A consagração de uma lenda viva: Djavanear voltou a ser um verbo transatlântico e o gatilho perfeito para uma bela noite de música popular brasileira.
Era ainda adolescente quando vi Djavan ao vivo pela primeira vez. Aliás, o meu primeiro concerto foi o da apresentação, em Lisboa, do álbum Lilás, registo de enorme sucesso na discografia do músico de Alagoas. Lembro-me tão bem de tudo, que os mais de quarenta anos, entretanto passados, pouco mais parecem do que um ápice, um súbito soluço de tempo que passou em correria desenfreada. Entretanto, sempre que Djavan pisava palcos lusos, lá estava eu, disposto a inquietar-me com ele, com as suas canções, o seu jeito tão émepêbê sem ser exatamente émepêbê, porque nos seus enredos sonoros houve sempre de tudo, desde a música nordestina, passando pelo jazz, blues, a pop mais descarada e orelhuda, tudo isso sem um único vinco ou nódoa que pudesse manchar o prestígio da sua música. Claro que teve momentos de maior inspiração, como teve outros em que esse estro não surgiu tão límpido e burilado. É assim com todos, até com os génios, e foi nesse campeonato que Djavan nunca deixou de jogar. No domingo passado, o MEO Arena engalanou-se de gente e de vontade para ouvir os sucessos maiores de uma carreira já com mais de cinco décadas. E eu, por momentos, voltei a ser o adolescente de rosto espantado, de sorriso largo e de lágrima premente, que só por algum qualquer travão emocional não se fez notar ainda mais, nessa imensa e comovida felicidade.
Celebrar meio século de uma carreira tão singular e influente não é uma tarefa para qualquer artista. Contudo, Djavan nunca foi um artista qualquer, pelo que ao subir ao palco do MEO Arena para o espetáculo da digressão global Djavanear 50 anos, Só Sucessos, o grande mestre alagoano confirmou precisamente o que a sua vasta e sólida trajetória tem ditado ao longo deste ano, súmula dos cinquenta que carrega consigo, artisticamente falando. E, como se esperava, a sua música permanece absolutamente intemporal. Jovem, fresca, solta e apenas datada “pela emoção”.
O concerto foi, todo ele, magnético. Quando as luzes da sala se apagaram e a fabulosa banda de apoio assumiu os primeiros compassos instrumentais, a atmosfera do recinto transformou-se. Ao surgir em palco assim que se escutaram os acordes iniciais de “Sina”, o cantor percebeu que Lisboa era a sua casa, que não havia segredos entre ele e os portugueses e brasileiros à sua frente. Todos o conheciam bem, estava entre amigos de sons e de afetos. O alinhamento, inteiramente autoral e focado nas cinco décadas de histórias partilhadas com o seu público, avançou sem dar tréguas à nostalgia. Ouviram-se tantos clássicos avassaladores, que canções como “Sina”, “Eu Te Devoro”, “Boa Noite”, “Cigano”, “Meu Bem Querer”, “Açaí”, “Pétala”, “Seduzir”, “Samurai” ou “Lilás” foram mais do que suficientes para elevar o público aos mais altos promontórios das suas memórias e sensibilidades. São canções com história, que fazem parte da história da vida de muita gente, incluindo-me eu, naturalmente, nessa vasta geografia humana e emocional. Em homenagem ao músico e amigo David Sanborn, falecido em 2024, Djavan incluiu no show o bonito e saudoso tema “Quase de Manhã”, que nunca havia cantado antes, e que pertence ao injustamente esquecido álbum Meu Lado, de 1986. A voz de Djavan já não será exatamente a mesma de outros tempos, mas a elegância vocal e o requinte melódico que definem a sua assinatura artística, essas permanecem intactas.
Só Djavan tem a capacidade técnica de fundir o groove do samba, as harmonias complexas do jazz e o apelo universal da pop. Em palco, exibe uma agilidade invejável, alcançando um registo de uma naturalidade desconcertante. A cenografia minimalista e profundamente poética, inspirada nas obras de Cândido Portinari, Athos Bulcão, Walter Firmo e Vik Muniz, entre tantos outros artistas mais contemporâneos, confere uma moldura visual geométrica e sofisticada que amplia, de certa forma, o impacto de algumas das canções apresentadas.
Foi uma noite de múltiplas catarses. O coro uníssono de milhares de vozes lisboetas cantando cada verso de tantas canções preencheram o espaço num momento de pura comunhão transatlântica. Logo após a calmaria acústica (onde talvez a catarse tenha sido maior e mais sentida), a banda regressou com uma energia contagiante para arrastar o público a dançar com o balanço irresistível das já mencionadas “Samurai” e “Lilás”. No encore, uma surpresa para todos. Subiu ao palco a nossa Mariza, que cantou com Djavan o tema “Um Amor Puro”. Não foi sublime, é um facto, mas resultou de maneira agradável. Já mesmo perto do final, o regresso ao tema “Sina” fechou o espetáculo em apoteose festiva.
Mais do que uma simples retrospetiva de catálogo, o concerto provou ser uma celebração vibrante da vida e da linguagem poética da Música Popular Brasileira, tenha ela as nuances que tiver. Para mim, como tantas vezes disse, é a melhor música popular do mundo. E Djavan, aos 77 anos, não se limitou, no domingo, a replicar os seus êxitos passados. Reinventou-os e partilhou-os com a generosidade costumeira. Por isso, por tudo o que disse e por tudo o que (re)vivi na mágica noite de há dias, fui testemunha, não apenas de um desfilar de hinos geracionais, mas principalmente da consagração definitiva de um dos maiores génios vivos da música cantada em língua portuguesa. Djavanear ganhou, há muito, um estatuto tão transcendente, quanto eterno. Já não é mais um simples verbo inventado que derivou de um outro também inventado por ele (“caetanear”). É outra coisa, ainda sem nome e sem lugar onde existir.
Uma nota sentimental de despedida, em jeito de rodapé: usei propositadamente, neste já longo texto, as expressões transatlântico e transatlântica, não apenas por fazerem justiça ao que pretendia afirmar, mas sobretudo como homenagem ao recentemente falecido ator brasileiro João Signorelli, bom amigo destes últimos anos, com quem, entre tantos outros assuntos, falava de literatura, de música e de artistas do nosso agrado, como Djavan, por exemplo. Era sempre com um abraço transatlântico que nos despedíamos. Hoje voltou a ser assim, embora apenas no meu coração. Descansa em paz, João, que a nossa transatlântica amizade permanece vigorosa e intacta!
Fotografias de Felipe Kido






















