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Sonic Youth revisitados ou o que é uma guitarra

O que é uma guitarra? Trata-se de uma estrutura rígida habitada por estruturas oscilantes, oferecendo o infinito.

Não tenho a certeza do que me levou a querer ler o livro autobiográfico da Kim Gordon. Certo de que no seu interior iria encontrar a tristeza de uma mulher cujo marido lhe foi infiel da maneira mais convencional possível, a maior deprimente vulgaridade no seio do casal que fantasiámos ser celestial, enfim, a diluição das réstias de inocência que quiçá eu ainda conservava, lol, ignorei o livro durante alguns anos. O vídeo no youtube da performance da Kim no concerto do Rock and Roll Hall of Fame em homenagem ao Kurt Cobain despoletou alguma curiosidade: uma sexagenária cambaleante a berrar “beat me out of me”, um momento puro de punk rock, a evidente fragilidade de Gordon a ecoar a de Kurt. Pela primeira vez a pergunta: quem é aquela mulher? Quem são, ou quem eram, os Sonic Youth?

Certamente a seriedade devotada exclusivamente à música e o total desinteresse pelo rockstarismo numa carreira sem grandes altos e baixos, como se planassem intocáveis pela história do rock, numa categoria única e indiferente ao resto, tenha levado a uma reduzida curiosidade jornalística. O documentário 1991 The year punk broke, que tem epicentro nos SY e que mostra a ascensão dos Nirvana, é uma pequena excepção. Mais tarde lançaram um DVD, que rapidamente comprei, mas que não passa de uma fria compilação de videoclips, alguns feitos por fãs, produto óbvio do mundo corporate desalmado a querer espremer uns limões, mas deparando-se com ausência de colaboração.
De maneira que me pareceu ser já altura de tentar perceber de onde vieram estes tipos e lá encomendei o livro A girl in a band. Não sei se o recomendo. Mas aguçou-me o apetite para fazer algo que já deveria ter feito há mais tempo que é organizar o meu pensamento em torno da obra dos Sonic Youth. Propus-me então a durante dois anos ouvir nada mais que os seus discos, e através de um processo rigoroso abaixo-descrito, concluir qual o melhor álbum da discografia e fazer uma lista dos outros por ordem decrescente, e elaborar uma playlist de 20 músicas para que os leitores-labregos pouco familiarizados com esta banda a possam começar a entender e os leitores-iluminados (i.e. fãs de SY) possam criticar e indignar-se por não eu ter incluído a “Little Trouble Girl”.

Espera-se uma playlist inicial com dezenas de músicas, claro, requerendo um desmatamento constante, que me ajudará, espera-se, a perceber de uma maneira extremamente científica quais os aspectos dos SY que considero mais importantes. Não sei porquê, isto é super relevante para mim, reparem que há quase duas décadas que me debato com estas questões. Espero que possa ser interessante para outros.

Antes de mais, avanço neste texto por dizer que a leitura do livro de Gordon confirma as origens dos Sonic Youth vincadas na classe média (dos tempos em que a classe média estava fixe), uma classe académica e quase artística, bem distantes das raízes working class do punk britânico ou dos grunges oriundos de famílias disfuncionais, como no caso do Cobain. Isto acaba por ter relevância. O punk são uns marginais musicalmente iletrados que se apoderaram dos instrumentos, distorcendo (levemente) o rock ‘n roll numa espécie de enraivecimento cultural, mas pelo caminho mantendo todo o seu convencionalismo estrutural. Há efectivamente algo de interessante nisso, mas, para o meu gosto pessoal, torna-se rapidamente cansativo. Tanto o punk como o grunge, indie rock, etc, não diferem em quase nada do formato pop/rock. Já os SY não poderiam estar mais indiferentes a movimentos culturais, para o bem ou para o mal, focando-se exclusivamente na originalidade e experimentalismo do seu som. Como disse o Thurston em tempos numa entrevista, defendendo-se de não terem os Sonic Youth atingindo sucesso comercial, “quando pego na guitarra sai sempre algo não-convencional, parece que não o consigo evitar”. Penso que o entendo perfeitamente.

