Guitarras acústicas e flamencas e uma voz quente fazem hortelã, um álbum de honestidade bruta e de conclusões para novos começos.
hortelã é um disco belíssimo. É tão coeso, tão fresco, mesmo passados três anos do seu lançamento. Volto sempre a ele e sou sempre surpreendida pela sua maravilha. Pela sua simplicidade arrebatadora.
Antes de participar na Eurovisão em 2022, MARO já tinha editado cinco discos de forma independente e levava uma vida entre Portugal e os EUA. hortelã, o seu sétimo longa-duração, que sucede a can you see me? (2022), foi feito ao longo de um período particularmente difícil da vida da artista e veio encerrar um ciclo, encapsulando os sentimentos profundos que espoletou e abrir caminho ao recomeço e a novas etapas. Gravado em Barcelona, foi produzido pelos guitarristas Darío Barroso e Pau Figueres, a par da multi-instrumentista.
A sua voz seca e quente abre o álbum sem rodeios: canta sobre vulnerabilidade e reciprocidade em “oxalá”. Letras honestas assim não precisam de grandes floreados ou arranjos — basta a sinceridade que carregam e as confissões que fazem. MARO não se incomoda com o dar a conhecer as suas inseguranças (que são as de todos nós, mas que ninguém tem a coragem de admitir). As guitarras, maravilhosas, constroem uma melodia simples, mas que nos agarra desde o primeiro minuto e nos convence a ouvir o disco até ao fim com a maior atenção. “Ai, se eu não fosse esperança dos pés à cabeça” é uma frase muito bonita; será ingenuidade jovem ou uma visão fresca da vida que devíamos tentar manter para lá dos trinta?
Com “fui passo calculado”, cuja melodia tem o seu quê de Kings of Convenience, concluímos que, musicalmente, o disco é bastante homogéneo, mas é tão doce a sonoridade que ninguém se importa. Mesmo nos seus tempos mais tristes, parece que a confiança na sua voz e a calma no seu timbre nos garantem que é certo que tudo ficará melhor e MARO fala consigo própria como se tivesse alguma sabedoria futura para se auto-confortar.
As insónias de um coração partido de “em porta trancada” trazem-nos, sem novidade, uma letra muito sincera, sobre a vontade de protagonizarmos a atenção alheia, porque, para o bem e para o mal, dependemos fortemente uns dos outros, das coisas que os outros sentem por nós. As lutas que temos connosco próprios sobre as nossas ações e os sentimentos que preferíamos esconder do mundo são discutidas em “há-de sarar”, “juro que vi flores” é partilhada com Sílvia Pérez Cruz e a bonita “something bout tomorrow” fala do desejo de reset sempre que nos fartamos dos hábitos repetidos e das conclusões que não nos levam a lado nenhum. O sol nascerá novamente e teremos novas oportunidades para reinventarmos os nossos erros – ad eternum.
Uma das letras mais bonitas do disco pertence a “tens morada em mim”, uma autêntica confissão sobre a parte de nós que guardamos do resto do mundo mas que, quando amamos, queremos que deixem de ser mistérios só nossos, esperando do outro lado aceitação incondicional. “hortelã”, que dá nome ao disco e também o termina, é um poema muito bonito sobre amor sentido e muito verdadeiro, ao nível da devoção.
MARO não nos esconde nada em hortelã. É um disco sobre o peso da existência, sobre a insustentável leveza do ser, que vem marcar uma cisão com tempos passados e declarar abertura para novos começos. A artista admitiu que este era um projecto isolado e, agora que conhecemos SO MUCH HAS CHANGED (2026), percebemos que talvez haja aqui mesmo um trabalho único na sua discografia, infelizmente (e não descurando o último disco) para todos os que beberam as letras em português e as melodias doces como se fossem água fresca num dia quente.
Nas dez faixas que compõem o disco, MARO transforma a dor em poemas que carregam tanto de vulnerabilidade como de encanto. Entre confissões inseguras e insónias de um coração partido, lutas interiores e devoção, a sonoridade do disco é coesa e familiar, enquanto inova na maior simplicidade.