Após anos à deriva, Brian Wilson recompõe-se momentaneamente para escrever e produzir um disco inteiro na sua banda de uma vida. Love You é um regresso à forma de uma banda que estava lentamente a desaparecer do interesse público.
Os anos 70 do século XX não foram fáceis para Brian Wilson. Pet Sounds e, sobretudo, Smile, levaram o líder dos Beach Boys à exaustão e a um esgotamento mental de uma personalidade já por si perturbada e frágil. A constante pressão exercida pela Capitol Records por mais material e, principalmente do seu pai e empresário bully, Murry Wilson, levou a que Brian, uma criança num corpo de um homem adulto, tivesse vários tipos de insegurança e auto-estima.
No entanto, o seu amor e dedicação à música foram sempre mais fortes e durante os anos 60, o seu sucesso conseguiu medir-se na quantidade de êxitos lançados desde o seu primeiro disco Surfin’ Safari até ao seminal Pet Sounds.
Após o lançamento desse disco, que não foi um êxito de vendas, principalmente na sua pátria, e o já mencionado debacle de Smile, Brian entrou em espiral e a banda ficou à deriva. Das cinzas (quase literais) de Smile, o resto da banda colou algumas composições perdidas e lançou Smiley Smile. Nesta altura, o público fiel de outrora já não reconhecia a “America’s band” e não lhes ligou nenhuma. Os Beach Boys já não eram relevantes como outrora. O mundo estava a mudar, principalmente os Estados Unidos. Revoluções sociais eclodiam um pouco por todo o país e a música tendia a acompanhar isso. O rock ficara mais sujo, mais pesado, mais cru e mais cínico. Ora, tudo isto parecia passar ao lado do som e imagem dos Beach Boys, mesmo que o seu som e letras tenham evoluído, especialmente nas vertentes mais abstratas, espirituais ou até ecológicas, como se verificou nos seus lançamentos posteriores (Wild Honey, Friends, 20/20, Sunflower ou Surf’s Up).
No início dos anos 70, a banda, nessa altura liderada por Carl Wilson, tentou seguir um novo rumo, com um novo alinhamento (os sul-africanos Blondie Chaplin e Ricky Fataar) e um novo som, mais rock e sujo. O resultado foram os discos pouco lembrados Carl and the Passions e Holland.
Em 1973, morre Murry Wilson, pai dos irmãos e tio de Mike Love. Nenhum deles foi muito crítico em relação ao primeiro manager e produtor da banda em vida. No entanto, à medida que os anos foram passando, começou a descobrir-se o pequeno monstro que Murry era. Desde ter, alegadamente atingido Brian com um pedaço de madeira na cabeça, levando-o a ficar surdo de um ouvido. Também Dennis era alvo da ira de Murry, tendo sido espancado várias vezes quando era um miúdo. Juntando ao constante abuso psicológico que a banda teve de sofrer durante os seus primeiros anos de carreira. Brian e Dennis não foram ao seu funeral, tendo o primeiro feito o luto no seu quarto, consumindo largas quantidades de cocaína, marijuana, medicamentos, juntando-lhe outro vício, comida, começando a tornar-se perigosamente obeso.
Após Holland, o manager e conselheiro Jack Rieley, acabou por ser substituído pelo irmão de Mike, Stephen Love. Com Jack fora, Mike começou a voltar a ter mais peso na banda e isso começou a notar-se nas setlists dos concertos que começaram a conter mais hits do passado. A Capitol Records, que detinha os direitos da banda até 20/20, uma vez mais, atenta à oportunidade de lucro, lançou um disco da banda ao vivo (Beach Boys In Concert), de 1973, originando uma receita financeira não vista há mais de cinco anos. Aproveitando a onda, foi logo editado Endless Summer, uma colecção de oldies pré-1966, tendo tido tanto sucesso que levou o disco ao número 1 de vendas nos EUA, apenas a segunda vez que os Beach Boys lá tinham chegado (o primeiro tinha sido com o seu primeiro disco ao vivo, de 1964).
A primeira vítima desta mudança foi Blondie Chaplin, despedido, supostamente, após uma discussão com Stephen Love. No ano seguinte, com a recuperação da lesão na mão de Dennis Wilson, Ricky Fataar passou apenas a colaborar em estúdio, tendo a banda voltado à escalação inicial dos cinco originais: Brian, Dennis, Carl, Mike e Al.