Foi pois legítima a desconfiança gerada na comunidade punk no início dos anos 80 quando os SY fizeram a sua primeira digressão em Inglaterra. Dum lado uma comunidade working class esmagada pelo Thatcherismo, supervisionada pela bizarria que é ter uma família Real, vivendo em habitação social, a canção enquanto protesto, ou pelo menos enquanto sublimação da sua condição. Do outro, estes saudáveis e simpáticos espécimens americanos residentes em lofts de Lower Manhattan, cheios de cagança no que diz respeito à afinação das suas guitarras. Talvez o mesmo equívoco cultural tenha levado a que os Oasis nunca tenham tido grande sucesso na América do Norte.

A herança da classe média convencional e próspera formatou de certo modo o percurso dos SY. Thurston Moore e Kim Gordon unem-se em matrimónio, têm uma filha, assinam com a Geffen interessados sobretudo na sua oferta de seguro de saúde, nunca chutaram heroína, abandonam Nova Iorque por a acharem demasiado agressiva para a bebé Coco e mudam-se para um subúrbio arborizado. Lee Ranaldo seguiu semelhantes passos. Para não contrariar o cliché, uma vez criada a filha, divorciam-se.

É obviamente repugnante misturar a análise da melhor música rock de sempre com problemas conjugais, mas pretendo apenas sugerir duas ideias: a de que talvez um fenómeno tão extraordinário como este não tivesse sido possível num enquadramento mais tipicamente associado ao rock and roll, i.e., no olho de um furacão alimentado a álcool e drogas, do qual talvez grandiosas obras possam até surgir, mas que inevitavelmente conhece um fim, o mais das vezes súbito e prematuro; e a de que talvez a genialidade não seja necessariamente irmã da loucura e, ao invés, pelo menos de vez em quando, requeira a serenidade emocional de que os Sonic Youth pareceram ter desfrutado.

E tudo realmente pareceu começar no pouco sereno movimento no wave de 78-82, em que artistas, músicos e doidos varridos partilharam improvisados palcos de Lower East Side, naquilo que à distância me parece ter sido um dos momentos mais criativos e febris da história da música. Bandas formavam-se do dia para a noite, muitas vezes com elementos sem qualquer prévia experiência musical (como por exemplo a Kim Gordon ou, pasmem-se, a Madonna), mas influenciados pelas obras dos grandes compositores contemporâneos como John Cage e Steve Reich, o que tornava a experimentação e dissonância inevitáveis. Um espectáculo de loucura orgásmica seria de esperar e tive imenso prazer em descobrir (a posteriori, claro) a música dos The Contortions, DNA, Teenage Jesus and the Jerk, e paralelamente a obra de Lydia Lunch e Glenn Branca.

Sonic Youth (Photo by Chris Carroll/Corbis via Getty Images)

Métodos:
Bom, ao que interessa. A metodologia utilizada consistiu em:
1) escutar cuidadosamente a discografia completa dos Sonic Youth através do Spotify, dedicando 30 audições completas a cada um dos 16 álbuns de estúdio (incluído o EP homónimo).
2) Ir adicionando as músicas que achar relevantes numa playlist, intitulada SYP0. Escutar a playlist em modo shuffle de modo a relativizar a qualidade (uma música que possa ter gostado do Rather Ripped ao lado de uma do EVOL pode revelar-se menor, por exemplo) e colocar as que realmente são superiores numa segunda playlist, denominada sonic youth playlist 1, ou SYP1. Após este processo, inicia-se então a audição meticulosa desta segunda selecção, com o objectivo de repescar as verdadeiramente grandiosas, aglomerando-as numa terceira playlist chamada, sim, adivinharam, SYP2, que terá o máximo de 20 faixas.
3) Verificar-se-ão então quais os álbuns com mais músicas seleccionadas em cada playlist, atribuindo a cada música um valor de x na SYP0, x+1 na SYP1 e x+2 na SYP2. Isto é, quanto mais se avançar nas playlists maior será o valor atribuído a cada música. Haverá aqui uma limitação, aposto que já toparam… que é álbuns com maior número de faixas naturalmente têm maior probabilidade de terem maior número de músicas seleccionadas, a não ser que a diferença de qualidade entre os álbuns fosse vincada (não se supõe que o seja). A solução é determinar, dentro de cada álbum, a percentagem de faixas seleccionadas. Como vêem, não é fácil.

