Grant-Lee Phillips transformou um concerto de canções melancólicas num encontro marcado pelo humor e pela cumplicidade, surpreendendo pela generosidade, pela entrega musical e pela capacidade de criar um ambiente em que nos sentimos em casa.
Apesar de conhecermos Grant-Lee Phillips há muito tempo, a sensação com que saímos do concerto foi a de uma grande surpresa, como se tivéssemos entrado num bar no meio de uma pequena vila rural do Kentucky e descobríssemos, quase por acaso, um talento extraordinário, alguém capaz de transformar uma noite aparentemente banal numa experiência íntima e memorável.
É particularmente bonito assistir à entrega de um músico que, mesmo numa sala pequena, demonstra tanta paixão, preparação e respeito por quem está à sua frente, como se tivesse plena consciência de que aquelas pessoas reservaram uma parte do seu tempo para o ouvir e quisesse, por isso, tornar aquela experiência especial, dando o melhor de si sem tratar o concerto como apenas mais uma paragem numa digressão. Não parece estar ali apenas para tocar as canções e seguir caminho, mas antes para partilhar verdadeiramente aquilo que faz, com uma vontade clara de criar algo com aquelas pessoas, naquele lugar e naquele momento.
A facilidade com que consegue conciliar a profundidade das suas canções com um sentido de humor inesperado é igualmente notável, pois, entre músicas densas, melancólicas e emocionalmente carregadas, surgem piadas, histórias e gargalhadas, como se nos lembrasse de que a vida é feita dessa coexistência entre a dor e a leveza. Essa combinação tornou-se particularmente evidente quando contou, com humor, a história do terramoto que destruiu a sua casa em janeiro de 1994, um acontecimento devastador que acabaria por estar na origem de uma das suas canções mais conhecidas, “Mockingbirds”. Ouvi-lo falar dessa experiência com a distância e a descontração de quem consegue agora rir de algo que certamente lhe causou sofrimento durante muito tempo, fez-me pensar na forma como a passagem dos anos pode transformar a relação que temos com aquilo que nos magoou, talvez sem apagar a dor, mas mudando o lugar que ela ocupa nas nossas vidas.
O carisma e a gentileza, aliados a uma precisão técnica que revela o quanto a música faz parte da sua vida, contribuíam para tornar o concerto cada vez mais próximo e familiar, até que, a certa altura, já não parecia que estávamos simplesmente diante de um músico em palco, mas que nos encontrávamos sentados com ele à volta de uma mesa de madeira, sob uma luz amarela, num bar acolhedor, a ouvir histórias enquanto bebíamos cerveja e comíamos frango frito. Era fácil esquecer que estávamos num concerto e deixar-nos ficar naquele ambiente, como se a música e as conversas pudessem prolongar a noite e ninguém tivesse grande vontade de ir embora.
E, no entanto, bastava começar outra canção para nos lembrarmos da dimensão do músico que tínhamos diante de nós, porque Grant-Lee Phillips parece preencher o palco como se fosse uma banda inteira, extraindo da guitarra uma diversidade de texturas, ritmos e intensidades que desafia os limites de um único instrumento. A voz rouca, expressiva e profunda reverbera pela sala, enquanto a guitarra ganha uma sonoridade áspera, vigorosa e ácida, revelando uma faceta mais crua e incisiva que contrasta com o timbre da voz e dá às canções uma força particular.
Talvez seja essa a beleza de um concerto assim, a possibilidade de encontrar na mesma pessoa uma intensidade musical imensa e uma simplicidade genuína, numa voz capaz de nos atravessar e numa vontade evidente de partilhar histórias connosco, alternando entre a melancolia das canções e a leveza das conversas sem que uma coisa diminua a força da outra. Saímos com a sensação de ter passado uma noite num daqueles bares que imaginamos existir algures no interior dos Estados Unidos, onde um músico extraordinário pode estar a poucos metros de nós, a cantar canções que carregam décadas de vida e, entre elas, a fazer-nos rir como se, por alguns instantes, fôssemos velhos conhecidos.
Texto: Marcela Belz || Fotografias: Rui Gato











