Ao quarto disco, os USG conseguiram alcançar o equilíbrio perfeito entre conceito e melodia. Pela primeira vez cantam tudo em português (e com uma vivíssima pronúncia do Norte), num disco que reflecte, questiona e parodia o que é isto de ser pessoa humana no planeta Terra.
Irrequietos e irredutíveis, os Unsafe Space Garden lançaram agora o seu 4º álbum de originais, no espaço de apenas seis anos, mas logo desde o início definiram bem o que são e ao que vêm. Aliás, o que são é maneira de dizer, porque eles são muitas e múltiplas coisas, sinónimas e antónimas simultaneamente. Mas ao que vêm, ficou logo claro no primeiro disco, de 2020. Música complexa que mistura géneros e inspirações, vai um pouco a todo o lado, cada canção tem múltiplas personalidades, brinca com tons e tempos, é habitada por diversas personagens e narrador, com muito surrealismo, teatralidade, paródia dadaísta. Uma espécie de “cadavre exquis” mas que corre bem. Um caos controlado e quase esquizofrénico, a esticar todos os limites mas sem nunca romper nem desaguar num mar de experimentalismo estéril ou ininteligível.
Porque isto de fazer discos conceptuais tem que se lhe diga. Às vezes o conceito é bom mas as canções falham, outras vezes as músicas são boas mas a ideia não tanto. Mas agora, com O Melhor e o Pior da Música Biológica, os Unsafe Space Garden conseguiram equilibrar na perfeição a execução das duas vertentes. O conceito está claro e as canções funcionam, cada uma por si e todas e bloco. Eis o primeiro triunfo deste disco.
Depois, também ajuda o facto de, pela primeira vez, cantarem tudo em português – mais ainda com uma vincada pronúncia nortenha (são de Guimarães). A nossa língua poética dá espaço para mais brincadeiras fonéticas e eles estão mais à vontade para subverter as normas da métrica e abolir os limites de sílabas por segundo. E cantar em português também lhes permite maior proximidade nas estórias que cantam, apanhar os trejeitos do ser português (“E aqui não há INEM que te valha”).
Porém, este não é só um disco sobre ser lusitano, é sobre ser pessoa humana, neste singelo berlinde perdido no cosmos, sobre o que sucedeu e nos trouxe ao preciso momento de agora. A melhor ilustração disto surge na canção “Ser Humano”, um relato da vida na Terra – pela voz de João Ricardo Pateiro, famoso pelas suas narrações de jogos de futebol na rádio, criativas e inimitáveis – desde a primeira bactéria até ao homo sapiens. Este é um dos vários momentos altos deste disco, uma ode à vida, um álbum que questiona, é certo, mas que acaba por nos fazer sentir bem, sentir gratos por estarmos vivos (a canção que encerra o disco tem por título “A Vida Não É Uma Merda”) e encarar o dia-a-dia com mais positividade, ternura, bondade e empatia.
Embora pareça que os Unsafe Space Garden vivem no seu próprio planeta, eles são nossos camaradas terráqueos e conseguem, com humor e harmonia, lembrar-nos que não importa a roupa que vestimos, a cor dos nossos olhos ou o dialecto que falamos – todos partilhamos o mesmo genoma.
“Obrigado por estarem aqui ao mesmo tempo que nós”.