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mema. em entrevista: A música como cura para os momentos escuros

Numa conversa muitíssimo agradável, em que tudo foi tema de conversa, com referências desde o metal sinfónico à agricultura, mema. abriu as portas desta Cidade de Sal ao Altamont para dar a conhecer melhor todas as camadas que constituem este “filho pródigo” e o resultado não podia ser mais interessante.

É com o EP de estreia, Cidade de Sal que Sofia Marques se apresentou sob o nome artístico de mema.. Este trabalho está povoado da narrativa pessoal de Sofia e imbuído de todo o universo  criativo da artista, compositora e produtora mema.. É composto por seis temas e é um regresso às origens da produtora, nascida em Aveiro e criada em Ílhavo.  As saudades que mema., ora em Berlim, ora em Dublin, sentiu do ninho como lhe chama e das suas raízes portuguesas fizeram-na procurar refúgio nessas mesmas sonoridades  do nosso “Portugal mais português” profundo, afastado da urbe e dos seus elementos cosmopolitas. Não é então de estranhar que todas as músicas sejam cantadas em português ou que as sonoridades que compõem este EP  provenham de instrumentos tradicionais, entre eles o adufe, a flauta, a guitarra portuguesa e até a gaita de foles, que são os culpados pela invasão sensorial que se sente ao escutar estas canções. Este EP, Cidade de Sal, nasce da fusão entre a música eletrónica, pop, e folk.

Trata-se de um trabalho fresquinho, lançado apenas em Outubro, que transpira novidade e modernidade e que nos permite mergulhar nas raízes e até na própria identidade portuguesa, mas sempre de olhos postos no futuro, já que nesta Cidade de Sal existe uma ponte entre o revivalismo e a modernidade, onde a música folk e eletrónica andam de mãos entrelaçadas. Embora este EP esteja repleto de temas densos que destacam sentimentos de confusão, melancolia e até de perda, Cidade de Sal pretende ser bússola e luz nos momentos mais negros, para que o sal sare todas as ferias e o tão desejado Norte seja alcançado.

Altamont: Quando é que este teu novo trabalho começou a ganhar forma? 

mema.: O conceito começou a surgir no final de 2018, estava eu ainda em Dublin. Comecei a sentir alguma vontade de voltar a Portugal, a sentir necessidade até de redescobrir as minhas raízes e então fiz uma pesquisa sobre música tradicional nessa altura. Eu queria procurar coisas além do fado, porque o fado é um género que todos já conhecemos e que é famosíssimo a nível mundial, então queria ir buscar aquelas peculiaridades da música tradicional portuguesa que não são tão faladas. Procurei especificamente na minha região, eu sou de Aveiro, então procurei ali na zona das beiras, não só beira litoral mas também beira alta e beira baixa e descobri coisas muito interessantes. Foram horas e horas de pesquisas no youtube a ouvir grupos folclóricos, também viajei um bocadinho para o Minho a ouvir grupos de pauliteiros entre outras coisas e foi aí que o conceito todo da Cidade de Sal começou a tomar forma. Comecei a experimentar algumas sonoridades, até só com a guitarra e foi daí que surgiram as melodias que deram início aos dois temas que lancei primeiro, “O Devedor” e “Perdi o Norte”.

Começaste por ter uma formação musical clássica, passando pelo conservatório, tanto a nível do domínio da guitarra como de domínio vocal. Achas que o facto de teres tido esta formação mais “clássica” influencia a artista que és hoje? Acabaste por seguir um caminho diferente do que é proposto nos moldes de formação de conservatório, já que  desconstróis e fazes convergir diferentes estilos…

Eu sinto que influenciou, de facto, a forma como eu faço música, porque se calhar tenho alguma facilidade principalmente com harmonias ou em perceber o que funciona ou não a nível melódico e a nível harmónico. E além de ter tido essa formação clássica também ouvi muita música já de fusão entre música clássica e outros géneros. Eu ouvi muito metal sinfónico, e foi muito por essa altura mais por influência talvez mais do meu irmão que é todo metaleiro que comecei a ouvir esses géneros, mas fundiram bem, essa parte sinfónica, Mas sim, eu sinto que influenciou a minha música e até alguns arranjos acabam por ser mais sinfónicos aqui e ali. Claro que como a música que eu quero fazer neste momento é prioritariamente eletrónica pop, esses elementos sinfónicos não estão tão presentes quanto poderiam estar, mas sim, tem uma influência. Eu acho que toda a formação que nós temos mesmo de forma pouco consciente acaba por nos moldar e por nos levar a caminhos que de outra forma não nos levaria ou leva-nos a fazer as coisas de uma forma diferente.