Reparem, não deixei de me sentir ridículo neste exercício de “listagem”, uma vez que não vejo, sinceramente, os álbuns dos Sonic Youth como ajuntamentos de músicas, umas melhores outras piores, mas sim como trabalhos em que cada faixa é uma expressão mais ou menos do mesmo, estrofes do mesmo poema, se me permitirem o mau gosto – não, não como álbuns-conceito, mas certamente também não como músicas em concurso de misses. Dito isto, e como já referi, pareceu-me esta ser a melhor maneira de eu próprio entender por que gosto tanto desta banda, e, com sorte, dá-la a conhecer em formato supositório a alguém que nunca lhes tenha prestado muita atenção. É inseri-lo a seco e ir às lágrimas.

Resultados:
SY0
O primeiro esforço de separação do trigo do joio resultou em 73 faixas recolhidas (de um total de 183). O disco com maior número de músicas seleccionadas nesta instância foi o Daydream Nation, o que não surpreenderá o fã hardcore. É um disco com bastantes músicas (14) e como tal acabou por ser superado a nível de percentagem de faixas seleccionadas por dois outros trabalhos: Sister e Murray St., com 64% e 86% de faixas consideradas muito boas, respectivamente, contra apenas 57% do Daydream. Imediatamente para trás ficou o The Eternal, onde apenas uma em doze faixas (8%) foi seleccionada. Poderemos concluir prematuramente que o último álbum da discografia dos Sonic Youth foi o seu pior. Mais adiante veremos se isso se concretizou.

SY1
Começou a complicar-se a escolha. Passaram-se meses de audição até eu poder digitar com alguma confiança os próximos números na tabela excel. De todos os discos, o único que manteve todas as faixas previamente seleccionadas foi o NYC Ghosts and Flowers, liderando agora a tabela percentual com 50% de selecção. Estabelece-se assim como um disco sólido, que não engana. Um outro álbum que manteve quase todas as faixas foi o Experimental Jet Set, Trash and No Star, uma obra curiosa e singela e, como se demonstra aqui, honesta. Os grandes perdedores aqui foram o Murray St. e o Bad Moon Rising, discos separados por 17 anos, e de que gosto muito por razões bem diferentes, passando ambos de seis para duas faixas. Apesar de ver a contagem reduzida para seis (de oito), Daydream Nation ganha preponderância percentual com uns imponentes 43% de selecção.

SY2
Chegado ao fim do desbastamento, concluí ser impossível manter apenas 20 faixas como as melhores dos Sonic Youth. Dois anos de audição obsessiva impediram-me de mencionar umas sem referir as outras. 20 é um número arbitrário; 23 é muito mais orgânico. Fiz o trabalho por vocês, seus mileniais de merda, aqui têm, 23, não precisam de andar a escaranfunchar as cassetes do vosso tio que chegou a ser agarrado nos anos 90; basta lerem este artigo.
Portanto, o disco com maior número de faixas seleccionadas foi, sem surpresas, o Daydream Nation, com 5 músicas (todas elas incríveis). No entanto, aquele com maior percentagem de faixas seleccionadas foi o NYC Ghosts and Flowers, com 38% (contra 36% do Daydream, mas contribuindo com apenas 3 músicas). Em terceiro lugar encontramos o Murray St. (29%). Dirty contribui com mais faixas (3), no entanto apenas 20% de selecção. Sister e Washing Machine fecham o top 6 com 18%. Sem grandes surpresas ou dúvidas, os certamente menos brilhantes Sonic Nurse e The Eternal acabam sem lugar nesta playlist, tal como o álbum de estreia Sonic Youth e o segundo Confusion is Sex. Curioso, ou talvez não, serem as primeiras e as últimas obras as menos boas do conjunto nova iorquino.

