mais no seu trabalho a solo). Em Circuit City, Moor Mother combina espantosamente os dois universos: há produção eletrónica cósmica, alucinada, mas há também jazz libertário e libertador, enquanto da sua garganta vão continuando a sair histórias, apontamentos e frases que expõem a chaga de tantos problemas sociais da América e do mundo. Além deste disco e do álbum com os Irreversible Entanglements, Moor Mother editou ainda em 2020 Brass, um disco feito com billy woods.


Nas – King’s Disease

Quem também regressou aos discos em 2020 foi o rapper Nas, depois de um álbum em 2018 produzido por Kanye West mas que pela curta duração e por alguma falta de inspiração não convenceu inteiramente (apesar de incluir um grande tema, “Copos Shot The Kid”). Neste disco, o autor do mítico Illmatic recorre a outros compositores de batidas instrumentais, tem um grande single (“Ultra Black”) e volta a mostrar o grande poder das suas rimas. Se o impacto do disco não foi maior talvez seja em parte também porque Illmatic elevou a fasquia brutalmente (demasiado?). Mas é, claro, um belo disco de hip-hop.


Nídia – Não Fales Nela Que a Mentes

Nídia voltou aos discos em 2020. Depois de um álbum em 2018 que a catapultou internacionalmente — Nídia É Má, Nídia É Fudida foi até eleito um dos melhores discos de música eletrónica do ano pela revista norte-americana Rolling Stone —, a produtora e DJ da Príncipe Discos mantém a batida a ferver em Não Fales Nela Que a Mentes. Alguém resiste a este “tarraxo do ghetto”?


Perfume Genius – Set My Heart On Fire Immediately

Há uma tendência que pode ser aborrecida para o leitor, em muito do que se escreve sobre música: dizer que o novo álbum de determinado músico ou banda é o seu melhor, ou o melhor desde o álbum X ou Y que já tinha feito há uma catrefada de anos. Já a personagem Barney Stinson dizia na série “How I Met Your Mother” que “new is always better”: o apreço pelo presente e a valorização do presente pode fazer esquecer os méritos do que se ouviu há muito e entretanto se esqueceu. Dito isto, e estou perfeitamente a par da ironia do que escrevo: a impressão que tenho do que lhe ouvi anteriormente é que Set My Heart On Fire Immediatly é o mais conseguido dos cinco discos que o norte-americano de ascendência grega Michael Alden Hadreas já editou com este nome artístico.

Michael Alden Haldreas já mostrara ser capaz de escrever grandes canções, pop inovadora e de enorme qualidade, mas havia uma aura de inconsistência entre as produções que nos fazia adorar determinadas cantigas e encolher os ombros perante outras. Este novo álbum merece a oportunidade de quem não lhe liga muito: esta pop às vezes sinfónica e com cordas opulentas, às vezes pesada como um trovão, às vezes brincalhona trazendo sons novos e difíceis de detetar, às vezes luminosa, às vezes tão pacificada e misteriosamente apaziguada que nos acalma como Xanax, mostra-se com uma qualidade consistente da primeira à última canção. Isto apesar de cantigas como “Your Body Changes Everythijng”, “On The Floor” e “Describe” se destacarem como canções que figuram entre as melhores de 2020.


Pink Siifu & Fly Anakin – FlySiifu’s

É mais um dos excelentes discos de hip-hop de ano, este por sinal bastante original — mais até do que outros, de hip-hop mais clássico ou mais sintonizado com as tendências modernas. Juntando o rapper Fly Anakin ao rapper e explorador futurista Pink Siifu, FlySiifu’s é um disco conceptual na medida em que imagina uma loja de discos geridas por estes dois rapagões, que vão recebendo voice mails de clientes insatisfeitos entre as canções.

O que mais impressiona é mesmo a inventividade da música e dos instrumentais que aqui ouvimos — mais lo-fi, às vezes jazzísticas, outras vezes difíceis de classificar, quase sempre nada redondos e óbvios. Batidas muitas vezes relaxantes como morfina, a que, desconfiamos, a maioria dos rappers iria torcer o nariz por não lhes parecer adequadas a rimar por cima. Ouvindo temas como “Suitcase Special”, “Runthafade” e “Mind Right” (com Liv.e como convidado) só podemos ficar satisfeitos por o hip-hop ainda ser veículo de abordagens novas à música e à arte da rima.