Como é que passamos da Sofia que ouvia metal sinfónico para a mema. com esta sonoridade tão distinta e própria?

Eu criei a minha banda, uma espécie de metal entre o sinfónico e o melódico, eu era a vocalista e fazia a composição toda e tudo o mais e depois chamei alguns amigos. Aliás, eu acho que esta brincadeira começou porque eu mostrei essas músicas que tinha feito em casa a um amigo e ele disse “Ah temos de fazer uma banda” e chamou mais duas pessoas e entretanto o meu irmão também se juntou, mas foi durante um curto espaço de tempo. Foi muito natural, até para aí os meus doze, treze anos ouvi pop, mesmo pop daquele que todas e todos ouvimos, temos de admitir. Eu era super fã de Britney Spears e Shakira, era mesmo muito fã. Depois alguém me mostrou, acho que na altura foi Within Temptation, ainda nos tempos em que eles faziam uma espécie de Doom Metal, uma coisa mesmo gótica. Depois mostraram-me um álbum deles – Mother Earth –  com muitos sons da natureza e que acabava por ter alguma folk, por assim dizer. E a partir daí fui ouvindo outras coisas, “Epica”, “Lacuna Coil”, mas também nunca saí muito desse metal melódico. Mais ou menos aos quinze comecei a experimentar fazer coisas eletrónicas, porque tinha comprado um teclado workstation, o Roland Fantom X7, e comecei a experimentar, fazer algumas coisas lá, porque eu também ouvia muito Depeche Mode e esse tipo de sonoridades já a puxar para o eletrónico. Para mim Depeche Mode é um bocado entre o rock e o eletrónico, tem ali um sentimento sempre muito melancólico. Mesmo dentro da pop que eu ouço é sempre tudo muito melancólico. E pronto, foi tudo uma cadência assim natural, depois comecei a ouvir Bjork e a entrar no mundo de Fever Ray, muitas coisas nórdicas por acaso, Lykke Li também. E depois quanto à questão do folk, eu desde pequena que ouvia lá em casa Madredeus ou coisas do género, a minha mãe também cantava ou ouvia fado de vez em quando, houve sempre ali uma mescla de coisas. Em casa sempre tivemos um pouco esses instrumentos tradicionais, o adufe, por exemplo, com que toquei nos primeiros concertos, tinha acabado de fazer 4 ou 5, não tenho a certeza. Então só a presença dessas coisas lá em casa já influencia alguma coisa, por exemplo quando comecei a fazer este trabalho foi muito a experimentar o adufe que estava lá em casa e até gaitas de foles temos lá em casa, daquelas pequeninas que se compravam nas feiras, olha lá está, no Minho acho eu.

E como ou quando é que se deu a metamorfose até à mema. que temos hoje? Foi em Berlim, foi em Dublin, foi tudo isso?

