A obra-prima dos Beach Boys. Pet Sounds marca a despedida das praias e verões infinitos, dos carros desportivos e das miúdas dos drive-ins, abrindo caminho para a melancolia da vida adulta e do experimentalismo. Brian Wilson nunca mais seria o mesmo e nós também não.
Há muitas pessoas que ficaram paradas no som clássico californiano dos Beach Boys, achando que o seu som contém apenas e só hit singles como “Barbara-An”, “Surfin’ USA” ou outras músicas teen do início dos anos sessenta, no entanto, ouvir Beach Boys sem conhecer, ou melhor, sem experienciar Pet Sounds, é viver na ignorância e perder a possibilidade de ouvir um dos melhores discos da história da música moderna.
Pet Sounds é a melhor resposta do outro lado do Atlântico ao fenómeno Beatlemania que arrasava os anos 60 de uma maneira inequívoca. Na altura, o quarteto de Liverpool tinha lançado Rubber Soul, o primeiro disco mais experimental dos ingleses, iniciando-se aí uma bonita competição entre Brian Wilson e Paul McCartney, que levou ao aparecimento de álbuns como este Pet Sounds e Smile (só editado em 2004 por Brian Wilson), por parte dos Beach Boys e Revolver e Sgt Pepper’s por parte dos Beatles.
Factos históricos à parte, Pet Sounds é, de facto, delicioso. Aqui vemos os Beach Boys realmente no seu expoente. Os habituais coros e as vozes bem trabalhadas são misturadas com uma panóplia de instrumentos e arranjos tão diversificados que dificultaram a banda quando partiu para a estrada para o tocar ao vivo, já sem Brian Wilson, embrenhado em criar a próxima obra de arte, Smile.
Os Beach Boys eram, provavelmente, uma das bandas menos prováveis a criar uma revolução na Música. O seu som característico da Califórnia (praias, carros desportivos e miúdas) não faziam, à superfície, antever que lançassem um disco tão magnífico e revolucionário como Pet Sounds, no entanto, os sinais já se viam aqui e ali. Brian Wilson, desde cedo começou a tratar o estúdio como uma peça instrumental em vez de ser apenas um lugar onde se gravavam canções. Ali, Wilson começou a produzir os seus próprios discos e a experimentar com sons e harmonias – o primeiro passo estava dado. Uma das suas maiores influências, Phil Spector, era um mago do estúdio e, através da sua Wall of Sound, produziu êxitos atrás de êxitos, alguns tão adorados por Brian Wilson (“Be My Baby”) que o “obrigaram” a escrever uma das suas melhores canções – “Don’t Worry Baby”.
No final de 1964, Brian Wilson, na sequência de um esgotamento, praticamente parou de tocar ao vivo com a banda, sendo substituído nas suas funções por Bruce Johnston, o que permitiu ao génio de Hawthorne dedicar-se a tempo inteiro à criação e trabalho de estúdio. Esse tempo extra já se começou a sentir em Today!, especialmente em “Please Let Me Wonder”, “When I Grow Up (To Be A Man), “Kiss Me Baby” e em “In The Back of My Mind”, onde a utilização de outro tipo de instrumentos e maturidade das letras já antecipava o que viria dois anos mais tarde. Até em Summer Days, que retrocedeu nos temas, voltando à primeira ideia californiana, tem uma produção muito mais cuidada e diversificada nos êxitos “Help Me Rhonda” ou “California Girls”. Já o disco “falsa” Party! continha um conceito inovador: a banda e os seus amigos e familiares a tocarem e a conversarem como se estivessem numa festa caseira.
A génese para Pet Sounds começou logo após o seu disco anterior, Party!, com Brian Wilson embrenhado em estúdio, enquanto os restantes membros da banda iam para a estrada. Wilson, com a ajuda de Tony Asher e da banda de estúdio Wrecking Crew começou a criar sons e temas que casariam num disco.
Enquanto a restante banda fazia-se à estrada para pagar despesas, Brian começava a trabalhar em “Sloop John B”, uma canção tradicional das Bahamas que teve algumas versões nos 50.
O tempo e método utilizado por Wilson na produção nesta música diferia do que a banda estava habituada. Brian era, nesta altura, um produtor, maestro e orientador e o restantes membros só tinham de fazer o seu papel, pouco contribuindo para o desfecho final.
Como foi anteriormente referido, pela primeira vez, houve uma banda de estúdio que, orientado por Brian Wilson, foi gravando todos os seus desejos musicais, com um virtuosismo que Carl, Dennis, Al e Mike Love não conseguiriam. Estes estavam lá apenas para acrescentar as suas vozes.
Isto foi bastante estranho e, digamos, algo frustrante para o resto da banda que estava em tourné e quando chegou à Califórnia deparou-se com um modelo de trabalho e, sobretudo, um som completamente diferente do que estavam habituados.
Ao contrário do mito que se criou, os restantes membros da banda não odiaram Pet Sounds. Mike Love foi, segundo ele, erradamente acusado de dizer: “Don’t fuck with the formula”, no entanto, todos eles estavam minimamente preocupados com a potencial alienação do seu público e exaustos com a demanda das sessões de gravação quando vieram da estrada.
Após longos e extenuantes dias em estúdio, Pet Sounds é lançado a 16 de Maio e não é um êxito absoluto nos EUA. Talvez previsivelmente, o seu público fiel ficou algo alienado pelo som inovador e falta de histórias de surf, carros e miúdas. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, os miúdos ingleses, mais habituados a tempos mais depressivos, acolheram esta nova fase mais madura, de exploração e experimentação muito mais abertamente e Pet Sounds vendeu como pãezinhos quentes.
Só anos mais tarde o mundo todo começou a aceitar que o génio de Brian Wilson tinha criado uma obra-prima que rivalizaria com qualquer disco pop.
O álbum abre com “Wouldn’t It Be Nice” e só essa música seria suficiente para aguentar este disco. O casamento entre a “wall of sound” de Brian Wilson, cheio de camadas de sons e harmonias, contrabalançando com as letras mais melancólicas já lançavam o mote para o resto do disco.
A abrir o lado B, “God Only Knows”, talvez a canção mais bonita da história, escrita propositadamente para a voz celestial de Carl Wilson. Aliás, é em Pet Sounds que Carl começa a despertar para um lugar mais central na banda, situação que teve mesmo de assumir, após a iminente alienação de Brian Wilson.
“Good Vibrations”, concebido durante as sessões de Pet Sounds, acabou por não ficar pronta a tempo, acabando por sair apenas em single, em data posterior, sendo englobado do disco seguinte, Smiley Smile.
Hoje em dia, Pet Sounds é visto como um dos pináculos da Música. Uma obra-prima. Um dos grandes legados deste álbum foi a quebra de barreiras na música comercial. No que faz uma canção popular. A independência artística não impossibilita a vertente comercial. No entanto, aquando do seu lançamento, foi responsável pelo início do declínio da banda, tanto internamente, devido ao aumento da crispação entre Brian Wilson e Mike Love, como de perda de público, alienado por este novo som, mais maduro e experimentalista. Uma nova era começaria para os Beach Boys, menos comercial mais muito mais criativa e interessante.
Senhor Fred …
Não havia necessidade, depois desta grande ideia de criar um blog sobre música, vir comentar um disco dos Beach….ehhh… qualquer coisa!!!!
Vamos continuar, o Blog tem potencialidade mas, vamos analizar coisas boazzzzzzz eh! eh! eh!