Ron Miles – Rainbow Sign

Não é smooth jazz, avisamos já para evitar que as pedras comecem a atingir-nos vindas de melómanos furiosos, mas Rainbown Sign — o novo disco do cornetista norte-americano Ron Miles — é um disco que preza e muito a melodia, em que as notas tocadas procuram mais a quietude e a beleza pacífica do que a confusão. Embora tenha, claro, momentos mais enérgicos e acelerados, para a monotonia não se instalar, é um jazz mais melódico e clássico (e já agora, muito importante: bem tocado) do que vanguardista ou especialmente exploratório.

O tom do disco, o primeiro gravado por Ron Miles, de 57 anos, para a editora Blue Note Records — em quinteto tal como no álbum anterior, I Am a Man, de 2017 — talvez possa também ser explicado pelo que aconteceu em redor de Ron Miles enquanto o compunha e gravava, na companhia de uma comitiva de luxo: o pianista Jason Moran, o guitarrista Bill Frisell, o contrabaixista Thomas Morgan e o baterista Brian Blade. No momento em que trabalhava neste Rainbown Sign, que Bill Frisell mostrou à Blue Note levando-o até à editora, Ron Miles tratava do pai, gravemente doente e à beira da morte (acabou por morrer). O disco é aliás apresentado como “tanto uma dedicação amorosa como um documento espiritual fascinante que assinala musicalmente uma jornada da Terra até à paz eterna”. Com quietude, espiritualidade e paz.


Sault – Untitled (Black Is)

“A revolução chegou”, ouvimos em coro no início de Untitled (Black Is), um dos dois discos editados este ano pela misteriosa (anónima) banda britânica Sault, Untitled (Black Is). Os dois álbuns complementam-se entre si, a ponto de ser duvidoso se devemos escolher apenas um ou falar de algum individualmente, sem mencionar o “parceiro”. Mas se os dois discos são duas faces (diferentes, mas duas faces) de uma mesma moeda, este é talvez o mais apurado nas suas fórmulas e o que contém melhores canções. É um disco que mistura muita coisa, gospel, soul, hip-hop, breaks, batidas de dança eletrónicas, ritmos afrofuturistas… mas é sobretudo um disco comunitário, de grandes canções, bem cantadas, que se inspiram nas diferentes tradições estéticas da música negra para intervir, protestar, posicionar-se como tradução das ânsias, frustrações, revoltas e união resultantes da morte de afroamericanos às mãos da polícia, do racismo e do movimento Black Lives Matter.


Shabaka and the Ancestors – We Are Sent Here By History

Cresceu entre Londres e Barbados, pelo talento no saxofone passou a ser chamado de “Rei Shabaka” (King Shabaka) e nos Sons of Kemet e The Comet Is Coming já tinha dado provas do seu mais do que evidente valor. Agora, com o projeto Shabaka and The Ancestors, editou este disco, um álbum espiritual, cheio de tensão, um jazz com alguns traços esquizóides que às vezes se aproximam do funk, outras do psicadelismo, outra da música tribal e ancestral.  Um bom disco, para sintetizar, que apesar das qualidades no seu todo se destaca mais pelos solos de Shabaka no saxofone.


Silvia Pérez Cruz – Farsa (género imposible)

Ouvir Silvia Pérez Cruz, já se sabe de antemão, será sempre ouvir algumas coisas: uma grandíssima voz, uma delicadeza e entrega emocional às canções, uma intimidade no arranjo mas também uma procura de um terreno musical novo, onde a voz tem peso fundamental mas que não se esgota na voz. Este ano, a cantora e compositora espanhola lançou Farsa (género imposible), um disco que gravou em casa durante o confinamento, uma série de temas — trabalhados há muito — ora inspirados por outras disciplinas artísticas, como o teatro e a ópera, ora feitos para integrar peças ou trabalhos de outras artes. É mais um belíssimo disco de uma cantora que não os sabe fazer mal. E há canções absolutamente devastadoras, como “Todas Las Madres Del Mundo”, de uma contenção admirável.


Sun Ra Arkestra – Swirling

Um disco novo de Sun Ra Arkestra é coisa para pararmos de imediato o que estamos a fazer. O nome da formação que acompanhou o grande Sun Ra e o que foi liderada por este em vida é mítico, o projeto continuou depois da morte do pianista, teclista e grande inovador de experimentalismo jazzístico e em 2020 lançou este álbum Swirling. É o primeiro álbum em 20 anos e nas gravações participaram 15 músicos, quatro dos quais saxofonistas (incluindo o gigante e veteraníssimo Marshall Allen) — sendo que dois também tocam flauta — dois trompetistas, um trombonista, um painista, um guitarrista, um baterista, um percussionista, um violinista… enfim, a lista é interminável. Este jazz continua a soar ao futuro, a música de outro planeta, mas Sun Ra certamente ficaria orgulhoso de um disco tão original e cósmico quanto este Swirling.