Discussão e conclusões:
Compreendo as limitações do meu estudo, sobretudo por dependerem do gosto individual e subjectivo de apenas um indivíduo – eu. Será, no entanto, o indivíduo que mais me interessa ouvir em relação a este assunto, pelo que me parece que o trabalho mantém a sua relevância. Uma outra limitação desta análise prende-se com o facto de que os discos com maior número de faixas acabam prejudicados a nível percentual, ao passo que aqueles mais comedidos em quantidade podem acabar por sobressair, como aconteceu com os álbuns do novo milénio, NYC e Murray st. Premeia-se assim a solidez do projecto, mas não estou certo de haver mérito nisto. Pergunto-me se não será o Dirty mais digno de um segundo lugar, dado o número elevado de músicas bestiais; Bad Moon Rising, Sister e Experimental talvez também tenham mais “sonicyouthismo” que os outros. Não posso deixar de olhar para estes números e pensar na evolução da obra desta banda como a vida de um pessoa, iniciada em 1982-3 com dois álbuns bem interessantes e repletos de potencial (Sonic Youth e Confusion is Sex) mas crus e pouco definidos, como a adolescência. Já mais dentro da década de 80 surgem o Bad moon Rising, Evol e Sister, estabelecendo a banda como coisa única, com a sua inconvencional mescla de punk e noise, num enquadramento negro e experimental, mas dotado de uma sensibilidade artística, erudita e por vezes quase pop. Chegados ao final da década, tal como o indivíduo que chega ao topo da sua criatividade e energia, entregam-nos de mão beijada o melhor álbum rock da história, Daydream Nation, cada música como que uma sinfonia punk rock, melodiosa e áspera, etérea e poderosa, um hino à juventude não convencional que mais tarde desembocou no grunge. A década de 90 trouxe os Sonic Youth para um lado menos negro e, talvez, ocasionalmente, mais pop, sem ignorar a nova onda de rock alternativo, mas sem fazerem mesmo parte dela, originando álbuns sólidos, com tendências jam e dificilmente criticáveis. Na mudança de milénio, apresentam então os discos que sugerem o topo da maturidade da banda ao mesmo tempo que transportaram os seus veios mais experimentais para projectos paralelos (SYR et al). Ao que se segue, do meu ponto de vista, uma certa perda de pujança e arrojo, talvez inevitável, dando a sensação de que se cansaram um bocado de tentar incorporar o noise e o dissonante numa estrutura rock, concentrando-se mais no formato canção, da mesma maneira que eu deixei a dada altura de beber café à noite, sem grande sucesso, continuando a dormir menos que o desejável por ter de acordar a meio da noite para urinar.

Por outro lado, não consegui cumprir o objectivo proposto no estudo, que é atribuir classificações às músicas no sentido de no final colocar por ordem quais as melhores. Não dá, e nem isso interessa. Ouçam a playlist em modo shuffle e vão para o caralho.

Mas sinto-me mais à vontade para listar os álbuns, com breves considerações, por ordem decrescente. Aqui vai:

16 – The Eternal – não pensem ser este um disco mau. Comparativamente com a esmagadora dos discos publicada no mesmo ano, é superior. Mas digamos que se entrevê uma certa apatia, um enveredar pela soluções aceitáveis, a ausência de riscos. Nesta fase os Sonic Youth abandonam o experimentalismo para se focarem na composição das suas músicas, com atenção cirúrgica ao diálogo entre guitarras. Podereis traulitar amargamente ao sabor de algumas das canções mas não vos mudará a vida.

15 – Confusion is Sex – por ter muitas faixas, foi tecnicamente o pior classificado, no entanto a sua importância para a definição da banda fez-me corrigi-lo para o penúltimo lugar. Nomeadamente a faixa “Kill Your Idols”, reverberando no wave por todos os poros, as guitarras a la Glenn Branca, o baixo ingénuo, contraintuitivo mas bastante interessante da Kim Gordon, a secura da bateria. Punk avant garde, que não dá para ouvir na véspera de natal com a vossa família de merda, mas que auspicia.

14 – Sonic Youth – EP, não LP, mas ainda assim incluído neste trabalho. Tem duas faixas super interessantes: “The Burning Spear” (um prenúncio da música-mote género “Teenage Riot”) e “I Dreamed I Dream”, Kim Gordon e a sua misteriosa voz evocando a poesia bad trip, etérea, onde os sonhos se misturam com a realidade, que tanto visitaram.

13 – Sonic Nurse – um disco redondo, bem produzido, melódico, na mesma onda do The Eternal. Não me toca no âmago, mas ouvi trezentas vezes na boa. A partir deste trabalho observamos como a voz da Kim deu o berro, passando de sensualmente dissonante para praticamente inaceitável.

