As Mães Solteiras foram apresentar o seu segundo álbum (em um ano) ao Clube B.Leza e deram uma lição de auto-reflexão sobre qual é, afinal, o papel de todos nós neste mundo em que parece que está tudo ao contrário.
Imaginem entrar no B.Leza e a primeira coisa que ouvimos de quem está no palco é: “Quem é que já chorou na sanita?”. É, com certeza, uma primeira impressão digna de ficar na memória. O artista em palco é o Bonança (Ricardo Barroso) que ficou a cargo de fazer a primeira parte para este concerto dos Mães Solteiras. Melhor que isto só mesmo a resposta das pessoas que estavam ao pé de mim: “quando vomitas [na sanita], choras um bocadinho”. Ri-me.
Mas, continuando, Bonança, apesar de não ter um som “tipicamente punk” (eu sei, punk é tanta coisa, mas vá lá, não há as guitarradas, nem os pedais ou baterias rápidas), com a sua voz grave e desgarrada e a sua guitarra, apresentou músicas do seu mais recente álbum (só de 2026), com uma atitude levemente despreocupada, mas não por isso menos intensa ou intencional, confirmando uma escolha interessante para este concerto.
Quando as Mães Solteiras subiram ao palco, foi notório o entusiasmo da plateia que encheu o B.Leza para os ver e ouvir. O que se seguiu foi a apresentação do seu segundo álbum em apenas um ano, Puxa-vida e, como eles próprios o dizem, trata-se “uma colecção de 13 desabafos para gritarmos juntos”.
A banda criou, ao longo da noite, um espaço de comunhão com plateia, com energia a ser criada e transformada durante todo o concerto, todos a darem o que tinham dentro de si. Para além de música, Quim Albergaria foi intercalando as canções com pequenos interlúdios de auto-reflexão.
A pergunta tem vindo a ser imposta, às vezes de forma mais subtil, outras vezes mais abrutalhada: será que conseguimos sair da nossa bolha de indignação sobre o que se anda a passar à nossa volta (e em nós), e, efectivamente, fazer alguma coisa que estoure? Outra coisa que também tem andado a ser reflectida (e bem) pela banda, é partilhar a dor de saber que o seu discurso está virado para as pessoas que já o sabem (e concordam), pois então, como chegar às pessoas que não fazem parte desta comunidade?
É reconhecido que a música tem um papel fundamental na aproximação de comunidades, e o seu potencial de disrupção e intervenção, no meio em que se insere. O dito “punk” tem na sua génese esta ideia de cortar com o que é o “mainstream” e apresentar ideias que se pretendem ser contra-corrente ao sistema estabelecido. Contudo, quando começamos a ouvir e a entender as letras que a banda de Quim Albergaria, André Henriques, Pedro “Gaza” Cobrado e Ricardo Martins, apresentam, temos alguma dificuldade em perceber como é que isto não são as ditas verdades universais. Vejamos a letra de “Puxa-vida”, das primeiras músicas a ser tocada: “Sobe a gasolina, puxa-vida, Sobe a nossa prestação, puxa-vida, Sobem os lucros dos gigantes, puxa-vida, Estúpido, é a inflacção”. Quem é que, neste momento, não anda a sentir isto na pele?
Nada disto parece ser mega disruptivo, diria que a maioria da população se revê nestas linhas. Contudo, vivemos tempos complicados (como disse, recentemente, o Cobramor: “Vivemos entre a sobrevivência e a depressão”).
O alinhamento do concerto foi alternando com músicas novas e as mais antigas, com alguns claros êxitos do primeiro disco Vamos Ser Breves como “Sala de Espera” e “Recursos Humanos”.
Em todo o caso, no meio da reflexão precisa e necessária, houve espaço para mostrar que isto não precisa de ser aborrecido ou inatingível. Entre muitos saltos, gritos, coros afinados, foi criado um sentimento de pertença muito forte e com isso um sentimento que reconforta: não estamos sozinhos e em conjunto conseguiremos mais.
Esta auto-reflexão também passou, a certa altura, pelo próprio Quim Albergaria dizer algo como “[estamos a] pregar para as ovelhas das boas [quem assistia], temos é que ir para a rua falar com o pessoal zangado e que discorda de nós”. E esse é o grande desafio para todos nós – como é que se chega à fala com alguém que discorda fundamentalmente dos ideais que nos fazem mover para a frente? Não sei, penso que quem assistia, apesar de concordar efusivamente, também não sabe. Já perto do fim do concerto, surge aquilo que parece resumir a noite: «A pergunta de hoje é simples: porque é que a gente não se junta?» A resposta vem com os primeiros acordes de «Junta», que promete tornar-se um belo hino.
As Mães Solteiras deram um grande concerto, a verdade é essa. Porque entre o punk rock e hardcore das suas músicas, conseguiram ter uma profundidade e capacidade de auto-reflexão que é refrescante.
Fotografias de Hugo Amaral



















