Da novidade de Angine de Poitrine à veterania de Interpol e Grace Jones, o Meo Kalorama 2026 começou bem, apesar de ter sofrido de algumas das questões que têm vindo a caracterizar o festival.
Desde há uns anos (com excepção do ano passado) que o Kalorama se tem afirmado como a despedida do nosso Verão, o último festival da temporada. Este ano não é diferente e com a recente descida de temperatura, esperávamos que o festival fizesse jus ao nome e nos aquecesse um bocadinho. Como sempre, o Parque da Bela Vista foi intervencionado artisticamente, com esculturas e ilustrações de Diogo Aguiar Studio e Leonor Violeta.
Quando chegámos ao recinto, já estavam as Folk Bitch Trio a encantar o vale do Parque da Bela Vista. Com o seu disco de estreia ainda fresco, as australianas exibiram aquilo que sabem fazer melhor: guitarras sussurrantes e harmonias celestiais, perfeitas para embalar o nosso final de tarde e dar as boas vindas às pessoas que ainda estavam a chegar ao festival.
Mais acima, a banda de Anna Von Hausswolff começava a aquecer. Os arpejos atmosféricos de saxofone e as investidas do baixo elétrico criavam a paisagem sobre a qual a chanteuse maudite da Suécia invocaria demónios. Iconoclasts, lançado no final do ano passado, é um álbum com texturas menos abrasivas do que o trabalho anterior da organista, apropriado para um concerto de final de tarde de festival. Ainda assim, há uma certa tensão na sua música e na maneira como a sua voz poderosa se ergue sobre o teatro gótico encenado pela sua banda. O tom épico das suas músicas deixou-nos fatigados mas satisfeitos quando o concerto acabou.

De volta ao palco principal, uma nave-mãe às bolinhas aterrou. Perante um público a fervilhar de expectativa, os Angine de Poitrine subiram ao palco e… começaram a afinar os seus instrumentos. Anticlimático. Estávamos à espera que entrassem já prontos e já a tocar, como se os instrumentos fossem extensões das suas personagens de outro mundo. Perdeu-se um pouco da mística mas avancemos. Instrumentos afinados, os alienígenas viraram-se para o público, fizeram um sinal e o Parque da Bela Vista respondeu fazendo triângulos com as mãos. A invasão foi bem sucedida. O duo canadiano, que tanto alvoroço causou nas redes sociais, não perdeu tempo em disparar riffs microtonais e quebrados para um público extasiado. Entre músicas houve momentos para interações humorísticas, fruto dos efeitos de voz de ambos os músicos, com arrufos, mal entendidos e muita linguagem gestual. Angine de Poitrine vendem bem a sua estética pontilhista, e é bizarro ver uma banda com música tão estranha ter esse controlo sobre o público naturalmente heterogéneo de um festival. Se é sintomático do poder da banda ou do hype que conseguiram gerar, a verdade é que deram um grande concerto.

Para quem ainda tinha sede de psicadelismo, teria apenas de subir para o palco Sagres para ser transportado para o mundo de Melody’s Echo Chamber. O projeto de Melody Prochet tem ganho vida ao longo dos últimos anos, provando que a sua visão vai para lá da estética revivalista com que Kevin Parker imbuiu o seu disco de estreia. Ainda assim, a artista sabia para o que é que o público vinha, sendo que o alinhamento consistiu maioritariamente em músicas desse disco, assim como do mais recente Unclouded. A banda conseguiu emular perfeitamente as texturas ricas dos discos, trazendo alguma agressão e energia à sonoridade geralmente mais relaxada da música de Prochet. Com um céu de fim de dia a pintar o ambiente do palco Sagres das cores do seu disco homónimo, pareceu-nos que a envolvência estava perfeita para receber Melody, por quem parece que o tempo não passou. Grávida e num belíssimo vestido azul, conseguiu ser diva etérea e front woman roqueira em medidas iguais. “Crystallized”, “Snowcapped Andes Crash”, “Bisou Magique” e “I Follow You” fizeram as delícias dos fãs mais old-school (alguém segurava orgulhosamente um vinil do disco de estreia na primeira fila) mas pareceram não convencer o restante público menos conhecedor, que preferiu conversar.

