Com Brian Wilson quase musicalmente catatónico, o seu irmão Carl toma as rédeas da banda e contrata dois novos membros sul-africanos para dar um sopro de vida aos Beach Boys. So Tough foge dos motivos surfistas, da pop psicadélica e traz um som mais mais actual aos californianos.
A génese de Carl and the Passions-So Tough começa ainda antes do lançamento de Sunflower. Em 1969, durante a tourné europeia, Carl Wilson descobre, em Londres, uma banda Sul-Africana de seu nome The Flame. O mais novo dos irmãos Wilson gostou tanto que os convidou a virem aos Estados Unidos para serem a sua banda de suporte e gravar o seu disco de estreia. O disco não vingou e a maior parte dos membros da banda não estavam felizes nos EUA e voltaram para o seu país de origem.
É durante esta altura que Brian Wilson faz amizade com Jack Rieley. Jack era um radialista em Los Angeles e, durante uma entrevista de promoção ao seu disco de então, Sunflower, Rieley, confesso fã da banda, informa os irmãos Wilson que a reputação da banda estava a cair aos poucos e que as suas setlists eram demasiadamente “oldies but goldies”. E sugeriu que algo tinha de ser feito para rejuvenescer a imagem da banda. Brian gostou tanto desta intervenção de Jack que o convidou para ser uma espécie de consultor da banda. Durante anos, os Beach Boys estiveram a ser geridos por familiares ou amigos próximos e, tendo em consideração que as vendas dos seus discos e popularidade estavam a decrescer consideravelmente desde o lançamento de Smiley Smile, algo já não estava a ser bem feito. Os Beach Boys deveriam deixar de ser uma banda pop do passado. As bandas do momento, do pós-Woodstock eram os The Who, Grateful Dead ou Led Zeppelin que davam concertos longos e intensos, com canções mais pesadas e cruas.
Do memorando entregue por Jack, alguns pontos eram essenciais para a mudança. Os uniformes de banda teriam de acabar. Fossem as camisas listradas da fase surfista ou os fatos brancos do fim dos anos 60 e Carl Wilson passar a ser o líder da banda. O que os Beach Boys poderiam perder em criatividade ganhariam em ritmo de trabalho e foco. Surf’s Up, lançado em 1971 já teve a marca de Jack, inclusive na colaboração na escrita de canções, tendo cantado numa delas. O disco teve muito mais impacto e retorno financeiro do que todos os anteriores do fim dos anos 60, o que cimentou a sua posição na banda.
Quando a banda se preparava para ir para a estrada apresentar o disco, Dennis Wilson, enquanto alcoolizado, cortou a mão gravemente, ficando impedido de tocar bateria durante os anos seguintes. Para preencher o seu lugar, Carl lembrou-se de Ricky Fataar, baterista da banda sul-africana The Flame, anteriormente referida no texto. Estas mexidas começavam a fragmentar o conjunto californiano que se dividiu em dois polos opostos. De um lado, os irmãos Wilson, entusiasmados com esta nova fase e, de outro, Al, Mike e Bruce, mais adeptos da fase mais pop da banda. Bruce Johnston acabaria mesmo por abandonar os Beach Boys em 1972. Como Blondie Chaplin, multi-instrumentista dos mesmos The Flame, já tinha colaborado em Surf’s Up, Carl juntou-o à banda, tornando-o a ele e a Ricky membros oficiais.
A partir de Pet Sounds, o público que mais vibrava com os Beach Boys era o europeu, onde os discos vendiam bem, os concertos esgotavam e o público pedia canções mais recentes nos setlists em vez dos hits cansados do antigamente. Jack Riley percebeu isso e viu os Países Baixos como uma boa solução para a banda mudar de ares e fugir da Califórnia, onde o seu passado a perseguia, tentando que os Beach Boys ganhassem um novo alento e criatividade para o disco seguinte.
Após passarem uns reconfortantes tempos na Europa, foi decidido gravar o próximo álbum aí. O problema? Não havia nenhum estúdio com qualidade disponível para o fazer, no momento. Então, foi pedido aos engenheiros de som que preparassem um vindo dos EUA para ser instalado num barracão na antiga Holanda.
