Entre a surpresa de uma descoberta e o reencontro com uma banda já conhecida, os Yard Act e Lava La Rue mostraram, no Capitólio, em Lisboa, como a experiência ao vivo pode transformar a nossa perceção da música.
No passado 22 de outubro, o Capitólio, em Lisboa, recebeu os Yard Act, tendo os Lava La Rue atuado na primeira parte, numa noite marcada por duas experiências bastante distintas. Os britânicos de Leeds apresentaram-se num momento de transição, na sequência do lançamento de You’re Gonna Need a Little Music, o terceiro álbum de estúdio, que explora temas como a multiplicidade de realidades e os efeitos do individualismo na forma como nos relacionamos com o mundo.
Confesso que, tendo ouvido Lava La Rue antes do concerto, não esperava ficar impressionada. As músicas não me tinham despertado grande curiosidade, mas a atuação ao vivo alterou por completo essa perceção, sobretudo pela sua presença em palco, com uma fisicalidade e uma atitude muito próprias, afirmando o corpo com naturalidade e segurança, com uma forma consciente de ocupar o espaço, de se movimentar e de assumir a própria imagem que confere à atuação uma força particular.
Essa identidade estende-se também à dimensão visual do projeto. As roupas e as peças de merchandise, usadas pelos próprios músicos, parecem fazer parte integrante da estética da artista, contribuindo para um universo visual coerente e reconhecível. Não se trata apenas de imagem, mas de uma extensão da atitude performativa que atravessa o projeto. Fiquei surpreendida com as guitarras psicadélicas, que acrescentam textura e imprevisibilidade ao conjunto, criando uma dimensão que não tinha apreendido da mesma forma nas gravações. Foi um daqueles casos em que o palco alterou a minha perceção de um projeto, aquilo que, à distância, não me tinha convencido, ganhou, ao vivo, força e expressividade.
Com os Yard Act, a sensação foi quase inversa. Depois de os ter visto no MEO Kalorama, em 2024, guardava a memória de uma atuação particularmente encorpada e ruidosa, em que a voz e os instrumentos se integravam numa massa sonora intensa, dançável e física. Desta vez, essa força pareceu demorar a surgir e, talvez devido a questões técnicas, a voz de James Smith ocupava um lugar demasiado destacado, enquanto os instrumentos pareciam menos presentes. Inicialmente, até mesmo o baixo, um dos instrumentos que mais dão personalidade à banda, parecia perder presença, retirando algum peso ao conjunto.
Não era apenas uma questão de volume, mas de equilíbrio. A música parecia mais branda do que a sua identidade sonora faria esperar, como se a intensidade da interpretação nem sempre encontrasse correspondência naquilo que chegava ao público, uma impressão que poderá ter sido apenas minha, já que a reação geral ao concerto parecia bastante positiva. O baixo revelou-se decisivo neste aspeto, quando o seu volume foi aumentado, aparentemente a pedido do vocalista, ganhou maior profundidade e presença, permitindo que as canções se tornassem mais sólidas. Faltava, sobretudo no início do concerto, uma integração entre a voz e os instrumentos semelhante à que se sente nos discos.
As canções dos Yard Act nem sempre seguem estruturas convencionais, a forma como James Smith alterna entre o canto e a palavra falada, por vezes com um ritmo quase imprevisível, cruza-se com os diferentes elementos instrumentais, que vão mudando de intensidade e de direção ao longo das músicas. Talvez por isso, o equilíbrio entre a voz e os instrumentos seja tão importante nesta banda, já que é na forma como se conjugam que reside grande parte da força e da identidade sonora dos Yard Act.
Apesar da presença vigorosa de James Smith, algumas canções pareceram demasiado próximas das versões de estúdio, sem trazer ao palco a intensidade e a imprevisibilidade que esperava da banda. A atuação foi, contudo, ganhando outra vida à medida que o concerto avançava. O som pareceu encontrar um equilíbrio mais convincente e o vocalista soltou-se progressivamente, aproximando-se do público e reduzindo a distância inicial entre a plateia e o palco. A participação de um fã em palco, o aumento do volume dos instrumentos e o momento de mosh de Smith trouxeram uma espontaneidade que tornou a reta final mais próxima daquilo que esperava da banda.
Foi aí que os Yard Act pareceram finalmente encontrar o seu lugar, recuperando parte da energia que recordava do Kalorama. As reservas iniciais não desapareceram por completo, mas o concerto ganhou força à medida que a atuação e o som pareceram aproximar-se. A atitude de James Smith encontrou finalmente uma correspondência mais convincente na componente instrumental, e as últimas músicas acabaram por compensar, em parte, a contenção que tinha marcado o início.
No final, ficaram duas experiências distintas, Lava La Rue surpreendeu-me ao vivo, revelando uma personalidade musical e visual que não tinha reconhecido nas gravações, enquanto os Yard Act começaram por ficar aquém das minhas expectativas, sobretudo pela falta de peso e de integração entre os instrumentos e a voz. Ainda assim, à medida que o som ganhou corpo e James Smith e o resto da banda ficaram mais à vontade em palco, os Yard Act conseguiram dar a volta à impressão inicial, recuperando, nas últimas músicas, parte da intensidade que guardava na memória.
Texto: Marcela Belz || Fotografias: Inês Silva


