O verão são três de doze meses de cada ano, mas vive eternamente nesta meia hora que os Beach Boys, em 1964, forjaram com raios do sol californiano e melodias que sabem a lambidelas num gelado fresquinho.
Este álbum é puro como um sonho de criança. Qualquer música faz-nos sentir como se fizéssemos parte da capa, a brincar na areia ao lado da nossa cara-metade, numa espécie de terra do nunca onde as preocupações esperam à porta. Só que estes escassos minutos de despreocupação escondem um período de alguma aflição. Os Beatles estavam a ganhar terreno. Brian Wilson começou a suar mais do que o costume e teve de elevar a fasquia.
Começa com “I Get Around”, como quem diz, “agora é a sério, ó Paul”. Uma das mais esplendorosas exibições do génio melódico de Brian Wilson, que aqui comanda as vozes dos seus companheiros de banda tal domador de tigres num espetáculo de circo – sem a parte das chibatadas (acho eu). Este é um som que só esperava ouvir às portas do céu, mas, afinal posso entrar no céu quando me apetecer. Posso entrar sem querer no céu enquanto estou sentado numa cadeira suja do metro, se passar, por acaso, esta música em modo shuffle na minha playlist. Obrigado, Beach Boys.
O resto do álbum pode parecer um bocado desinteressante quando se jogou o às de espadas logo no início, mas, a verdade é que há muita qualidade que não deve ser negligenciada. “All Summer Long” é uma excelente canção, cheia de personalidade e instrumentação variada (xilofone). “Hushabye”, “Wendy”, “We’ll Run Away” são docinhas como o mel, são baladas que parecem ter inventado o próprio conceito de balada. Queria deixar ainda uma especial menção para “Don’t Back Down”, uma música que invadirá a minha, assaz esganiçada, voz em todos os meus futuros banhos e duches.
Tematicamente, não há muito para contar. Apenas um curioso facto, “I Get Around” marca a primeira vez em que os Beach Boys cantam realmente sobre si mesmos. Os anónimos rapazes da letra são, na verdade, os membros da banda a ficarem cada vez mais famosos na sua cidade. O resto é o bom velho catálogo: praia, carros, miúdas.
Aliás, coloco aqui um esquema temático do álbum, para melhor orientação do leitor e futuro ouvinte:
- Praia
- Praia, carros e miúdas
- Miúdas
- Carros
- Miúdas
- Instrumental sobre miúdas
- Miúdas
- Mais miúdas
- Miúdas na praia
Pronto… também cantam sobre ir ao drive-in. Miúdas num carro, portanto. Continuando.
Ah, e ainda há uma montagem de dois minutos de momentos engraçados no estúdio. Não passem à frente, é surpreendentemente engraçado. O ambiente de estúdio parecia um recreio da primária.
E, por fim, praia.
Desta forma, com meia hora a cantarem basicamente sobre as mesmas três coisas, os Beach Boys mostravam já pertencer à vanguarda da música pop e à imortalidade. Brian Wilson e o seu medo profundo pelos Beatles geraram um álbum bonito e cristalino, mas dele ficaram principalmente promessas de algo maior, que atingiria níveis de refinação até então desconhecidos e que poria os Beatles a fazer vénias.