Ao quarto disco, os Beach Boys tentam fazer um disco temático, todo ele com referências a motores, mas o resultado final sabe a pouco. Little Deuce Coupe é vítima da pressão exercida em Brian Wilson pela sua editora e pai.
A premissa era boa: músicas sobre carros, conectando a crescente cultura jovem com os “Hot Rods” americanos mais as miúdas e os drive-ins. O problema? Os Beach Boys não tinham arcaboiço para tudo isto, tendo em conta que mais pareciam meninos bem comportados do que teenagers cheios de brilhantina e testosterona para dar e vender, no entanto, a Capitol Records e, provavelmente o pai tirano, Murry Wilson, exigia (mais) um disco a Brian Wilson, o terceiro (!!!) de 1963.
Para desenjoar de tantas ondas e maresias, Brian Wilson e o seu gangue vão para as estradas e criam o suposto primeiro disco conceptual do rock ‘n roll. Um álbum que tem como capa um Ford Coupe de 1932 (carinhosamente chamado de deuce coupe) e prometia ser uma ode à cultura automobilística Hot Rod, no entanto, quatro destas canções já tinham sido incluídas noutros discos (a faixa título – “Little Deuce Coupe”, “409”, “Shut Down” e a mais desconhecida “Our Car Club”), o que acaba por tornar o álbum menos interessante.
Felizmente, nem tudo são pontos negativos: “Ballad of Ole’ Betsy” é uma bonita canção de amor a um automóvel, sobre a sua vida passada, os seus antigos “amantes” e a sua vida actual com o seu novo proprietário. “Be True To Your School”, single extraído de Little Deuce Coupe, ” encapsula em pouco mais de dois minutos toda a cultura juvenil estudantil californiana da época: o colégio, o sol, o mar, os carros, o futebol americano e as miúdas. Uma canção bem ao jeito gingão de Mike Love, com os restantes Beach Boys nas belíssimas harmonias. Apesar de ser uma bela canção, “Be True To Your School” não era propriamente uma canção sobre carros, o que voltava a evidenciar que o disco tinha sido feito algo à pressa para ser lançado ainda nesse ano de 1963. “Car Crazy Cutie” tem uma história interessante sobre uma rapariga que foge aos moldes da época. Esta além de bem aparentada, também mete as mãos debaixo do capot e suja-se de óleo – “o sonho de qualquer amante de Hot Rod”.
O disco acaba com três canções, que poucos recordarão, mas que têm grandes harmonias: “No-Go Showboat”, “A Young Man Is Gone” e “Custom Machine”.
O álbum marca a despedida de David Marks, cansado da pressão do sempre omnipresente Murry Wilson. Al Jardine voltaria para ocupar o seu lugar de origem, nunca mais o largando.
Little Deuce Coupe foi lançado apenas três semanas após Surfer Girl e o resultado é notório. Há uma visível perda de qualidade na composição que é compensada pelas faixas mais conhecidas. No entanto, 1964 estava já aí à porta com mais discos de grande qualidade prontos a sair. O bólide de Hawthorne não poderia parar, o qual resultaria numa grande viagem mas com grandes percalços futuros, especialmente para Brian Wilson.