12 – Rather Ripped – título meio horroroso, no entanto talvez o melhorzito pós Murray St. Em algumas das faixas entrevê-se um desejo de regressar a um som mais cru, como de resto o artwork sugere, ainda assim observamos o afastamento do noise e dissonância, desenvolvendo mais as texturas de guitarra. Whatever.

11 – Goo – o álbum que mais vendeu, talvez pela expectativa criada pelo antecessor, provavelmente pelo artwork (Raymond Pettitbon), seguramente pela música “Kool Thing”, single a conseguir encaixar na MTV. Considerado um álbum importante na história do rock, participando na abertura de portas aos Nirvana, parece-me ter menos genialidade que os abaixo. Mas tem uma faixa absolutamente brutal, “Titanium Expose”. “Tunic” também vale bem a pena.

10 – Bad Moon Rising – um disco para sempre no meu imaginário do que é a América. Feedbacks de guitarra, percussão tribal, ecos metálicos, objectos encontrados por Rauschenberg, reverberações de Charles Manson, insanidade e o Vale da Morte, Lydia Lunch, enfim, são coisas que aprecio.

9 – A Thousand Leaves – o primeiro disco gravado no estúdio da banda, resultando num som mais jam, entregue ao improviso, com faixas longas envoltas em névoa, o sol espreitando de vez em quando pela cortina de noise. Se um disco deste género fosse lançado hoje em dia teria de me beliscar para me certificar que não estava a sonhar.

8 – EVOL – o Neil Young chamou-lhe um clássico, portanto vão-se foder se não gostarem. Mas é um álbum estranho, para ouvir com algum receio, tal como a capa sugere. O terceiro da banda, mas o primeiro com o Steve Shelley. É sem dúvida o primeiro disco mesmo bom dos Sonic Youth, e onde se começou a ter a certeza de que estes tipos iriam criar uma obra extraordinária e diferente de tudo o resto.

7 – Experimental Jet Set, Trash And No Star – Depois do relativo sucesso comercial de Goo e Dirty, os SY parece terem decidido afirmar que não querem ter nada a ver com o que quer que seja popular ou hi-fi. Este é um disco misterioso, a meu ver, mas de que gosto muito. É estranho por ter distorção de guitarra, dissonância, rock and roll, e ainda assim ter a indesejada tranquilidade da agorafobia. Por vezes parece que há silêncios que se entrevêem entre os diversos instrumentos. As letras são bizarras, evocando preocupações feministas e de política de identidade, uma espécie de wokismo precoce, que o Thurston tanto curte. O Dave Chappelle não ia gostar.

6 – Washing Machine – Chegou a ser o meu disco preferido, um rock and roll mais intuitivo, e ao mesmo tempo mais solto. Neste a Kim trocou o baixo pela guitarra, resultando em texturas sonoras mais abertas. Primeiro álbum em que começaram a trocar a experimentação mais pura e dura pelo jamming com notas jazz.

5 – Sister – sinto que este disco faz a ponte entre os projectos anteriores, que ainda tacteavam os contornos da identidade dos Sonic Youth, e o que depois veio. Um disco brilhante, com faixas incríveis, continuando a explorar a negritude psicótica de contornos voláteis mas agora com uns toques mais pop capazes de fazer qualquer um cantarolar feito parvo pelas ruas “schizophrenia… is taking me home”

4 – Dirty – possivelmente o maior prejudicado pela metodologia utilizada aqui neste estudo por ser um disco com bastantes faixas. Sinceramente este é dos melhores e se calhar ainda vou alterar a metodologia toda desta merda para reintroduzir este como pertencente ao pódio. Meio caótico, este é um som com um rock and roll mais definido, menos arty que os da década de oitenta, como quem presta atenção ao fenómeno grunge mas nem por isso. Chega a ser quase divertido, poderoso, lancinante, rápido. Se nele ouvimos algumas frases de guitarra altamente catchy, que às vezes até soam a algo verdadeiramente pop, logo a seguir vem um balde de água electrificada. Reside aqui uma espécie de liberdade, a de fazer algo com a qual até podeis dançar com um sorriso idiótico na cara… ou deitar-vos a um canto após o chuto final.