Foi um amadurecimento desde o meu alter-ego antigo, até o chegar aqui, foi definitivamente o amadurecer com os anos e com as experiências. Quando deixei Portugal deixei com o sentido de abandonar a música por completo, porque eu tive um ano ou dois a tentar trabalhar em música e desiludi-me um pouco com a indústria de forma geral e acho que eu própria não estava pronta para fazer o que estou a fazer agora.  Quando fui para Berlim acabei por voltar a cair na música quase por acidente e depois em Dublin também. Todas essas experiências de vida, conhecer outras pessoas, até o contacto com outros produtores que tive muito em Berlim e com géneros musicais lá está mais aliados à eletrónica, mais aliados a coisas mais experimentais e depois mais tarde em Dublin uma coisa completamente diferente, muito mais música de banda, no sentido de guitarra, bateria, baixo, voz, esse tipo de dinâmica, “singer-songwriter” e muito mais virado para o rock e para o folk. Eu acho que todas essas experiências e tudo aquilo que já vinha de trás acabou por resultar na mema., por resultar neste projeto. Se calhar olhando para trás pega um bocadinho nesses elementos todos, pega nos elementos mais eletrónicos que absorvi em Berlim, pega em elementos um pouco mais tradicionais que, apesar de tudo, estavam muito presentes na cultura irlandesa, em elementos tradicionais da minha própria cultura e essa exploração de sonoridades, mesmo o procurar esses instrumentos, como o adufe a flauta, entre outros, sim acabam por culminar na mema.. Resumindo foi o culminar dessas experiências todas que deu neste projeto e eu acredito que mema. – isto é estranho falar de mim na terceira pessoa – (risos) ainda vai sofrer outras transformações. Aliás, neste último ano e meio, sinto que a minha sonoridade já evoluiu noutra direção, apesar de ter lançado o EP agora, este trabalho já está a marinar desde o ano passado e fui lançando as coisas aos poucos e já há outros temas que estão a ser construídos que já vêm com uma estética um pouco diferente, talvez com mais maturidade também na produção musical e tudo isso que vem com o tempo, com a experiência e com o fazer.

Falaste agora dos elementos mais tradicionais como parte da cultura musical irlandesa… O nome que me surge é imediatamente The Pogues, uma banda da década de 80 que misturava muito o folk com outros géneros como o rock e até o punk. A tua estadia por terras irlandesas bebeu destes tradicionalismos locais também?

Dublin inteira respira folk, aliás uma das atrações turísticas é exatamente essa, quando entras em Temple Bar há uma data de sítios onde estão a tocar música tradicional irlandesa, às vezes só com guitarra e voz outras vezes também com a flauta irlandesa. Eu penso que não foi isso que inspirou a 100% a minha música, mas consigo perceber que se notem algumas semelhanças, porque por exemplo quando fiz a minha pesquisa, a música do Minho, por exemplo, tem uma influência gaélica muito grande e há muitas semelhanças até no tipo de instrumentos, o facto de utilizarmos, por exemplo, a gaita de foles em algumas zonas do minho é muito semelhante se calhar à gaita de foles da Escócia. Na Irlanda, por acaso, não se usa tanto a gaita de foles, também se usa, mas não tanto. Mas mesmo o tipo de melodias, a forma como as escalas estão construídas são muito semelhantes àquelas do folk celta. Há algumas semelhanças, não creio que estas músicas que expus agora tenham sido influenciadas diretamente pelo folk irlandês, mas há semelhanças acredito entre o folk irlandês porque lá está o povo celta esteve também muito predominante no Norte de Portugal e essa herança cultural sente-se.

Agora viajando para o teu lado  eletrónico…Que influência é que o coletivo de produtores “Strenght in Numbers” que integraste em Berlim teve em ti enquanto pessoa e a artista? Foi em Berlim que chegaste ao nome mema. certo?

