Shut Down Vol. 2 é inconstante, entre músicas absolutamente desnecessárias e momentos gloriosos, resultado da genica de gente que ainda nem chegara ao quarto de século.
Crescer custa, sabe-o qualquer pessoa que já tenha passado pela experiência. Pode ser em pequeno, quando se tropeça nos próprios pés, apenas para dar os primeiros passos. Pode ser mais tarde, quando se aprende que o corpo deixou de suportar os maus tratos de outras décadas. Pode ser tão simples quanto aprender que não é avisado beber antes de um duro dia de trabalho. No caso dos mais afortunados, crescer implica a descoberta de um talento obscuro, a genialidade para uma qualquer arte, ciência ou, pura, habilidade. Nem por isso, suspeito, deixa de custar e tudo piora se o processo tiver de ser acelerado.
Não seria fácil encontrar banda mais comercializável. Moços bonitos, bem comportados, surfistas inofensivos, embalados em algum do melhor rock n’ roll com que até hoje fomos presenteados. “Surfin Safari”, “Surfin’ USA” abrem os dois primeiros discos e ao terceiro chega “Surfer Girl”. Na era em que a música se vendia à unidade, a editora exigia mais. Dois, três discos por ano. No caso dos Beach Boys, três discos em 1963. Em 64, quatro.
Inevitavelmente, a melhor música viria depois, mas a ida à luta do clã Wilson é bem acima de digna. Crescer custa, não é verdade? E ainda assim, no caso dos mais afortunados, é entre trambolhões que o génio se atiça. Assim se ouve Shut Down Vol. 2.
O arranque de “Fun Fun Fun” pode irritar, de tão copiada que soa. Um sample antes dos samples, um decalce da “Johnny B. Goode” de Chuck Berry [fica a recomendação a uma visita à versão de Hendrix] que ainda assim nos impede de ‘desistir logo’. E a música revela-se. “Fun Fun Fun” tem o pecado original aos primeiros segundos, mas no final, passados pouco mais de dois minutos, mostrou-nos muito do que os rapazes se preparavam para crescer. Shut Down Vol. 2 é assim, inconstante, entre músicas absolutamente desnecessárias e momentos gloriosos, resultado da genica de gente que ainda nem chegara ao quarto de século.
Em Shut Down Vol. 2 não ouvimos a melhor versão dos Beach Boys – meses depois arrancavam novo disco com “I Get Around” – mas assistimos ao crescimento dos rapazes. Está lá o melhor surf rock, também já estão as harmonias que os fariam gigantes e os ensaios de como se preparavam para orquestrar a inédita parafernália técnica à disposição no estúdio.
“Don’t Worry Baby”, “The Warmth of the Sun” e “Parkin’Lot” compensam todos os despreocupados disparates. E mesmo esses, na verdade, nem temos por que os levar a mal. No final, por mais que possa custar, crescer é bonito. No caso dos mais afortunados pode mesmo ter momentos de brilhantismo.