3 – Murray St. – penso que será este o pináculo da maturidade dos Sonic Youth, em que cada música parece ter sido arranjada através de fórmulas matemáticas, o entendimento entre as guitarras de Lee Ranaldo e Thurston Moore como que de uma perfeição redonda e áspera, equilibradas com o brilhantismo do Jim O’Rourke, devidamente pontuadas pela certeza da bateria do Steve Shelley e do baixo da Kim, menos irreverente, mais preocupado. Ainda assim algum espaço para o improviso e celebração do noise, como na faixa “Karen Revisited”, pecando apenas por demasiado curta (11:10).

2 – NYC Ghosts & Flowers – após a década de noventa, na qual os Sonic Youth trocaram de certo modo o experimentalismo por um rock mais definido, mais ou menos atentos, ainda que subconscientemente, aos fenómenos grunge e alt rock, eis que (toda a gente sabe esta história) uns otários lhes roubam dezenas de guitarras e pedais que continham alterações insubstituíveis a nível das cordas, afinações, pick-ups, etc., que ajudaram a definir o seu som dessa dos últimos anos. Empurrados a recomeçar do zero, desenterraram instrumentos antigos, utilizaram de novo guitarras “preparadas” (alterações no timbre da guitarra por meio de introduzir objectos sobre ou entre as cordas, vide John Cage e o seu piano), no que resultou um regresso ao experimentalismo dos anos oitenta, mas com a maturidade dos 00. Um regresso às possibilidades infinitas que as guitarras eléctricas permitem, de certo modo abandonando o relativamente mais preguiçoso jamming e reencontrando algo mais marado, um noise dissonante mas envolto em líquido amniótico. De realçar ainda a homage à poesia beat e a participação do brilhante Rafael Toral, português que texturizou os mais belos segmentos do “Renegade Princess”.

1 – Daydream Nation – não é surpreendente uma banda séria editar o seu melhor trabalho sete oito anos após se terem juntado, mas sim, após terem criado aquele que é evidentemente o melhor disco rock de todos os tempos, uma obra absolutamente genial e única, os Sonic Youth terem continuado a mandar discos uns atrás dos outros no inacreditável período de duas décadas, como se depois de uma obra desta grandeza valesse a pena tentar algo mais… Daydream Nation é, digamos, todo o potencial dos Sonic Youth, é a sublimação do movimento no wave, um ponto final e virar de página, é a voz de todos os amantes das guitarras eléctricas que não curtem o verse-chorus-verse do costume, é punk erudito, é speed metal incoerente, é abrasão e poesia, é sonho e pesadelo, é esperança no futuro sabendo que nada vai mudar. Não quero ter nada a ver com pessoas que não entendam isto.

Últimas considerações:
Tendo em conta os trabalhos pós-Sonic Youth apresentados por cada membro criativo da banda (Kim Gordon inaudível, Lee Ranaldo meio aborrecido, mas Thurston Moore melhor que The Eternal et al), cheguei a perguntar-me se talvez, durante todo este tempo, a faísca geradora de brilhantismo desta banda se resumia basicamente ao Thurston. Se por um lado é verdade que 63% das faixas de todos os álbuns são cantadas por ele, e podendo presumir que canta quem compôs a estrutura da canção, por outro, e isto é interessante, na lista final a sua autoria resume-se a apenas 45%. A Kim tem 33% e o Lee 21%. Tal como com os Beatles, parece-me evidente que o efeito colaborativo trouxe o melhor de cada um e terei dias em que me parecerá evidente que o membro mais valioso do quarteto foi a Kim Gordon, com a sua capacidade estranha de cantar 1/4 de tom abaixo e de tornar uma peça interessante com as suas inesperadas e minimalistas notas de baixo.
É curioso que durante todas estas décadas não tenham surgido bandas mais evidentemente inspiradas por Sonic Youth, nem sequer tentativas de imitação fatela (embora a sua influência nos Mão Morta seja palpável). Isto talvez terá mudado nos últimos anos com as bandas inglesas Black Country New Road, Dry Cleaning, black midi, música verdadeiramente interessante a contradizer a ideia de que o rock se esgotou.

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