Uma obra belíssima a dois andamentos, o primeiro alegre e rápido, o segundo lento e soturno, anunciando a melancolia gourmet de Pet Sounds.
Foi no ano 31 depois de Cristo – perdão, no Natal de 1964 – que o fariseu Paulo – desculpem, Brian Wilson – teve a sua conversão a caminho de Damasco – numa digressão para Houston, queríamos dizer -, caindo do cavalo… ou terá tido antes um colapso mental no avião…, Pai, perdoa-nos, pois nada sabemos…
Ainda nem cinco minutos haviam passado desde a descolagem e já o seu cérebro se esboroava numa confusa papa. Foi então que ouviu uma voz altissonante que mais ninguém ouviu, pois só falava dentro da sua cabeça.
– Brian, abandonai tudo o que é frívolo, tenho desígnios maiores para vós.
E Brian percebeu as palavras do Senhor. Doravante, não mais pisaria os ínvios palcos cerceados por adolescentes estrídulos, pois só a demanda pelo Sublime é digna do Altíssimo.
E o Todo-Poderoso prosseguiu:
– Eu não sou o barro, mas sim as mãos.
E Brian compreendeu que a forma do Belo não está na informe argila do mundo, mas na imaginação com que a moldará.
E o Santo Pai continuou:
– Sei quantas estrelas pendurei no céu, e quantos grãos depositei no areal, mas não sei quantas obras o Homem criará.
E Brian compreendeu que o Belo não está nas coisas, que são finitas, mas nas suas combinações, que são infinitas. Por isso, retirou-se para a sua cela, guarnecendo-a de todos os sons do mundo, e de uma consola para os misturar, e de muita erva para fumar e rir nos entretantos.
E Brian disse para os botões da sua consola:
– Se há alegria e tristeza em mim, tristes e alegres serão estas canções.
E juntou todas as canções alegres num montículo, a que chamou lado A, e todas as canções tristes noutro montículo, a que chamou lado B, e ao conjunto chamou The Beach Boys Today! porque sentia que as canções que agora escrevia eram diferentes das de antanho.
Nas canções alegres, Brian colocou sol e rock’n’roll, dança e desejo, vigor e suor, promessa e inocência. Três vezes Pedro renegou Jesus, três vezes se cantou “Fun, Fun, Fun”…
As canções tristes pô-las em pequenos barcos de papel, e os barcos de papel em riachos ao luar, e os riachos ao luar no pó azul das estrelas. E à mais bela e delicada de todas chamou de “In the Back of My Mind” porque o belo e o delicado corriam nos seus pensamentos.
Se estava orgulhoso da sua musicalidade, mais inventiva do que nunca, com acordes extravagantes, excêntricas harmonias, e combinações inusitadas de timbres, tinha vergonha das palavras que escrevera, pueris como redacções dos primeiros anos de escola. Mas está escrito: as palavras, leva-as o vento – só a música é sublime e permanece.
O mundo conheceu The Beach Boys Today! em 1965, não lhe poupando elogios. Mas Brian sentia que ainda estava a meio caminho. Era preciso mais unidade e mais minúcia. Inspirado no contemplativo e soturno lado B, entraçou um filigrana ainda mais delicado, a que chamou Pet Sounds, corria então o ano de 1966.
Entretanto, numa leve brisa, meio século passou. Foi então que no mês de Junho o nosso Brian partiu, paz à sua alma. E subiu ao céu puxado por anjos, onde por fim se encontrou com o Senhor. Pedira aos anjos para levar também as suas criações favoritas, The Beach Boys Today! e a sua obra-prima Pet Sounds. Sem hesitar, entregou a última a Deus.
– Tomai, Senhor, estas minhas canções, toscas certamente, pois foi um rude Homem que as escreveu, mas, ainda assim, o mais próximo a que consegui chegar da Vossa inalcançável perfeição.
Deus Pai Todo-Poderoso respondeu, com a sua voz tonitruante:
– Levai para longe essa vil obra, a perfeição a Lucifer pertence! A tua obra maior é a outra, a das duas cabeças lutando, uma obscenamente feliz, a outra grosseiramente triste. Cerzindo as duas metades, está a minha alma inteira.
E foi então que The Beach Boys Today! se banhou de uma luz celestial tão linda que até aos anjos espantou.
E Brian compreendeu que os caminhos do Belo são sempre insondáveis.
E sorriu.