Com a sua capa escura e taciturna e um conjunto de canções melancólicas, Surf’s Up assume-se como o som de uma utopia a desaparecer lentamente no horizonte californiano. Bem vindos ao fim dos anos 60 e à porta de entrada de uma nova fase na carreira dos Beach Boys.
Com a chegada da nova década de 1970, os Beach Boys já não eram os reis da música pop made in U.S.A. Os anos dourados do surf rock tinham ficado para trás e o projecto Smile (transformado depois no álbum Smiley Smile de 1967) continuava a ser uma ferida aberta no seio do grupo.
Brian Wilson, génio absoluto da pop, responsável pelo som visionário e barroco de Pet Sounds, era agora uma figura cada vez mais distante, fechada sobre si própria, perdida entre problemas mentais e drogas. E Brian estava também cada vez menos interessado na banda que tinha ajudado a transformar num fenómeno cultural.
E no entanto, é exactamente neste contexto meio cinzento, quase terminal (mas ainda a várias décadas de distância do fim), que surge Surf’s Up, um dos discos mais belos e emocionais de toda a discografia do grupo.
Apesar do título, a lembrar momentos de início de carreira dos Beach Boys, há qualquer coisa de profundamente melancólico neste trabalho, o sucessor do flop comercial Sunflower de 1970. Existe uma tristeza cansada, adulta, como se os Beach Boys finalmente percebessem que o sonho californiano dos anos 60 tinha acabado. O optimismo juvenil deu lugar à desilusão, ao desencanto ecológico, às dúvidas existenciais e até à morte.
E basta olhar para a capa para perceber isso. Ao contrário das imagens luminosas (e sorridentes) que marcaram quase toda a carreira do grupo, Surf’s Up apresenta uma ilustração escura, quase fantasmagórica. É baseada na escultura End of the Trail, de James Earle Fraser, criada em 1894 e que representa um guerreiro nativo-americano. A pintura revela um cavalo exausto, um homem derrotado, ambos curvados pelo peso do caminho, da luta, das guerras. Nesta capa não há praias, pranchas de surf ou raparigas de cabelo loiro. Só desgaste.
É provavelmente a capa mais triste da discografia dos Beach Boys, mas resume visualmente aquilo que o disco é. Retrata uma banda em decadência criativa e emocional. No entanto, ainda capaz de momentos de génio, transformando todos os sentimentos de melancolia em música que nos toca e emociona.
Ao contrário do mito popular, Brian Wilson ainda participa activamente em algumas partes do álbum, embora já esteja longe de controlar tudo como acontecera em Pet Sounds ou nas sessões de Smile (que levaram o compositor ao limite das suas capacidades).
Em 1971, e impulsionados pelo novo agente Jack Rieley, convidado após o falhanço comercial de Sunflower, os Beach Boys funcionavam muito mais como colectivo, principalmente graças ao crescimento criativo de Carl Wilson, Dennis Wilson e Al Jardine. Brian aparece quase como uma sombra do passado, mas sempre com momentos geniais. E nota-se, particularmente num par de faixas que se destacam em Surf’s Up.
“Till I Die” é um dos momentos mais vulneráveis e confessionais do compositor. “I’m a cork on the ocean”, canta Brian, completamente perdido no meio do arranjo etéreo e quase fúnebre, a cargo de sons de órgãos de igreja. Mas há arrojo, com a recurso a uma máquina de ritmos electrónica, já a projectar o futuro da música popular. É um desabafo de Brian Wilson e que nos leva logo a pensar no seu estado psicológico neste período. Apesar da aparente simplicidade, é uma canção poderosa, ainda mais se considerarmos o contexto.
Já o tema “Surf’s Up”, originalmente composto durante as sessões de Smile em 1966, é um verdadeiro fantasma do passado que regressa à procura de desfecho. Durante anos, a música existiu como peça inacabada do álbum perdido dos Beach Boys. Recuperar a faixa tem em si algo de simbólico, o de fechar o ciclo, do período mais psicadélico e ambicioso de Brian Wilson. O resultado finalizado da música é único e recorda-nos o enorme potencial de Brian Wilson como compositor. É uma canção complexa e que desafia as convenções da pop.
Mas para lá de Brian Wilson, temos os restantes elementos dos Beach Boys a afirmarem-se finalmente, em busca da sua própria identidade.
Carl Wilson transforma-se no verdadeiro líder musical da banda, trazendo temas como “Long Promised Road” e “Feel Flows”, duas das músicas mais introspectivas e espirituais. Dennis Wilson, apesar de ainda não explodir totalmente como compositor (algo que vai acontecer no álbum a solo Pacific Ocean Blue de 1977) já mostra sinais da sensibilidade melancólica que o tornaria um dos membros mais fascinantes do grupo. Algumas das suas gravações destas sessões e que ficaram de fora do alinhament final, iriam surgir mais tarde em colectâneas.
Destaque ainda para “A Day in the Life of a Tree”, uma música cantada pelo recente empresário da banda, Jack Rieley (ex-DJ da rádio californiana KPFK e responsável pela primeira entrevista radiofónica a Brian Wilson). Numa composição entre Brian e Jack, a poesia descreve o lamento de uma árvore a morrer devido à poluição. É o momento ecológico do disco e em linha com a sensibilidade social da época, que acordava para estas questões. Olhe-se por exemplo para a canção “Mercy Mercy Me (The Ecology)” de Marvin Gaye, também em 1971 no álbum What’s Goin’ On, igualmente um tema ecológico.
Durante várias décadas Surf’s Up foi visto como uma espécie de epílogo tardio ao período Pet Sounds/Smile, mas hoje parece claro que é muito mais. Não é apenas um disco construído sobre restos do passado, é o momento em que os Beach Boys aceitam finalmente aquilo em que se transformaram. Uma banda menos inocente, menos comercial, mais adulta e emocionalmente fragmentada. Uma banda que encerra o passado e olha para as possibilidades do futuro.
E talvez por isso este registo tenha envelhecido tão bem. Porque ao contrário de muitos discos da época, o álbum não tenta soar moderno. Soa imperfeito e vulnerável. E continua à espera de ser redescoberto por muito do público que aplaude Pet Sounds.
Não será tão revolucionário como esse disco de 1966, nem carrega o peso de “mito” como Smile, mas talvez seja o álbum onde os Beach Boys mais se aproximam daquilo que realmente eram enquanto pessoas. E esse lado humano, que se nota a cada segundo e a cada nota, é o que torna Surf’s Up como um dos mais essenciais no percurso de Brian, Carl e Dennis Wilson, Mike Love, Al Jardine e Bruce Johnston.