Enquanto muitos concertos de rock exigem um período de adaptação até o público se soltar, aqui aconteceu o contrário: a sala parecia ansiosa por abandonar qualquer reserva à espera apenas do primeiro impulso vindo do palco.
Enquanto na Sala 1 do LAV decorria um concerto da banda de metalcore britânica Malevolence, na Sala 2 desenhava-se um cenário muito diferente. Lá fora, nos corredores e zonas comuns, cruzavam-se t-shirts pretas de hardcore com túnicas coloridas, fãs de breakdowns com apaixonados por desert blues. Certamente por isso, antes de as luzes se apagarem, o que se sentia era uma expectativa pouco habitual. Dez minutos antes do início, a sala já estava bem composta.
Os primeiros assobios de expectativa ouviram-se às 21h30. Seis minutos depois, Bombino subia ao palco acompanhado pela sua banda. Bastaram poucos acordes na guitarra e algumas palavras em francês para que a sala se rendesse por completo. Enquanto muitos concertos de rock exigem um período de adaptação até o público se soltar, aqui aconteceu o contrário: a sala parecia ansiosa por abandonar qualquer reserva à espera apenas do primeiro impulso vindo do palco.
O que impressiona num concerto do músico tuareg não é só a sua técnica, nem o poder hipnótico das malhas de guitarra eletroacústica. É a forma como transforma repetição em movimento. Cada linha parece existir de forma a empurrar a seguinte. Cada groove abre espaço para outro mais profundo e outro, e outro. Exemplo disso é o momento em que a bateria entrou pela primeira vez, logo após um dos temas iniciais: o público respondeu instantaneamente, ajudando a que logo depois já se cantassem refrões em uníssono, e se transformassem simples “lalalas” em momentos de entrega coletiva.
Foi na transição da guitarra eletroacústica para a guitarra elétrica que o concerto ganhou outra dimensão. O fumo invadiu o palco, as luzes migraram para cores e combinações diferentes com a música a marcar o passo tornando-se progressivamente mais expansiva. Dos típicos solos longos às jams construídas sem pressa, mesmo quando, por volta da sexta música, os graves provenientes do concerto dos Malevolence começaram a atravessar as paredes da sala ao lado, nada parecia capaz de quebrar a concentração instalada na segunda sala do LAV. Pelo contrário. O contraste apenas tornava mais evidente a força daquele universo próprio criado por Bombino.
Entre temas, o músico regressava sempre às mesmas ideias: paz, comunidade, ligação, comunhão. A determinada altura brincou com o calor da sala, dizendo sentir-se em casa, onde os 45 graus à sombra são parte do quotidiano. A gargalhada coletiva serviu também para lembrar que, apesar da dimensão quase espiritual que a sua música frequentemente assume, havia uma enorme leveza no espírito ali vivido.
Ao longo da noite, o concerto foi aproximando Lisboa do Sahara e o desert blues de Bombino foi-se dando a conhecer, pouco a pouco, não só na sua forma mais pura, como também enquanto linguagem aberta, capaz de absorver pequenas aparições de reggae, rock psicadélico, funk e improvisação.
A reta final mudou alterou novamente o ambiente vivido na sala: das palmas sincronizadas, às danças improvisadas, sem esquecer as vozes a acompanhar os estímulos que do palco vinham para o público. Foi o que um dos últimos temas provou: rasgou a sala ao meio desde e foi acumulando camadas sucessivas de improvisação até provocar uma das maiores ovações da noite. O Lisboa ao Vivo virou pista de dança.
O encore trouxe outra grandeza ao espetáculo e talvez a imagem mais simples e mais bonita de todo o show. Bombino regressou sozinho, guitarra elétrica na mão. Sem pressa. Sem artifícios. Só a sua figura e o seu instrumento. Quando o resto da banda voltou a juntar-se a ele a meio do tema, percebeu-se que o concerto estava prestes a terminar e da mesma forma com que se tinha construído ao longo daquela hora e meia: pela soma paciente de pequenos elementos em cada música até formar algo muito maior.
Perto das 23h, terminou. Ficaram os aplausos, e o feeling de ter assistido a um daqueles concertos raros onde a música não serve apenas para entreter, mas sim para criar o espírito de comunidade que tantas vezes falta e cada vez mais desaparecido está, principalmente numa cidade cada vez mais fragmentada tanto social como artisticamente.
Texto de Luís Judícibus, fotografias de Gonçalo Nogueira.








