Depois de tantos e tão bons embalos populares, Gilberto Gil assumiu a erudição numa ópera-canção, e abriu-se-nos o espírito de espanto!
Este texto começa com uma breve confissão – estávamos apreensivos com o que íamos assistir. Ao longo de várias décadas, foram muitos os concertos de Gilberto Gil a que assistimos. Com banda, sem banda (voz e violão), em nome próprio ou partilhando o palco com outros grandes nomes da mpb, em salas distintas do nosso país, mas também ao ar livre. Todo esse extenso universo de apresentações entrou-nos pelos olhos, boca, narinas e orelhas, e por isso nunca estranhámos a sua presença. Em todos esses momentos, nunca tivemos dúvidas acerca do que iríamos presenciar. No entanto, no caso da noite de ontem, pouco sabíamos sobre o espetáculo que teríamos pela frente. E assim, para que se mantivesse essa miopia informativa, digamos assim, adotámos a postura dos três conhecidos macacos, uma vez que descendemos dessa espécie, e mantivemo-nos cegos, surdos e mudos. Nada quisemos ler, ouvir ou falar com alguém sobre Amor Azul. Pouco ou quase nada sabíamos sobre essa “ópera-canção” que se apresentaria no Coliseu dos nossos tão múltiplos e bons Recreios. Portanto, uma coisa parecia certa: quando Gilberto Gil subisse ao palco, a sua (e a nossa, pois então) alma não cheiraria ao talco habitual, se é que nos fazemos entender. Um misto de apreensão e curiosidade foi crescendo, crescendo, me absorvendo até as luzes da sala se apagarem, para que começasse o concerto.
O conhecido slogan pessoano sobre o mais famoso dos refrigerantes do mundo veio-nos à cabeça, na noite de ontem. É estranho vermos Gilberto Gil naqueles enredos, naquele cenário, longe da sua génese musical, muito distante da intimidade das suas tão extraordinárias canções. Tivemos de mudar o chip e de tentar absorver a imensa novidade de um núcleo de ópera, de uma orquestra erudita e de um coro com alguma imponência. A partitura que se desenrolava à nossa frente tinha quarenta e sete segmentos, e os contrapontos entre as vozes líricas, que parecem sempre vir de um qualquer Olimpo distante e inatingível, mais a voz coloquial e calorosa do mestre baiano, causaram espanto, calafrios, alguns incómodos iniciais. Mas, na vida, tudo se entranha, não é assim?
À medida que o concerto avançava, ia-se fazendo alguma luz nas nossas cabeças, e fomos capazes de encontrar alguns paralelismos entre o que íamos ouvindo e o universo místico que sempre existiu na obra de Gilberto Gil. Amor Azul é inspirado no clássico poema indiano do século XII, escrito pelo poeta Jayadeva, que conta os amores do deus Krishna com a sua amada Rahda. No fundo, o poema pode muito bem ser entendido como uma poderosa metáfora espiritual, propondo-se a união entre o sagrado e o humano. Assim sendo (ou podendo ser), nada existe de tão gilbertogiliano do que isso, bastando lembrar-nos dos seus álbuns Refazenda e Refavela, ambos dos anos setenta, e do espírito de canções de outros discos como “Oriente” ou “Se Eu Quiser Falar Com Deus”. Em todo esse universo, a ligação com o lado místico da existência percebe-se com natural facilidade. O misticismo oriental e a busca pelo transcendente são ingredientes da cozinha sonora de Gil, sempre foram e, ao que parece, ainda permanecem nas suas inquietações artísticas. Em Amor Azul, tudo isso se expande, tudo isso entra num outro cosmos sonoro, bem macro, alargado, embora não se perca, no meio de tantos metais e cordas, alguma pulsação baiana, algum paladar carioca, até porque, como Gilberto Gil canta, “O afoxé é da gente”.
Ponderando um pouco mais sobre Amor Azul, é ainda possível encontrar algumas ligações ao que Gil e Caetano Veloso propuseram ao mundo, há largas décadas, através do Tropicalismo. Há claramente uma espécie de antropofagia musical em Amor Azul, uma vez que a tão europeia e erudita ópera se vai fundindo com a algumas pitadas da ginga brasileira, durante todo o concerto. São precisos ouvidos atentos e olhos largos para que se entenda o que está verdadeiramente em causa em Amor Azul. E se, na verdade, conseguimos chegar a algumas conclusões, também é certo que o inesperado demora tempo a ser digerido, exige digestão lenta e mente aberta, porque a food for thought de ontem não se trauteia, nem se assobia, antes exige que se fechem os olhos, para que mais empenhadamente a mente se abra, disposta a assumir que a diferença é sempre uma forma de enriquecimento e de surpresa.
A generosidade de Gilberto Gil não tem limites para connosco. Vai sempre deixar-nos boquiabertos. Ele continua a provar, no cimo das suas mais de oito décadas de existência, que aquele que “quiser falar com Deus”, tem “que apagar a luz”, tem “que calar a voz”, que “… caminhar / Decidido pela estrada / Que ao findar, vai dar em nada /…/ Do que eu pensava encontrar”. E o que essa letra terá de pessoal, pode bem transcender essa fronteira corpórea, essa fronteira de pele e chegar a todos, como chegou até nós.
notas de rodapé: Amor Azul é uma ópera-canção em dois andamentos, composta por Gilberto Gil e pelo maestro Aldo Brizzi. Conta com a participação do Núcleo de Ópera da Bahia, Orquestra e Coro. Por fim, uma pequena chamada de atenção para as expressões em itálico no primeiro parágrafo deste texto. Elas são referências a canções dos pais do Tropicalismo, Caetano e Gil, irmãos de corpo e alma de ontem, hoje e para todo o sempre.
Fotografias de Felipe Kido



















