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OK Computer: o regresso ao futuro com os Radiohead

A densa distopia que matou a britpop: épica, sentimental e desavergonhadamente bela.

A pop tem um tempo aproximado ao que vem nos calendários, mas com ligeiros desfasamentos. O século XXI, por exemplo, começou em 1997 – toda a gente que compra discos o sabe. A futurista distopia de Ok Computer, onde nada acontece porque tudo acontece ao mesmo tempo, é, cada vez mais, o nosso presente.

Nem sempre os Radiohead foram esse farol. Nos tempos de Pablo Honey, o sucesso de “Creep” fora uma maldição: não há estatuto mais baixo na hierarquia do rock do que o de um reles “one hit wonder”. Com The Bends, mostraram ao mundo que eram muito mais do que isso, oferecendo-nos uma pop elegante e consistente. O sucesso foi de tal ordem que a editora abriu os cordões à bolsa para o financiamento do terceiro disco. Os Radiohead aproveitaram os cheques sabiamente, adquirindo um estúdio móvel, e instalando-o numa velha mansão campestre cheia de reverberação natural. Pela primeira vez, puderam fruir do luxo da independência total. OK Computer seria produzido pelos próprios, com a ajuda preciosa do sexto “cabeça de rádio”, Nigel Godrich, o George Martin lá do sítio.

No langor do campo, sem pressas nem pressões, os Radiohead puderam subir a fasquia do seu jogo. A pontaria pop não lhes bastava, procuravam agora algo mais denso e original. Revoltam-se contra a ditadura das guitarras de The Bends, diversificando a palete de instrumentos (introduzindo o piano eléctrico, o mellotron, as cordas e o glockenspiel). Zangam-se com os “quatro acordes e força!”, criando harmonias mais complexas. Preocupam-se com a dinâmica das canções, fazendo-as crescer, explodir e regressar à placidez original. Com o rigor e a paciência de um relojoeiro, sobrepõem camadas de som em cima de camadas de som, dando textura e profundidade às suas paisagens.  Abandonam a segurança podre das fórmulas, abrindo-se à mágica incerteza da experimentação. E, sobretudo, escrevem grandes canções com melodias lindíssimas, o alicerce sem o qual todo o peso da produção desabaria com estrondo.

Os cinco magníficos.

Valeu a pena todo o esmero e dedicação: Ok Computer é o grande disco dos anos 90 a seguir a Nevermind, fazendo de novo a história da pop avançar na direcção certa: para a frente. Por mais encantadora que a britpop tenha sido, fora demasiado revivalista, caindo muitas vezes no pastiche descarado aos Beatles e aos Kinks. O rock estava a ficar velho, deixando-se ultrapassar pela frescura do hip-hop e da música de dança. Era preciso urgentemente que uma banda de guitarras voltasse a inventar o futuro. Os Radiohead foram essa banda e OK Computer o seu estandarte.

Esse ensejo de novidade era de tal ordem que mesmo um disco difícil e atormentado como OK Computer recebe o acolhimento do grande público, chegando a número 1 no Reino Unido, e vendendo 4.5 milhões de discos no mundo inteiro. Nesse sentido, foi o último dos grandes clássicos do rock, talvez o derradeiro a fazer o hat trick: aclamação da crítica, sucesso comercial, arrojo experimentalista. Funeral, de 2004, esteve lá perto, mas a crise pós-internet, que entretanto chegou, não mais permitiria um sucesso popular da mesma envergadura.

Se o tema do disco é a desumanização decorrente dos avanços tecnológicos, OK Computer nada tem de frio ou robótico. Pelo contrário, é um disco dramático e sentimental, quase ultra-romântico. A sua electrónica é esparsa, servida em salpicos, nada podendo fazer contra o calor orgânico das guitarras e do mellotron. Mesmo a voz de computador de “Fitter Happier” é acompanhada por um piano humano e expressivo.  A voz  de Thom Yorke é vulnerável e desesperada. A natureza sombria e apocalíptica do álbum joga a seu favor: há sempre uma beleza majestosa quando um mundo acaba. Que belos são os seus acordes menores e as suas guitarras chorosas. Que comovente é a terceira secção de “Paranoid Android”, com todas aquelas vozes cantando linhas melódicas diferentes mas harmoniosas. Como se morrêssemos e a nossa alma subisse aos céus – a presença do transcendente, que nenhuma máquina poderá alguma vez emular.

Os hipsters preferirão o Kid A, glorificando a sua inacessibilidade. Os nazis da simplicidade pop escolherão o The Bends, apedrejando “Paranoid Android” pelas suas cedências ao prog. Mas as pessoas razoáveis optarão sempre por OK Computer, um disco desmedidamente belo e sem vergonha de o ser.