Girls 96, dupla de Paloma Moniz e Ricardo Gonçalves, marcou presença na Casa Andante, programação mensal da Cuca Monga, na Musa de Marvila. Foi com um concerto cool, feliz, ritmado e com laivos nostálgicos.
Como foreshadow, percebemos agora, momentos antes do concerto começar, as colunas da Musa começaram a tocar o “Kiss Me” dos Sixpence None the Richer, uber clássico dos anos 90. Foi tão aleatório (achámos nós, mal) que demorámos a perceber que tinha sido intencional.
Contudo, continuando com o sentimento de foreshadow do que para aí vinha, constatamos agora que a escolha é bem indicativa do espírito da banda (e consequente gen z): nunca se percebe totalmente se estão a brincar ou a sentir tudo de forma muito séria. Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo.
O duo foi passando pelos temas do EP 1996, mas também tocando músicas do novo álbum, prometido para breve. Ao vivo, as músicas ganham outra textura: electrónica ritmada, sintetizadores românticos e uma estética que remete para o passado sem cair na nostalgia preguiçosa. Ouvimos uns quantos “és um gostoso” ou “estás bué bonita”. Não será exagerado afirmar que o público estava a adorar o concerto.
“Circos” foi um dos êxitos da noite, confirmando o entusiamo do público, pela maneira como se irromperam de gritos e assobios de contentamento.
Em palco, a cumplicidade entre os dois é evidente. Há uma ligação descontraída, quase nonchalant (ou até mesmo blasé, como eles dizem no seu bandcamp). Paloma, sempre de óculos escuros, cheia de estilo e Ricardo com o seu hoodie subido para cima, perdido entre as músicas, ambos muito confortáveis na sua própria pele e com uma fluidez notável.
Houve espaço para apresentações e agradecimentos a Frederico Castanho e Beija-Flor, produtores do EP, antes de arrancarem com “Ainda Importa”. A resposta foi imediata: gritos, corpos a dançar, dezenas de pessoas a filmar cada segundo, claramente a funcionar como ponto forte de união entre banda e público.
Mas um dos momentos mais curiosos da noite surgiu com a cover de “Somewhere Only We Know”, dos Keane. Ora, os demais que me perdoem, mas esta música é um bocado pirosa (desculpa, Rui Gato, fã do original), e já o era na altura do seu lançamento (2004). Contudo, contudo… o refrão foi cantado em coro absoluto por uma plateia demasiado nova para ter vivido verdadeiramente o auge da canção, e ainda assim completamente entregue ao dramatismo da coisa (talvez por isso mesmo? Talvez seja possível fazer um paralelismo entre o sentimento de nostalgia que a gen z tem com o início dos anos 2000, como os millennials têm pelos anos 90. Talvez). Mas a verdade é que, para mim, a versão dos Girl 96 superou o original. Quem diria (eu).
O concerto terminou em clima de celebração, com direito a encore, após vários momentos de insistência do público (“só mais uma! Só mais uma!”), ao que a banda respondeu meio incrédula “a sério? obrigada, a sério” (very cute). E o que é que eles escolheram para música final? Uma cover de outro grande hit dos anos 2000, a “Thank You”, da Dido.
Confesso que continuo sem perceber se isto é apenas nostalgia normal de gerações, se é irónico, mas tendo mais para o sentimento sincero. E sim, o público adorou e cantou com os pulmões bem cheios.
Fotografias de Rui Gato