Acima de tudo foi aprendizagem. Éramos um coletivo de produtores muito virado para a ideia de terminar trabalho e de aprendermos uns com os outros. Nós reuníamos todas as semanas, todos os sábados à tarde, num sítio por acaso muito interessante, uma espécie de co-work de artistas que era o “noise fabrik”, que, infelizmente por causa de questões de aumentos de renda desproporcionais, como está a acontecer em todas as capitais europeias, fechou. Mas era um espaço muito interessante e juntávamo-nos e tínhamos desafios todas as semanas. Tínhamos de fazer beats de um minuto com muitas limitações, por exemplo imagina que tínhamos um sample de um trompete, só podíamos usar esse sample para construir o beat todo num minuto. Todas as semanas havia restrições diferentes, havia desafios diferentes, mas era sempre em torno disso. E o facto de termos essas limitações todas força-nos a ser o mais criativos possível com o pouco que temos e penso que isso foi a aprendizagem mais importante para mim nesse processo todo. Além disso, o facto de estar exposta a tantas sonoridades diferentes, porque nós não éramos necessariamente um coletivo de eletrónica, mas, por acaso, e acho que pela natureza da cidade de Berlim, fazíamos quase todos eletrónica. Uns mais eletrónica pop, outros, por exemplo, tinha um colega que fazia mais uma espécie de pop soul, ele é australiano, tem um projeto bastante interessante, que já abriu para Tory Amos e grandes nomes lá na Austrália, tínhamos outros que eram puramente psy trance, nada a ver, outros eram industrial, outros eram experimental, outros eram lo-fi hip hop, então havia sempre essa dinâmica. És exposta a tantos géneros diferentes e observas a forma como tantas pessoas trabalham e de forma tão diferente, porque nós, por vezes, fazíamos colaborações também e permitia-nos ver como é que  um e outro trabalha, com que ferramentas… Tudo isso foi muito importante para me dar por um lado mais confiança para produzir por mim, porque eu antes não me considerava propriamente produtora, e deu-me também perspetiva acerca daquilo que eu poderia fazer com essas ferramentas. Foi essencialmente importante por isso. O nome surgiu porque nós lançávamos playlists no soundcloud todas as semanas com estes beats que criávamos e eu não tinha nome na altura, então surgiu a mema. e acabei por ficar com ele.

Já referiste a tua pausa na música… Esse afastamento temporário ajudou-te a olhar para as coisas sob uma nova perspetiva?

É uma boa pergunta e eu acho que sim, completamente. Foi importante para limpar tudo aquilo que tinha na minha cabeça, foi importante afastar-me da música e fazer outras coisas até para perceber que eu não podia fazer outras coisas sem ser música e a nível da estética do meu trabalho também foi muito importante eu ter parado e refletido “Ok, o que é que eu quero mesmo fazer ?”.E esse querer fazer acabou por ser muito natural… Eu não cheguei um dia à frente do computador ou à frente de um instrumento e disse “olha vou fazer eletrónica pop com folk”, foi ali uma coisa quase natural que surgiu a partir desses interesses todos e dessas experiências todas. Mas sim, foi importante esse distanciamento, e quebrar com o meu projeto anterior era algo que eu precisava mesmo de fazer.

Tencionas que este toque revivalista das raízes portuguesas continue a estar presente nos teus trabalhos? Queres que essa seja uma marca do teu estilo?

Eu acho que sem querer acabou por ser. Surgiu, mas para o conceito deste primeiro EP aí foi pensado, decididamente de voltar às raízes, então queria que isso estivesse patente não apenas na parte das letras, mas queria que estivesse também patente na parte estética, na sonoridade, daí ter usado alguns elementos tradicionais. Eu acho que é algo que ainda vai estar comigo durante algum tempo porque há outras coisas que eu não consegui explorar neste trabalho e que quero explorar. Por exemplo gostava muito e comecei a experimentar há pouco tempo utilizar o cavaquinho de forma diferente, quero também trabalhar melhor a parte da percussão, por exemplo os adufes estão presentes em algumas músicas do EP, mas de forma muito dissimulada, e quero aproveitar melhor a capacidade do adufe. Aliás, adquiri um adufe há pouco tempo de um artesão que está neste momento nos Açores, o Rui Silva, e tenho andado a praticar e a experimentar coisas diferentes, e às vezes gravo e é interessante, é algo que eu gosto muito de explorar. É essencialmente isso, eu acho que ainda vou utilizar, embora vá sendo uma evolução e quem sabe daqui a três anos se calhar já nem esteja tão presente na minha música. Acho que nós como artistas também temos de evoluir, não só pelo público, mas também por nós próprios porque nós mudamos e eu falo por mim, e o ano passado não era a pessoa que sou agora e acho que tem de haver essa liberdade na criação, porque de outra forma, na minha perspetiva, restringirmo-nos a um género só ou limitarmo-nos a algo fixo como “ah a minha música tem de ter aquele som” acaba por me deixar frustrada e encurralada, e eu sou uma pessoa que precisa de voar.

