Com Brian Wilson em part-time, os rapazes fazem um disco mais espontâneo e mais adulto, mas também menos genial.
À saída do chamado verão do amor, os Beach Boys estavam em sarilhos. Brian Wilson tinha entrado em colapso na tresloucada tentativa de criar Smile, e a edição do seu sucedâneo, Smiley Smile, tinha sido recebida com frieza, tendo o pior comportamento comercial de qualquer disco da banda até então.
Brian havia trabalhado obsessivamente em Smile num misto de reclusão e de cumplicidade com alguns parceiros musicais, mas deixando os seus colegas de banda praticamente de fora. Por outro lado, essa odisseia tinha sido a tentativa do génio em levar o estúdio aos seus limites, procurando uma complexidade de arranjos na qual o compositor acabou, inevitavelmente, por se perder.
Junta-se a este panorama o tom social dos tempos. Os hippies e a contra-cultura eram agora dominantes e omnipresentes. O sexo livre, as drogas e as posições políticas eram o prato do dia. Perante isto, os limpinhos Beach Boys pareciam, já, um anacronismo, um postal de uma América que já não existia. Pior, eram uma instituição muito pouco cool.
Este foi o caldo em que Wild Honey nasceu.
Depois da edição de Smiley Smile, enquanto Brian continuava fechado no quarto, o resto da banda estava ansiosa por voltar ao trabalho. Para estes, o próximo capítulo era importante. Não porque acreditassem que, com Brian naquele estado, pudessem fazer uma obra-prima. Mas porque queriam provar, ou se calhar perceber, que eles próprios eram importantes, e que podiam assumir a tarefa de levar às costas um novo disco de Beach Boys, como um grupo, mesmo com o seu líder em part-time.
Reunidos no estúdio caseiro de Brian, a banda foi trabalhando em ideias, à medida que tentativas diárias de tirar o compositor do quarto e juntar-se ao grupo eram feitas, com variados graus de sucesso. O que se pode dizer é que, das 11 faixas originais de Wild Honey, nove trazem Brian Wilson como co-autor (as restantes duas são um cover de “I was made to love her”, que muito pouco tempo antes tinha sido um sucesso de Stevie Wonder, e “How she boogalooed it”, o primeiro não instrumental dos Beach Boys a não contar com Brian Wilson nos créditos).
O resultado de tudo isto é que, face ao som habitual dos Beach Boys, Wild Honey é muito mais directo, mais simples, mais orgânico, mas também mais desorganizado do que o habitual. Aqui não há suites celestiais de amor adolescente ou tentativas de atingir o nirvana com acordes sagrados. Há uma banda a tocar junta, a divertir-se e a procurar sentir-se novamente parte de um grupo.
Há também outra coisa curiosa neste disco, uma sonoridade muito pouco ouvida até então na discografia dos rapazes. “Esse disco foi o álbum de influências R&B de Brian, na sua cabeça. Pode não soar a isso a um executivo da Motown, mas era esse o ponto de partida dele nesse disco”, explicou mais tarde o vocalista Mike Love.
Isso sente-se obviamente na cover de Stevie Wonder, mas também no piano boogie de “Wild Honey” (com direito a um solo incrivelmente Manzarek lá pelo meio), no uso extensivo de sopros (num certo estilo tipo Motown/Staxx) ou na construção do já citado “How she boogalooed it”, com a entrega vocal de Carl Wilson claramente inspirada no que de melhor a música negra americana fazia na altura.
É claro que os Beach Boys dificilmente poderiam, em toda a sua brancura cutânea e cultural, fazer um disco de soul ou R&B puro, ou sequer ao nível do que a Motown fazia todos os dias. Ficam, assim, uns pózinhos aqui e ali, umas pistas sem grande sequência, uma nova forma de tentar fazer música voltando às origens não dos próprios Beach Boys mas da música norte-americana moderna. Wilson bebe da música negra mas da que ouvia enquanto criança e adolescente, não a que estava a acontecer naquele momento. Daí o regresso às estruturas de composição do blues e ao piano boogie que ele sempre adorou.
Mais dois factores que explicam Wild Honey e que estão interligados. Os temas do sexo aparecem agora mais presentes, seja na faixa-título ou no final da doce e doméstica “I’d love just once to see you”. E há motivos para isso. Por um lado, por debaixo daquela imagem de bons meninos, os Beach Boys não eram nenhuns santos e tinham a sua quota-parte de mulheres, drogas e sexo. Por outro, os tempos prestavam-se claramente a isso. Por último, Carl Wilson, o irmão mais novo, estava prestes a fazer 21 anos e, com isso, oficialmente, todos os Beach Boys eram agora adultos.
É claro que mesmo uns Beach Boys mais gulosos sexualmente parecem uns meninos de coro ao pé de uns Rolling Stones, por exemplo, mas era sinal de que algo estava a mudar. Os rapazes da praia estavam a tornar-se homens da praia, no exacto momento em que perdiam a sua relevância cultural.
O que é significativo é que, no meio de tantos factores conflituantes, Wild Honey consiga ser um disco bastante interessante. A faixa-título grita de energia e o single “Darlin’” cumpre a quota de grandes canções pop do grupo. Mas este é um trabalho que vive sobretudo do feeling, de um ambiente de uma banda a gravar em conjunto, sem a obsessão de pureza do estúdio com tudo no sítio. A banda admitiu que, desta vez, o objectivo era mesmo gravar “um disco mais simples e mais directo”.
Estão lá as harmonias vocais e resquícios dos temas de antigamente. E, em muitos momentos, vira-se uma esquina e damos de caras com uma bela ideia musical, uma linha de génio. Mas este é um disco em que os Beach Boys deixam boa parte do seu passado e da sua pureza para trás, em busca de um novo futuro. Salvou-se a banda mas, em boa medida, daqui para a frente os Beach Boys deixaram de ser o maior tesouro pop da América e passaram a ser apenas mais um grupo. Mais humanos, menos geniais, em busca de um caminho mas sempre à sombra do medo de perda de relevância face ao passado, que era inexorável e inevitável.