Já devidamente saciados de rock, voltámos a descer o vale. Que bom que é podermos ver um nome português num horário já de noite e com a plateia bem composta. É verdade que esse nome é MARO, talvez a nossa artista mais internacional de momento, mas não deixa de nos aquecer o coração ver a “nossa” MARO a preencher tão bem o palco principal do Kalorama. Acompanhada por uma ótima banda, abriu com canções do fresquinho SO MUCH HAS CHANGED. “KISS ME” despertou algum entusiasmo na plateia e, tentando aproveitar essa energia, MARO envolveu o público na canção seguinte, dirigindo o público para cantar harmonias no refrão de “IT AIN’T OVER”. Sempre simpática e terra-a-terra, pediu depois licença para tocar canções mais antigas – com certeza, pensámos, é para isso que cá estamos. No entanto, tivemos pena de não ouvir canções de Hortelã, de 2023. Concertos em festivais nem sempre são fáceis e é possível que MARO tenha sido prejudicada pela grande mistura de sonoridades e de públicos no primeiro dia do Kalorama. Apesar de ter demonstrado uma presença descontraída e carismática em palco, ficámos com a ideia que nem mesmo com “FEELING SO NICE”, mais dançável, MARO conseguiu agregar totalmente o público à sua volta como estamos certos que faz em concertos em nome próprio.

Os Interpol, o nome seguinte no palco MEO, nunca foram conhecidos por serem uma banda particularmente entusiasmante ao vivo e a performance no MEO Kalorama não contrariou muito essa noção. Com um disco acabado de sair na mala (This Mirror Weights a Ton saiu no dia do concerto), a banda veterana do indie novaiorquino dos anos 2000 foi, como já esperávamos, irrepreensível e bem oleada, entregando um competente concerto de meio de carreira, onde as canções novas foram muito bem equilibradas com os hits de sempre. Tirando as fresquinhas, “All The Rage Back Home” foi a única que ouvimos dos álbuns mais recentes, tendo o concerto sido dominado pelo excelente duo Turn On The Bright Lights e Antics. Foi ótimo voltar a ouvir “Evil”, “Obstacle 1” e “PDA” e verificar que os Interpol continuam em boa forma. Ainda assim, e embora o concerto tenha superado as nossas expectativas, não foi suficiente para aquecer a noite que se tinha posto fria. Ficámos com vontade de ir ouvir o novo disco da banda americana, sim, mas em casa.

Apesar do cansaço do dia de semana já pesar, não podíamos ir embora sem subir até ao palco Sagres para prestar um indispensável tributo à rainha Grace Jones. Já com 78 anos, a diva Jamaicana chegou 15 minutos atrasada mas deu um concerto com mais verve e espontaneidade que o resto dos artistas do festival. Com uma elaborada máscara dourada e elevada teatralidade, a cantora abriu o concerto com “Nightclubbing”, mais do que um hino, uma chamada às armas para que não restassem dúvidas de que estávamos ali para dançar. É uma pena, no entanto, que Grace Jones tenha sido relegada para o palco secundário. O seu carisma e a sua capacidade para se rir de si mesma deram ao concerto uma atmosfera descontraída entre canções, num alinhamento que, apesar de curto e talvez por esta mesma razão, incluiu apenas êxitos de vinte e quatro quilates. “My Jamaican Guy”, “Demolition Man” e até “Amazing Grace” foram acompanhadas de mudanças de visual e coreografias que fizeram as delícias do público. O concerto acabou, como não podia deixar de ser, com a contagiante “Slave to the Rhythm” que Jones usou para apresentar a sua excelente banda.

O MEO Kalorama continua a ter no anfiteatro natural do parque da Bela Vista o seu maior trunfo, permitindo criar um recinto agradável, espaçoso, próximo da natureza e onde a música ocupa o lugar de destaque. O facto de os dois palcos principais não terem sobreposições também é de saudar, pelo menos em teoria, permitindo que todos possam aproveitar todo o cartaz. Esta decisão traz, no entanto, dois problemas que se fizeram sentir no primeiro dia da edição de 2026 e que impediram que este fosse perfeito. Em primeiro lugar, se não há sobreposições, significa que os concertos devem começar cedo e acabar tarde e a escolha da ordem das bandas é importante. Nesse campo foram feitos alguns erros – Angine de Poitrine mereciam um horário mais tardio e Robbie Williams começar o seu concerto à 1h20 pareceu-nos demasiado tarde. Em segundo lugar, é importante dar alternativas a públicos muito diferentes. Quem foi ao primeiro dia do Kalorama ver Robbie Williams não terá tido muito interesse em ver Angine de Poitrine ou Interpol – e isto foi visivel na quantidade de pessoas sentadas durante as atuações destes nomes grandes no cartaz. Ao mesmo tempo, encher plateias com audiências que não conhecem e que tendencialmente não vão vibrar com as bandas que não são aquelas que os fizeram comprar o bilhete só vai dificultar a vida dos artistas e tornar os concertos mais mornos. Saltos, moches e coros são substituídos por conversas e por movimentações incomodativas para ir comer e/ou beber. É pena, até porque todos os nomes do cartaz na sexta-feira eram excelentes e mereciam atenção. Vejamos o que os próximos dias nos trazem.
Texto de Ana Lúcia Tiago e Miguel Moura
Fotos de Inês Silva









