Cedendo a pressões da editora, os Beach Boys deram um passo atrás na sua ascensão ao Olimpo. Não queriam muito, mas aceitaram voltar a fazer um disco sobre noites de Verão e miúdas giras. Daqui resultaram vários singles intemporais, mas depois disto, deram dois passos em frente.
Embora tenham começado a carreira apenas quatro anos antes, este é já o nono (9º!!) álbum de estúdio e um dos três que lançaram nesse ano de 1965. Quando, nos dias de hoje, ficamos pasmados com bandas que lançam dois discos num ano, convém não esquecer que os Beach Boys já o tinham feito. Isto e muito mais, que raramente damos conta mas sim, os Beach Boys chegaram lá primeiro! Não haveria punk sem os Beach Boys, basta ouvir Ramones para perceber de onde tudo vem.
Agora vamos a Summer Days (And Summer Nights!!), lançado em Julho de ‘65. Um álbum paradigmático na carreira dos Beach Boys, numa altura em que eles já estavam a amadurecer. O anterior, Today! lançado em Março desse ano, já marcava um distanciamento dos assuntos que os haviam tornado famosos – sol, carros, amores, surf (sendo que nenhum dos membros da banda era surfista) – e dava a indicação de para onde é que queriam ir, que já estavam fartos e não queriam ficar para sempre amarrados a essas temáticas.
Porém, o disco anterior não foi um sucesso de vendas como a Capitol previa, daí que tenha exigido à banda mais hits. Eles acabaram por ceder a essa pressão da editora, fizeram um álbum mais “levezinho”, mas com algumas nuances, não foi assim de mão beijada, nem tão pouco um retrocesso. Foi dar um passo atrás, para depois dar dois em frente, que a avalanche criativa e artística de Wilson não dá para conter.
Querem hits? Tomem lá “California Girls”, “Help Me Rhonda”, “You’re So Good To Me”, “Then I Kissed Her”. Mas tomem também “Salt Lake City”, em que proclamam amor a essa cidade não californiana onde «no Inverno o ski é óptimo». Tomem um slow encantador, “Summer Means New Love”, instrumental que nos traz os pés de volta ao chão, longe da folia de sol e praia. E tomem o delicioso “I’m Bugged At My Ol’ Man”, um blues só voz e piano, num lamento contra o pai que pôs de castigo, não deixa sair nem ouvir rádio nem comer bife, só migalhas, então a vingança é «estou a deixar crescer a barba».
Ouvir os Beach Boys em 1965 é um verdadeiro elixir da juventude. É ir directamente para uma Era dourada, uma América próspera onde o sonho americano se cumpre efectivamente, onde a vida de jovens de classe média é fantástica e irrepetível. Um momento e lugar onde faz sempre sol, a única preocupação é não chumbar por faltas, o maior drama é perder uma namorada e pode-se passar os dias na praia ou na feira popular, as noites a dançar e não pensar em nada mais que o momento presente. Ouvir esta fase dos Beach Boys faz-nos sentir precisamente isto tudo. Mesmo que seja só durante os 26 minutos e 12 canções que dura este disco.
Summer Days (And Summer Nights!!) é paradigmático na carreira dos Beach Boys não só por ser um álbum “encomendado” que eles não quereriam muito fazer, mas também por ser o último disco antes do salto definitivo. A seguir a este, em Novembro de ‘65, lançam Party! que é composto maioritariamente por versões. O álbum de originais que se lhe seguiu foi nada menos que Pet Sounds. E a seguir a isso, o mundo nunca mais foi o mesmo.