Enquanto isso, nos EUA, com o lançamento de American Graffiti, filme de George Lucas passado no início dos anos 60, com canções antigas dos Beach Boys na banda sonora, surge uma nova vaga de amor ao rock ‘n roll clássico. Chuck Berry e Elvis voltam aos tops e o interesse na banda californiana renasce. A Capitol, sempre ela, lança mais umas quantas colectâneas de êxitos antigos. Os Beach Boys, com a sua própria editora, aproveitam o momento e lançam também o seu próprio álbum de êxitos – somente de canções pós Pet Sounds. Os Beach Boys passavam a ser, agora, unicamente uma banda vintage, para um público antigo ou retro. Enquanto Brian permanecia na cama, a banda andava na estrada a tocar hits antigos.
Exausta de ver o seu marido continuar numa espiral depressiva, Marilyn Wilson contactou Eugene Landy, um famoso terapeuta das vedetas, para ajudar Brian. Landy, conhecido por usar métodos muito pouco ortodoxos, obrigou Wilson a ter um esquema rígido, cortando na alimentação, drogas, contacto com pessoas mais nefastas e obrigou-o a sair da cama e fazer exercício. De modo a fazê-lo sair da cama, algo que outros terapeutas já tinham tentado, Eugene disse que tinha de ser mais louco do que o louco Wilson. Então, todos os dias atirava-lhe água para cima até ele sair da cama. Eugene, ou os seus profissionais, passavam a estar 24 horas por dia a controlar Brian. Pouco ortodoxo ou não, o certo é que Brian, durante alguns anos, saiu do marasmo, voltou ao estúdio e, pasme-se aos concertos.
O “regresso” de Brian deu-se com 15 Big Ones, um disco claramente orientado para o público que preferia o lado mais surfista e soalheiro da banda. Mas o resultado sabe a pouco, a voz de Brian não estava com a qualidade de há uma década e não ajudou que mais de metade do álbum fossem covers antigas. Salvam-se “It’s Ok”, uma das canções mais vibrantes em muitos anos e “Had To Phone Ya”, que poderia perfeitamente ter feito parte de qualquer disco dos anos 60 pós Pet-Sounds.
Apesar de não ter sido muito apreciado pela crítica, o disco vendeu o suficiente para manter o interesse nos Beach Boys e manter Brian Wilson num estado estável de socialização, chegando mesmo a fazer parte de um sketch do Saturday Night Live, com John Bellushi e Dan Akroyd que, vestidos de polícia, acusam Brian Wilson de nunca ter surfado, obrigando-o a ir para uma praia fazê-lo. Um momento delicioso.
E assim, com a cabeça mais funcional, Wilson começou a compor canções em catadupa. Sem a ajuda de outro co-autor, o objecto das suas letras retrocedeu à sua juventude, às emoções da adolescência e às coisas que mais gostava (incluindo Phil Spector, astronomia e o apresentador Johnny Carson). Originalmente composto para ser o seu primeiro disco a solo, tudo em Love You é trabalho seu, com o resto dos Beach Boys a acrescentar vozes (incluindo a sua própria Marilyn e o regressado Bruce Johnston). Sem contar com as letras, as estruturas das canções e as harmonias vocais podiam ter sido escritas durante a era de Pet Sounds. Os instrumentos utilizados – em particular os sintetizadores Moog – acrescentam ao álbum uma toada mais disco (algo que aumentaria em lançamentos futuros).
Muito à semelhança de Mccartney II, Love You é um disco algo negligenciado. Um álbum que remete a sensações do passado mas com um pé já na porta do futuro (particularmente da New Wave ou Synth Pop). É possível ouvir as ideias e a imaginação a fluírem de Brian Wilson como não víamos desde há muito tempo. À primeira audição, pode causar estranheza. As canções são desconexas e estranhas (tal como o próprio Brian) mas é esse mesmo sentimento que faz de Love You um disco mais interessante.
É um álbum que contém algo que não se via noutros trabalhos – humor. É possível imaginar um Brian Wilson mais pesado, deitado na sua cama a ver o The Tonight Show e, de imediato, a escrever uma canção sobre isso. Há músicas sobre patinagem, “apitar” pela autoestrada fora, os planetas no espaço, a paternidade e a solidão. Apesar da aparente luminosidade de muitas das canções, a melancolia faz-se sentir ao longo de todo o disco.
Infelizmente, este álbum foi sol de pouca dura. A qualidade dos discos seguintes caiu a pique e a saúde de Brian voltou a deteriorar-se. Apenas algumas canções de M.I.U. (1978) e o álbum não editado Adult/Child podem ser vistas como uma espécie de continuação. Love You é o último grande disco dos Beach Boys e só com “Kokomo”, da banda sonora de Cocktail, é que a banda voltaria a ser relevante outra vez.