Enquanto isso, a banda regressou à Califórnia com algumas ideias, as quais foram ensaiadas no estúdio caseiro de Brian Wilson. Nesta altura, como já referido, a banda estava totalmente fragmentada. O resultado disto é bem visível neste Carl and the Passions. Um disco dividido em três partes e meia. De um lado, Carl, Chaplin e Fataar, entregando um som nunca ouvido nos Beach Boys: uma folk/rock que nada destoaria de uns The Band, The Byrds ou Steely Dan, de outro, Mike Love e Al Jardine, com canções mais espirituais ou ambientais e ainda um terceiro lado, o de Dennis Wilson, que entregou um lado mais emotivo e pessoal, em baladas orquestrais. O meio lado pertence ao omnipresente Dennis Wilson que pouco contribuiu, estando a maior parte do tempo no seu quarto, por cima do estúdio.
Este 18º disco de estúdio dos Beach Boys e Holland marcam uma fase pouco conhecida e passageira na carreira dos californianos. Foi a altura em que menos pareceram ser a banda pop clássica e tentaram ser uma banda rock, mais actual, tentando acompanhar as grandes bandas da altura. O resultado final não vingou, tal como Holland, no entanto, passadas tantas décadas, e, longe das condicionantes da época, conseguimos encontrar qualidades redentoras nos álbuns. Primeiro, porque a banda, efectivamente, tentou fazer algo diferente e depois, porque são discos com boas malhas, óptimas para desenjoar das fases mais surfistas ou pop psicadélica.
Carl and the Passions-So Tough abre com “You Need A Mess of Help to Stand Alone”, canção escrita por Brian Wilson com colaboração de Jack Rieley, com Carl Wilson a rasgar na voz principal. Com uma toada mais country/rock, a cheirar a terra como nunca a banda tinha feito, a influência de Brian continua lá, com as harmonias por trás a criarem um som muito próprio.
Em seguida, a canção mais seventies que os Beach Boys já tiveram no seu catálogo. “Here She Comes”, escrita e cantada por Blondie Chaplin e Ricky Fataar, tal como “Hold On, Dear Brother”. Nestas canções, a banda aproximava-se muito de uns Traffic ou CSN.
“Marcella”, uma canção escrita por Brian Wilson e segundo single extraído do álbum, tem ainda os traços típicos dos californianos, com letra pueril sobre uma massagista da qual Brian gostava muito, juntando o jeito habitual de cantar de Mike Love e os respectivos coros e harmonias dos restantes membros. A meio da faixa aparece o tal som muito próprio deste álbum, com Chaplin a recriar o melhor George Harrison dentro de si num solo de guitarra slide belíssimo.
Num disco bastante curto, com apenas quatro faixas de cada lado da rodela do velhinho vinil, ainda houve espaço para uma colaboração entre Mike Love e Al Jardine com um pequeno dedo de Brian em “He Came Down”, numa letra sobre espiritualidade e religião, num misto de gospel e sermão.
Já Dennis Wilson, contribui com duas baladas: “Make It Good” e “Cuddle Up”. Previamente pensadas para um eventual disco a solo, Dennis teve a ajuda na composição de Daryl Dragon, colaborador frequente nos últimos tempos da banda, nestas duas canções emotivas, prevendo aquele que seria o seu maior e único êxito a solo – Pacific Ocean Blue.
Entre as duas canções de Dennis, aparece “All This Is That”, uma música belíssima composta e cantada por Carl, Mike e Al, sem uma única intervenção de Brian que, neste álbum pouco colaborou como músico de estúdio, acrescentando aqui e ali uns teclados ou, pasme-se estalidos de dedo.
Enquanto Brian Wilson se refugiava cada vez mais no seu quarto, agarrado às drogas, agravando o seu estado mental, com Dennis a começar a entrar pelo alcoolismo e Mike Love e Al Jardine a quererem regressar ao passado, coube a Carl Wilson tentar levar a banda para a frente, modernizando o seu som e status. Carl and The Passions e Holland não vingaram o suficiente e acabaram por ser esquecidos no tempo. Chapman e Fataar seguiriam o seu caminho e Brian Wilson voltaria, durante um breve período, à galáxia dos Beach Boys, como figura central.