Este EP parece ter um “estado de espírito” bem demarcado e depois uma música que talvez fuja um pouco a  este registo…Isto é, em todas as músicas, à excepção da “Outro Lado” temos sentimentos de confusão, lá está uma procura desse tal “Norte”, para alcançar uma espécie de libertação/catarse. Já n’ “Outro Lado” temos uma sonoridade ou até uma aura mais intimista e até sedutora. Isto foi intencional? Ou não tendo sido, também sentes isso dos temas deste EP?

Eu penso que esse sentimento foi muito o resultado de como eu me sentia na altura, como te disse o EP começou a formar-se no final de 2018 e eu estava a entrar numa espiral depressiva, numa espiral de frustração, sentia-me num buraco, basicamente. Daí, também ter sentido a necessidade de voltar ao ninho, de voltar a casa, que é onde me sinto mais estável. E a partir daí foquei-me em fazer o EP, e fi-lo, religiosamente. Sentei-me todos os dias para trabalhar nele até para aí Março ou Abril e penso que esse sentimento de confusão de frustração que está no disco tem muito a ver com isso com o que eu senti na altura. O “Outro Lado” talvez possa fugir um pouco, mas no meio da escuridão às vezes há rasgos de luz por assim dizer, e eu penso que sempre vivi muito na minha cabeça entre esta dicotomia claro-escuro quase como o Barroco, sempre ali na escuridão mas com uns rasgos de luz. É muito essa imagem que tenho. E aliás, é irónico o sentimento todo ser tão denso e escuro por assim dizer e ter intitulado este trabalho de “Cidade de Sal” porque é quase uma ode à minha cidade ao mesmo tempo. Existe toda aquela confusão, mas tudo isso vai dar ali…

És cantora, compositora e produtora. Foste os três neste “Cidade de Sal” certo? Já admitiste ter um especial interesse pela produção… Neste EP essa preferência manteve-se?

Sim, foi muito pela produção, porque antes disso não tinha feito nenhum trabalho como produtora e foi um trabalho interessante, foi muita experimentação, foi muito aventurar-me e levar isso a sério, essencialmente. E praticar, ir fazendo porcaria, ir fazendo lixo, pôr coisas de lado e escolher aquilo que eu queria fazer. Mas sim, foi a produção, acertaste.

Foi esse lado de produtora a marinar que te permitiu ter a disciplina necessária para concluir este trabalho?

Sim, mas por acaso eu acho que mesmo enquanto músicos e compositores, acho que tens de ter essa disciplina para o fazer bem. Porque mesmo a composição pode ser uma coisa inspirada, e todos temos os nossos momentos de mais ou menos inspiração, e por acaso li um livro interessante sobre isso, mas se não praticares o hábito de compores ou o hábito de praticares o teu instrumento então a possibilidade de seres excelente nessas áreas vai ser menor, porque estás a deixar muito à sorte, em vez de conseguires controlar parte dessa equação. Por acaso li esse livro que te disse há pouco, que é o “The Creative Habit” que fala exatamente disso, a autora é uma coreógrafa super conhecida, muito popular nos Estados Unidos, e neste livro ela tem uma data de exercícios práticos que podem ajudar a fomentar esse hábito de criar todos os dias. E isso esteve muito presente nessa altura. Eu já li o livro há muitos anos, mas de facto é verdade, quando assumes o compromisso contigo mesma, é como ir para o trabalho, quando assumes o compromisso de estar às 9h no escritório, então sabes que ali é para trabalhar. Foi um pouco essa dinâmica que eu tentei ter e para mim funcionou bem.

A estética dos videoclipes, tanto de’ “O Devedor” como de “Perdi o Norte”, está bastante cativante. Este impacto visual tem também um papel central neste projeto que é a mema.?

