Lançado em setembro de 1963, Surfer Girl, terceiro longa-duração da banda, marcou o momento em que os Beach Boys começaram a querer deixar de ser apenas “aqueles miúdos das harmonias sobre surf”, e começaram a mostrar ambições artísticas mais sérias.
A América ainda vivia a febre do surf californiano, dos carros rápidos e do optimismo pré-British Invasion, e o grupo funcionava quase como uma boys band: cabelo impecável, imagem cuidadosamente vendida e fãs histéricas. A diferença é que, em vez de TikToks coreografados dos tempos modernos, eles respondiam com harmonias vocais tão apertadas que faziam parecer que os atuais grupos pop usam Wi-Fi fraco entre vozes (já para não falar em autotune).
Surfer Girl foi o primeiro disco produzido inteiramente por Brian Wilson, e isso sente-se logo na faixa-título, “Surfer Girl”. A canção é delicada, melancólica e muito mais sofisticada do que a sua imagem solarenga sugeria. Brian pega numa simples balada romântica e transforma-a num pequeno exercício de emoção adolescente, elevada a arte pop. Já aqui se nota o génio melódico que mais tarde explodiria em Pet Sounds.
Eram definitivamente outros tempos – nesse ano de 1963 a banda lançou três discos, no que era prática comum no mercado. Mas quantas músicas se podem fazer sobre surf, chegará sempre uma altura que não há mais nada a dizer sobre tipos que se põem em pé em pranchas, pelo que o varão da família teve de começar a virar-se para outros lados.
Em “In My Room”, talvez a grande jóia escondida do álbum, surge um lado íntimo raríssimo no pop da época, já que a música abandona praias e pranchas para falar de ansiedade, refúgio e solidão, temas profundamente pessoais para Brian Wilson. Décadas antes de artistas atuais transformarem vulnerabilidade em marca estética, ele já escrevia sobre saúde mental com uma honestidade desarmante.
Mesmo as faixas mais leves, como “Little Deuce Coupe” (que depois apareceu novamente no álbum seguinte, desta feita com o protagonismo de nome do mesmo) ou “Catch a Wave”, revelam uma obsessão com arranjos vocais e estruturas harmónicas pouco comuns para música juvenil. Surfer Girl é, no fundo, um disco de transição: ainda cheio de sol e areia, mas já com sombras emocionais a entrar pela porta. E nessas sombras começava lentamente a nascer um dos maiores génios da pop do século XX.