Ainda no rescaldo do falhanço de Smile e com as tensões que caracterizam este período da sua carreira, os Beach Boys presentearam 1968 com um álbum tão digno como obscuro.
É improvável que o trajeto dos Beach Boys fosse muito diferente mesmo que Smile tivesse sido lançado. A verdade é que, na altura, Pet Sounds só foi bem recebido no Reino Unido e as tensões internas do grupo, assim como o declínio da saúde mental de Brian Wilson não se resolveriam automaticamente mesmo que o disco tivesse sido lançado e fosse bem sucedido. De qualquer modo, 1967 foi passado a tentar aguentar o barco, com o lançamento em rajada de Smiley Smile, uma versão humilde do projeto original e Wild Honey, um álbum enérgico mas hesitante relativamente à sua direção e propósito.
Friends, lançado em 1968 é talvez o único disco dos Beach Boys desta fase estranha que se consegue afirmar como um statement artístico, sendo considerado por Brian Wilson como o seu segundo disco a solo, depois de Pet Sounds. Gravado em apenas dois meses, é um disco focado em criar uma atmosfera de idílio e tranquilidade em total oposição às dificuldades que o grupo e o mundo atravessavam naquele ano turbulento de 1968.
Depois de uma curta entrada sob a forma de “Meant for You”, somos rapidamente transportados para o idílio da faixa título. Mesmo sem as grandes extravagâncias a nível da instrumentação, a canção é uma poderosa combinação de otimismo soalheiro e nostalgia terna, à moda de uma “Wouldn’t It Be Nice”, sempre com as harmonias celestiais que são o trunfo da banda. “Be Here in the Mornin’” tem uma veia psicadélica, com a voz principal a passar por um Leslie e é talvez a música com mais Wilsons a cantar ao mesmo tempo, uma vez que Murry Wilson, pai de Brian, Carl e Dennis e antigo agente da banda, acompanha o grupo no refrão. “Little Bird” e “Be Still” são da autoria de Dennis Wilson, mais sombrias do que o resto do disco. “Little Bird” em particular, tem um refrão triunfante que antecipa os refrões mais poderosos do seu Pacific Ocean Blue de 1977.
Mais para o final do disco vemos a banda a extravasar com a bossa nova de “Busy Doin’ Nothin’”, a exotica de “Diamond Head” e o que quer que “Transcendental Meditation” seja. Ao menos tiveram o bom senso de não pôr um sitar na música. Apesar da diversidade estilística apresentada nas suas canções finais e da influência do Maharishi, com quem a banda conviveu nesta altura, Friends talvez seja mais o Let It Be do que o Álbum Branco dos Beach Boys: uma produção relativamente caseira mas tocada de forma imaculada por um grupo cujo génio consegue ultrapassar as suas crises e transições.