Eu acho que vai a par uma coisa com a outra. Gosto muito de imagem, da ideia de contar histórias através da imagem. E sim, quando planeei os videoclipes a minha ideia era ser o mais cinematográfico possível. Começando pelo “Devedor” queria uma coisa mais abstrata porque o próprio tema é mais abstrato, e aliás, foi um amigo meu, o Zim que realizou o video e também é um amigo meu que está a dançar, o Nélson e acabou por se compor tudo de forma muito bonita. Gravámos em Arouca, num cenário incrível e sim, foi uma peça central, essa imagem forte e acho que até é um instrumento de promoção muito eficaz, se tens um bom videoclipe acaba por ser falado não é? É claro que eu quero que falem sobre a música, mas se falarem sobre a arte em geral, então já estou contente com isso. O “Perdi o Norte” já foi algo mais ambicioso, talvez porque trabalhei com outras pessoas e a visão dessas pessoas complementou a minha, de uma forma muito livre. Quem realizou foi o Gonçalo Loureiro que é cineasta e ele juntou a sua equipa, o Ramon Freitas e também o Braga Ferreira. Começámos logo a trocar ideias e referências, foi um processo muito intenso e interessante. Nós gravámos aquilo em dois dias e meio de filmagens, muito intenso, porque a timeline é muito recortada do início ao fim e para mim foi uma ideia brilhante porque eles quiseram transmitir a emoção da canção através do próprio ritmo da música então cada batimento é uma imagem diferente e para isso tivemos de fazer e de recolher muitas imagens, e acabou por resultar muito bem. Foi muito stressante para mim na altura, mas desafiou-me tanto mesmo a nível de acting, que é uma coisa com a qual eu não tenho qualquer experiência, mas o Gonçalo puxou muito por mim nesse sentido e estou mesmo muito feliz com o resultado e acho que as pessoas sentiram isso também. Acho que a própria canção ganhou uma nova esfera e uma nova dimensão através do videoclipe.

Sei que em Outubro apresentaste a tua “Cidade de Sal” em Praga. Como foi essa experiência e como é que achas que as pessoas lá fora têm recebido este trabalho?

Olha foi muito positivo, por acaso. O contexto não foi o melhor porque eles estavam prestes a entrar em estado de emergência e em confinamento e o concerto foi dois ou três dias antes disso acontecer, mas mesmo assim estava bastante gente. Aquilo era um festival lusófono, logo muitas das pessoas falavam português embora fossem checas, mas senti que receberam a música muito bem. Até tive pessoas que já me tinham começado a seguir antes, porque isto foi através do Instituto Camões e em Maio já tinha feito um livestream para a página de facebook deles e tive algumas pessoas checas que me começaram a seguir nessa altura e que na altura em que o concerto foi anunciado me disseram que iam estar lá e que estavam entusiasmadas. Eu acho que a receção tem sido muito boa lá fora, aliás, muitas pessoas também dos sítios onde estive também me deram feedback muito positivo. Vim a descobrir que havia concursos tipo “Euro Song Contests”, em que as pessoas votam numa canção, e, por exemplo, a “Perdi o Norte” ficou em primeiro num desses concursos na Polónia. Eu acho que há uma abertura muito grande a este tipo de sonoridades, principalmente hoje que há uma sede por voltar a essas identidades culturais de cada país. Por isso é que, por exemplo, Rosalía tem funcionado tão bem e a música latina está outra vez na berra, porque eu acho que nos cansámos todos de ouvir música igual em todo o lado e acho que andamos todos sedentos outra vez por este tipo de sonoridades mais únicas.

Como foi para ti ser artista, num ano marcado por tudo o que é atípico e inesperado? E com o final deste 2020 caótico a aproximar-se, quais são as previsões para 2021? Já há datas em vista?

Este ano já encerrou, de certa forma, a nível de atuações. Ia ter algumas datas em Dezembro, mas foram canceladas por causa da pandemia e do risco. E como sou uma artista independente e ainda de pequena dimensão acabo por ser um risco maior para promotores e é natural.

Como é ser artista na pandemia?