Swamp Dogg – Sorry You Couldn’t Make It

Sorry You Couldn’t Make It não entrou nas listas de melhores discos do ano nem teve muita gente, nem sequer melómanos e ouvintes de música alternativa, a prestar-lhe grande atenção, por três motivos: pouca gente conhece o nome “Swamp Dogg”, portanto o autor do disco; não é um disco pop e de singles, com canções avassaladoras; e o álbum saiu a.C., antes da Covid-19, acabando engolido pelo desenrolar do ano. Seria uma pena, porém, que o álbum não tivesse os ouvintes devidos.

Swamp Dogg é na verdade Jerry Williams Jr., um cantor de soul e rhythm and blues de 78 anos nascido no estado da Virgínia que anda a editar singles desde os anos 60 e a editar álbuns desde o início dos 70’s. Acontece que Jerry Williams Jr., conhecedor dos blues e da soul e do rock sulista, até teve como primeiro género musical mais ouvido o country, apesar de country e negros não ser uma combinação habitual nos anos 40 ou 50. Em Nashville, gravou este álbum apoiado por 14 músicos, entre teclistas, guitarristas e alguns dos convidados do disco, como Justin Vernon (Bon Iver) e John Prine, que morreu depois da edição do álbum mas que ainda empresta a voz a dois temas, “Memories” e “Please Let Me Go Round Again”. Todo o disco é excelente, na senda do country-soul e do country-blues. Cantando sobre o amor e os desamores que teve, a importância da humanidade e da comunidade, a morte e as derrotas dos blues e da vida, Swamp Dogg fez um grande disco. Quando fez o disco dizia: “Estou ansioso porque peguei em todo o meu dinheiro e coloquei-o num só cavalo. Mas acredito neste cavalo”. Fez bem e merecia ter o retorno, porque é um grande cantor e porque tem aqui canções de uma classe imensa, que só poderiam ter sido feitas por um veterano, tal a serenidade — às vezes aparentemente triste, noutras resignada, noutras ainda pacificada — do tom das cantigas.


Tenci – My Heart Is An Open Field

“O meu coração é um campo aberto”. Chegado o final do ano, deparei-me com uma sugestão musical do cantor e compositor Kevin Morby. Nas redes sociais, Morby alertava para este álbum, dizendo que My Heart Is An Open Field era um dos seus discos favoritos de 2020. Depois de o ouvir é fácil perceber porquê: não sendo um disco de folk tradicional, um disco tradicional de intimidade e vulnerabilidade — tendem a ser álbuns com fórmulas musicais mais previsível, mais ancorados na voz e guitarra acústica —, o que aqui temos é uma rapariga a cantar como quem resmunga e como quem uiva, enquanto a toada instrumental vai fazendo a cama da voz mas vai também procurando vários pontos de fuga, de escape, às melodias mais simples.

Em muitos momentos, como se percebe logo no final de “Earthquake”, só com a bateria a ouvir-se, parece um disco que quer criar um estado de dormência qualquer. Mas uma dormência original: ouvem-se por aqui guitarras, baixo e bateria, claro, mas também violoncelo, xilofone, sintetizadores, pianos, pedal steel, saxofone e flauta. É um disco verdadeiramente original, verdadeiramente inebriante, de uma rapariga chamada Jess Shoman que se mostra assim no seu disco de estreia. E é um disco que prova que de facto há qualquer coisa de agradavelmente esquizóide, de ângulo que subverte as fórmulas de género, na forma como se aborda a música em Chicago. As águas, por aqueles lados, hão-de ter alguma coisa de alucinogénio, certamente.


Tony Allen e Hugh Masekela – Rejoice

Quando foi editado, a 20 de março, um dos autores de Rejoice — Hugh Masekela — tinha morrido já fazia dois anos; e o outro, Tony Allen, morreria passado pouco mais de um mês. Talvez por isso seja ainda mais importante prestar atenção ao disco, pelo fim que simboliza de dois instrumentistas e músicos de grande talento. Apesar de ter saído em 2020, as primeiras gravações de temas decorreram há muito, em 2010, quando o baterista nigeriano do afrobeat Tony Allen e o trompetista sul-africano Hugh Masekela encontraram-se em Londres estando ambos em digressão. Depois da morte de Masekela, o álbum foi finalizado por Tony Allen em 2019.

