O álbum de estreia dos Beach Boys é um aperitivo do que poderia acontecer nos anos seguintes como legado para a História da Música. Mesmo que o génio de Brian Wilson não tenha (também) os créditos da produção, veio a saber-se que já nessa altura cuidava de tudo.
Não foram um sucesso estrondoso e imediato, mas mostraram os primeiros sinais do seu potencial: Surfin’ Safari, primeiro álbum do quinteto californiano, revela uma banda que traz a inesgotável energia e a alegria irrequieta da juventude no contexto do surf californiano, na costa do Pacífico. Um universo recheado de sol, praia, melodias, ritmos e vozes harmoniosas com algumas inovações pelo meio. As “Good Vibrations” já por aqui andam, tal como os irresistíveis “Surfin’ USA”, “I Get Around”, “Barbara Ann”, “Sloop John B” ou, no domínio do sublime, “God Only Knows”.
Recuemos ao final dos anos 50. Lá estão, em Hawthorne, subúrbio de Los Angeles, os irmãos Brian (que desde criança é um pianista prodigioso), Carl e Dennis Wilson com o primo, Mike Love. Adoram música. Ouvem tudo o que podem. Sonham com tudo o que querem. E querem muito. Para começar, querem fazer melhor do que The Four Freshmen, a banda que Murry, pai dos irmãos Wilson, mais escuta e tenta reproduzir nas teclas do piano. Na escola, o quarteto ganha Al Jardine, ele próprio já com primeiros passos musicais (The Islanders, que escolhe a folk como género preferencial. Este último, no entanto, irá afastar-se em fevereiro de 1962, sendo substituído por David Marks e só regressando no verão de 1963). Ganham novas influências, como Chuck Berry e Johnny Otis, o R&B é música para os seus ouvidos.
Demoram algum tempo até à estabilização do nome que irá consagrá-los. Mas, em 1961, tornam-se os Beach Boys, escrevem as primeiras músicas, misto de surf rock, folk, rhythm and blues e entram nos estúdios da Capitol Records, na cave da famosa torre de 13 andares da editora discográfica. Das 12 canções incluídas no álbum Surfin’ Safari, lançado em 1962, sobretudo com a arte de composição de Brian, sobressaem, além da faixa que lhe dá o título, “Surfin’”, “Summertime Blues”, “409”, “Head You Win, Tails I Lose” e o instrumental “Moon Dawg”, nova versão de um original da banda The Gamblers. Músicas com ritmos e cores bem vivas que convidam a dançar sobre a areia e a sonhar noite de verão fora. A produção está assinada por Nick Venet e Murry Wilson, mas, de facto, foi logo Brian Wilson quem mais fez também neste âmbito e só mais tarde isso foi reconhecido.
É um trabalho salpicado de romantismo e inocência, como em “Little Girl (You’re My Miss America)”, numa América otimista e pujante, feliz e imaginativa, que desconhecia um futuro próximo de libertação sexual e emancipação feminina, agravamento das tensões raciais, luta pelos direitos civis, assassínios (de John Kennedy, em 1963; de Malcolm X, em 1965; de Martin Luther King, em 1968; de Robert Kennedy, também em 68, apenas dois meses depois) e do horror da guerra no Vietname que dizimou uma geração e deixou marcas para sempre.
Na carreira dos Beach Boys, o processo de crescimento iria demorar quatro anos até atingir o auge. Foi preciso chegar a meio da década de 60 para que o génio de Brian Wilson criasse o maravilhoso Pet Sounds e o grupo conquistasse, de uma vez por todas, o lugar e o respeito merecidos. Porém, todo o sucesso tem um preço e os Beach Boys sentiriam isso bem na pele. Mas essa já é história para outro episódio.