Como o segundo single foi lançado em março, quando tudo fechou, confesso que fiquei muito ansiosa, porque aquilo era o meu bébé, o meu single favorito e que achava que ia rebentar, fiquei muito ansiosa. Por acaso, resultou e acho que por causa da temática do próprio single que coincide quase com o período em que todos entrámos naquela altura. De resto é muito frustrante não poder dar concertos. Havia oportunidades para pequenos artistas nem que fosse um festival independente ou coisas do género para os artistas exporem o seu trabalho, e eu sinto que nesse aspeto perdi um bocado terreno, por assim dizer, porque não tive essas oportunidades, no entanto tem sido positivo apesar de tudo, sabes? Tenho tido muita gente a seguir o meu trabalho, a escutar, pessoas entusiasmadas com o que vem a seguir. E eu acho que isso de certa forma nos vai alimentando, não é a única coisa que nos alimenta, mas tem ajudado a perceber que este pode não ser um trabalho para as massas, mas estes que me estão a ouvir agora gostam genuinamente do meu trabalho e isso é algo positivo, se calhar estou a fazer alguma coisa bem. Em relação ao próximo ano, tenho alguns concertos que estão a ser marcados, mas ainda não os posso anunciar. O próximo ano ainda está muito em aberto. Estão a marcar datas já  para Abril e Outubro, só para veres como estão as coisas, porque o primeiro trimestre está praticamente fechado em todo o lado, já que houve muitos adiamentos deste trimestre já para 2021. Mas vamos ver, eu estou expectante, tenho também alguns trabalhos planeados para o próximo ano, quero lançar outro EP e, eventualmente, também um álbum e há outras coisas que ainda não posso anunciar, em janeiro saberão!

Tens colaborado com :papercutz nos concertos deste ano na apresentação do “King Ruiner” e o teu nome foi também mencionado várias vezes na entrevista do Altamont ao Bruno Miguel… Como foi para ti colaborar com a banda? Também vês nas colaborações uma oportunidade para dignificar e divulgar a música portuguesa?

Eu acho isso muito importante e eu fiquei muito contente quando o Bruno me abordou para fazer alguns concertos com :papercutz porque já conhecia o trabalho deles há muitos anos, tentei ser vocalista deles quando tinha 16 anos, então foi assim uma coincidência grande. O Bruno produz muito bem, é um visionário e uma pessoa que não baixa os braços, por muito difíceis que as circunstâncias sejam, e eu tenho muita admiração por :papercutz e acho que a ideia que ele tem de juntar pessoas para fazer estes espectáculos é um pouco a ideia de ajudarmo-nos uns aos outros, levantarmo-nos uns aos outros, acho que é muito positivo. Convidou-me a mim, convidou a META, penso que também já tem convidado outras pessoas, aliás o concerto no CCB foi com outros músicos também, os Throes and the Shine e Octa Push. E acho isso essencial, aliás, eu neste momento estou também a trabalhar em algumas colaborações com produtores de cá, e não posso falar sobre isso ainda, mas estou muito expectante acerca disso. São experiências incríveis porque conheces pessoas, aprendes montes de coisas com elas e eu espero que também aprendam comigo e que eu tenha algo a acrescentar e acho que é uma forma de elevar a música portuguesa e a indústria portuguesa, porque durante muito tempo sinto que foi uma indústria muito fechada em que era cada um por si e sinto que cada vez mais há um espírito de entreajuda e de comunidade e isso é extremamente importante. Porque a arte por muito que faças sozinho tem sempre algo a ganhar com a arte dos outros também.

Seguindo a tua deixa das colaborações… Com que artistas nacionais gostavas de trabalhar?

Há duas pessoas que eu já referi há uns tempos na minha entrevista com o Rimas e Batidas, um deles é o Pedro Mafama, porque gosto muito do trabalho dele e acho que há um cruzamento muito grande entre as nossas estéticas e que poderia ser interessante juntar. Scúru Fitchádu é um artista com quem seria interessante porque tem um estilo tão diferente do meu, por isso penso que poderia ser engraçado trabalhar com ele. E são esses os dois grandes nomes que me surgem.

E lá fora? Rosalía, ou alguns daqueles artistas de que já falámos?

Até não, olha que até não, porque eu acho que ia ficar muito apagada ao lado dela, acho que nem conseguia (risos). Arca é alguém com quem eu gostava muito de trabalhar, há também um produtor galego de que eu gosto muito e que já ouço há muitos anos, tem um projeto chamado Baiuca, gostava muito de trabalhar com ele. Faz uma eletrónica, ele é que faz mesmo eletro-folk, é muito assumido, ele pega em samples de vozes galegas e coisas do género, é muito giro o projeto.