Com um funk-jazz pejado de groove, com ritmos africanos de quem os conhece bem, fundindo o jazz e o afrobeat, Rejoice incorpora ainda contributos de músicos de uma geração mais jovem (Joe Armon-Jones, dos Ezra Collective, toca teclados; Clashi, dos Kokoroko, e Steven Williamson também participam, entre outros). É um álbum de grupo, com dois grandes instrumentistas na liderança, que nos mostra o melhor do jazz com aromas sul-africanos e nigerianos e que ainda homenageia diretamente Fela Kuti e o seu legado (“Lagos never gonna be the same / never / without Fela”). Um disco impossível de pôr a tocar e não ficar maravilhado.


U. S. Girls – Heavy Light

Heavy Light, o disco editado em 2020 por Meghan Remy — que na música edita os seus discos com um nome no plural, US Girls —, teve impacto suficiente para figurar em várias listas de melhores álbuns do ano. E é, realmente, um belo álbum de canções pop experimental, ou alternativa, se quisermos, com coros e segundas vozes meio esquizóides, um ambiente que tanto é festivo (mais vezes) como tenso e belo na sua contenção (oiça-se “IOU”), que parece um disco de banda. É, nitidamente, um disco no qual Remy investiu tempo para que soasse coerente, bom do início ao fim, sem singles retumbantes mas sem grandes oscilações, que vai sempre bem. Até quando a canção parece uma canção confessional, íntima, Remy subverte-a, traz barulhos e sons novos, como se estivesse a trabalhar com instrumentos ligeiramente desafinados mas que na verdade lhe permitem levar sempre a canção para terreno novo (e aprazível) para o ouvinte.


Will Butler – Generations

Normalmente é do outro irmão Butler que mais se fala, mas — se for sacrilégio, falta de gosto ou de atenção, peço já desculpa — a solo tendo a preferir as canções de Will Butler às da voz principal dos Arcade Fire. Não que Will Butler seja um grande cantor, não o é, é aliás a sua principal lacuna. Mas as canções de pop eletrónica que compôs para este disco, Generations ,revelam um cantor mediano mas um escritor de canções muito dotado, capaz de fazer um disco com qualidade do início ao fim, sem grandes gorduras, com boas canções que em alguns casos chegam mesmo a ser excelentes (“Close My Eyes”). Usando a energia dos Arcade Fire — faz o bamzé todo, grita que nem um desalmado, faz a festa e apanha as cantas—, conjuga-a com momentos mais contidos, doseia-a nos níveis certos para fazer boas cantigas e cria um universo próprio a solo.


Yves Tumor – Heaven To a Tortured Mind

Partir das margens, rebentar com elas e aproximar-se da pop como dinamite: eis o que fez o norte-americano Yves Tumor em 2020. O cantor, compositor, performer e artista visual, que parecia destinado às pequenas salas e pequenos festivais do mundo pelo traço exploratório da sua pop, lançou este ano um álbum repleto de canções que tornam impossível ignorá-lo.

O disco, Heaven To a Tortured Mind, revela abordagem subversiva e própria de Yves Tumor à música pop. O que aqui está é um disco de canções pop, efetivamente — mas canções pop que não abdicam de alguns traços esquizóides, de barulhos só seus, aqui e ali de uma crueza e distorção roufenhas, de energia e “malignidade” e excentricidade. Temas como “Gospel For a New Century” (com que o disco começa) e “Kerosene!” são avassaladores. Esta pop em alguns momentos ruidosa, elétrica, roqueira, desvairada, não perde nunca as estribeiras e não deixa nunca de ser apelativa ao ouvido. E soa sempre, sempre original.


Menções honrosas: “Wabi Sabi” (Sven Wunder), “By The Fire” (Thurston Moore), “Breathe Deep” (Oscar Jerome), “Palo Alto” (Thelonious Monk), “Strange To Explain” (Woods), “Surdina” (Tó Trips), “Fall To Pieces” (Tricky), “Ultimate Success Today” (Protomartyr), “To Know Without Knowing” (Mulatu Astatke), “Innocent Country 2” (Quelle Chris, Chris Keys), “Long Lost Solace Find” (Mike Polizze), “The Discipline of Assent” (Martin Rude & Jakob Skott Duo), “Artlessly Falling” (Mary Halvorson’s Code Girl), “Rastilho” (Kiko Dinucci)

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