São o mais recente fenómeno da internet. Em Vol. II, os Angine de Poitrine não pretendem reinventar a roda microtonal. Há, nas suas seis canções, um groove bastante imediato, que impede a música de se perder na sua própria complexidade — e uma estranha sensação de verdade humana.
Os Angine de Poitrine são um duo de math-rock do Quebeque, que se apresenta como uma “Orquestra de Mantra-Rock Dadaísta Pitagórico-Cubista”. Dito assim não se percebe grande coisa, mas eu ajudo: há neles repetição hipnótica (Mantra-Rock), um lado performativo de cariz absurdista (Dadaísmo) e uma base rítmica e estrutural altamente matemática (ao nível da hipotenusa de Pitágoras), com fragmentações geometrizadas de sonoridade (Cubismo). Dizem ter 333 anos, vivem dentro de um padrão às bolinhas, não falam a nossa língua, mas fazem triângulos com as mãos. Enquanto banda, existem há alguns anos, mas foi a sessão para a KEXP que os projetou para fora do seu nicho. O vídeo viralizou e a sua caixa de comentários rapidamente se transformou num prolongamento do fenómeno:
“Finally, the perfect sound to go with six coffees.”
“After watching this I’m now fluent in 22 languages that don’t exist.”
“My autism is now microtonal optimism.”
“I started off confused, then became happy, and now I’m triangle.”
“Fuck mars. I’m staying.”
…
No ecrã, duas figuras de proporções indecifráveis cobertas de bolinhas brancas e pretas, ou pretas e brancas, não sei bem — “I tried to connect the dots but the dots connected me”. Máscaras de papel mastigado, um chapéu em forma de prisma invertido, uma cabeça ovoide com olhinhos a espreitar pela boca, um nariz grande e rígido, outro espalmado e solto, que abana sem qualquer coordenação — “When the nose is floppin’ the drums are rockin’”. À primeira vista, tudo parece deslocado. Ainda assim, nada ali me causa rejeição. Pelo contrário.
Tento concentrar-me na música quando percebo que já estou dentro dela. É groovy. É funky. É desafinado? A guitarra e o baixo têm mais trastes do que o habitual, operando numa lógica microtonal pouco familiar ao ouvido. É rock. É intenso, tecnicamente exigente. É improviso? Não são os compassos que estão fora de tempo, é o tempo que muitas vezes é ímpar. E mesmo isso parece estar demasiado certo para ser acaso. Existe um controlo rigoroso por baixo da aparente irregularidade. É caos com intenção – “It’s crazy how they can sound exactly like they look”. É absurdo e, inesperadamente, confortável.
Pela internet, multiplicaram-se as opiniões. Lovers e haters tentam compreender porque é que os Angine de Poitrine irromperam de forma tão súbita – “I did not expect to watch the entire thing. But neither did you”. Eu própria me debruço sobre o assunto, durante a segunda audição consecutiva de Vol. II, acabadinho de sair, sem me passar pela cabeça mudar para algo aparentemente mais confortável. Sou claramente lover, mas continuo meio que perplexa. Até o meu algoritmo é só bolinhas, como é que ainda não me cansei disto? – “They didn’t break the internet, they fixed it”.
As primeiras palavras que me vêm à cabeça são claramente talento e estranheza. Há uma bateria hipnotizante a sustentar ritmos precisos e complexos, que são repetitivos sem ser. A guitarra, que também é baixo, tocados por uma espécie de humano com uma destreza absurda nos dedos das mãos. E dos pés. Também eles camuflados de bolinhas a disparar loops, a acrescentar camadas, carregando em dezenas de pedais ao mesmo tempo e sem nunca se desequilibrarem – “The guitarist’s foot is basically the third member of the band”. É certo que Vol. II é composto por apenas seis temas que não reinventam a roda microtonal, nem colocam os Angine de Poitrine acima dos seus pares dentro do género. (Caminhos semelhantes já terão sido trilhados pelos King Gizzard & the Lizard Wizard ou pelos Battles, mas o que é a arte senão o resultado de tudo o que nos inspirou?). Mas também é um daqueles discos que é mais do que a soma das suas partes. Muito disso se deve à forma como se apresentam visualmente, sem dúvida. Mas não só. Há um groove imediato, bastante físico, que impede a música de se perder na sua própria complexidade.
E se o Dadaísmo surgiu como resposta à guerra e ao peso esmagador da vida moderna, esta versão atual do duo canadiano pode ser vista de forma semelhante. Talvez seja um exagero dizer que os Angine de Poitrine são o antídoto para os tempos conturbados que vivemos – “Crazy how this is the most human thing I’ve seen this year” –, ou uma cura para a avalanche de música gerada por inteligência artificial. Mas existe um conforto evidente na forma como esta geração de ouvintes parece preferi-los a alternativas mais polidas e higienizadas. Cresce o apetite pelo que escapa ao lógico. A estranheza, essa, continua a ser profundamente humana – “Eat this, AI!”.
Sucessos como este fazem bem a quem gosta de música. Fazem-nos questionar, sentir coisas diferentes e nelas reconhecer qualquer coisa bastante verdadeira. “Sure, I’ll join this cult!”.
* todas as frases entre aspas são comentários retirados do video “Angine de Poitrine – Full Performance (Live on KEXP)”, abaixo