Bjork seria algo incrível, sei lá, eu também estou a pensar em pessoas com que a minha estética não choque muito, porque por muito que goste por exemplo de Lykke Li não nos vejo a fazer uma colaboração. Então é mais este tipo de quase produtores-songwriters ou produtores-artistas. A Bjork seria incrível, mesmo. Bem, uma pessoa pode sonhar não é?

Pegando no tema “O Devedor” sentes-te mesmo uma devedora da terra? Este dever à terra é também um “dever” de homenagem às tuas origens?

Sim, de alguma forma sim. Por acaso essa canção começou inspirada por um tema de cante alentejano que começa também da mesma forma “Eu sou devedor à terra”. E claro que no Alentejo há muito essa ideia do Devedor à terra, por causa da agricultura que há anos atrás era o ganha pão, não é? E eu achei interessante esse conceito, peguei nele e transformei-o nesta canção também. Eu sinto que sim, o sítio onde cresci, embora me tenha afastado e ainda que em alguns aspetos não me identifique a 100% com o sítio onde cresci, ao mesmo tempo eu não seria quem sou sem esse sítio, sem essas influências, sem o crescer ao pé do mar… Até por causa do próprio contexto familiar, conhecer algumas coisas, e agora ia e agricultura, mas eu na verdade não sei muito sobre agricultura (risos), mas mesmo assim eu noto quando falo com pessoas de lisboa que há coisas que eles não têm noção e que eu tenho e pronto há ali uma diferença. Mas sim, eu acho que sou devedora nesse sentido, no sentido de ser grata. É nesse sentido de sentir gratidão pelo sítio que me criou, porque o sítio onde vivemos mais tempo é o sítio que nos molda mais tempo também, pelas experiências que viveste, pela própria forma de ser das pessoas daquela região, pelas coisas à tua volta, tudo. Tudo isso te influencia e acabas por te identificar com alguns elementos, porque esses elementos tornaram-se um pouco parte de ti.

Como é que projetas a mema. no futuro e qual é a principal mensagem que queres transmitir com esta “Cidade de Sal”?

A primeira é uma questão difícil de responder. A título pessoal, tenho o grande objetivo de melhorar muito nível de produção, de haver uma maturação também desses aspectos. Tenho uma grande ambição de tocar fora de portas, porque eu não acredito nessa coisa que as pessoas dizem de teres de cantar em inglês para ter uma carreira europeia ou internacional. Eu quero chegar a esse patamar, sinto que ainda não estou lá, mas quero chegar lá. Claro que vai ser muito difícil, porque mesmo a nível nacional temos poucos mecanismos que apoiam a exportação, mas esse é um objetivo, sem dúvida. Imagino este projeto mesmo além portas, e entretanto é crescer e acima de tudo manter-me fiel àquilo que eu sou e que gosto de fazer, porque há sempre aquele risco de para crescer sair um bocado daquilo que nós gostamos e cedermos e eu queria mesmo por tudo não fazer isso. Ser fiel no sentido em que se eu gosto de algo que fiz então que esteja cá fora, ser obrigada a fazer por exemplo uma música mais assim ou mais assado não me vejo a fazer isso. Vejo o projeto a ser livre e quando tiver que acabar, acaba. Quanto à mensagem, eu acho que essencialmente é que há uma luz ao fundo do túnel, apesar da confusão toda que o meu EP demonstra. Acho que acima de tudo, o que quero transmitir com este trabalho, é exatamente isso, que há uma luz ao fundo do túnel que vamos sempre ter estes períodos negros na nossa vida, mas há sempre um sítio onde podes repousar, a tua “Cidade de Sal”, por assim dizer. Se calhar, por isso é que fecho o EP exatamente com esse tema, “Sal”, que é quase uma ode à minha cidade ou à minha região. Porque é isso, o Sal é uma cura, uma salva, tem esse efeito. E eu queria que este EP produzisse esse mesmo efeito, que fosse quase uma salva para esses momentos escuros que ele próprio descreve.

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