Reportagens

Meo Kalorama 2022 – Dia 2: Arctic Monkeys sagram-se futuros clássicos em dia de girl power

No segundo dia de MEO Kalorama, os Arctic Monkeys mostraram que já não estão numa fase. Abraçaram o seu passado, como uma das maiores bandas de rock ‘n roll do mundo, e hoje Turner caminha para o estatuto de Jarvis e Morrissey. Num dia dominado por girl power, Róisín Murphy mostra que o rock não se faz só de guitarra distorcida.

Rock ‘n roll. Desengane-se se pensa que é apenas um género de música – no tempo (e no som), é muito mais do que isso. Pode ser um jovem Elvis em 1954 a abanar a anca em Memphis, de cabelo lambido, enquanto canta That’s all right. Pode ser Pete Townshend a partir a guitarra, enquanto Keith Moon detona explosivos da bateria, em direto no The Smothers Brothers Comedy Hour, em 1967. Ou até Kurt Cobain nos anos 90 a fazer crowdsurf em Olympia enquanto grita “Rape Me”. A sonoridade de Elvis, The Who e Kurt Cobain são distintas, mas a atitude é a mesma: a rebeldia da ruptura, do contracorrente. Ao segundo dia de MEO Kalorama, esgotadíssimo, o rock ‘n roll manifestou-se de diversas maneiras – com Arctic Monkeys à cabeça e mulheres ao comando.

Róisín Murphy ©Cecile Lopes

Róisín Murphy, por exemplo. Como frontwoman dos Moloko e a solo, mostrou que as poses, de sobrancelha franzida e queixo erguido, conseguem ser muito mais rock ‘n roll do que guitarras estridentes. De tacões calçados e óculos de sol, Murphy subiu ao palco Colina aprumada num power suit colorido. Apesar de no arranque do concerto os ecrãs gigantes mostrarem anúncios em vez do concerto em si, a cantora de origem irlandesa foi suficientemente eletrizante para captar as atenções de todos. A festa começou com “Something More” e “Incapable Róisín”, canções a solo do disco Róisín Machine (2020). Fato ante fato, ora verde e roxo, ora multicolor, Róisín dançou como se ninguém estivesse a ver.

Já tínhamos perdido a conta aos acessórios de cabeça que já tinha experimentado quando “The Time Is Now”, canção de Moloko, cantada em uníssono pelo público. Aquela tinha sido a primeira reação entusiasmada – e não foi a última. Envolvidos pela atmosfera electro-pop de Moloko, todos os caminhos levaram a “Forever More” e “Sing It Back”, o momento apoteótico, com Róisín a dançar em frente ao videoclip original da canção e o público a responder ao mote da canção, numa emocionante troca de versos – “bring it back, sing it back, bring it back, sing it back to me”. O medley “We Are The Law”, do álbum Crooked Machine, de 2021, que junta “Murphy’s Law” e “We Got Together”, fechou o concerto com chave de ouro, mas já às 23:00, demasiado perto do grande momento da noite: Arctic Monkeys.

Arctic Monkeys ©Ana Viotti

Os macacos voltaram do espaço para conquistar

Eram o momento mais esperado da noite. Alex Turner, Matt Helders, Jamie Cook e Nick O’Malley iriam subir ao palco principal – e mostraram que os Arctic Monkeys já não são garotos de Sheffield “a querer ser os The Strokes”, nem britânicos viciados em “filmes de cowboys” ou em sonoridades soul e lounge de hotel espacial. Do primeiro disco em 2006 a 2022 vão 16 anos de carreira e várias fases de macacos muito camaleónicos. No MEO Kalorama, Alex Turner mostrou que não é nada de novo: é apenas tudo o que foi.

Sem vergonha do passado e com olhos postos no futuro, o intitulado The Car, a ser editado em outubro, os Arctic Monkeys percorreram alguns dos melhores momentos musicais dos seis discos até hoje lançados, sem deixar nenhum para trás, e tocaram uma nova – “I Ain’t Quite Where I Think I Am”. De AM (“Do I Wanna Know?”, “Snap Out of It”, “Why’d only call me when you’re high”, “Knee Socks”) ao Favourite Worst Nightmare (“Brianstorm”, “Teddy Picker”, “Do Me a Favour”, “505″), passando pelo Humbug (“Crying Lightning”, “Potion Approaching”, “Cornerstone”) e o primeiro disco Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not? (“The View From the Afternoon”, “From the Ritz to the Rubble” e “I Bet You Look Good on the Dancefloor”, o momento mosh da noite), todas as fases de Arctic Monkeys estiveram representadas. Os menos presentes foram Tranquility Base Hotel + Casino (a canção homónima e “One Point Perspective”), e Suck it and See (“That’s Where You’re Wrong” e “Library Pictures”).

No imponente palco MEO, com vista privilegiada para o Parque da Bela Vista, que nesta altura era um ajuntamento de milhares e milhares de cabeças e luzes de telemóvel, Alex Turner guiou o público como um verdadeiro frontman. A gola do casaco verde levantada, a forma serpenteada como se mexia e segurava o microfone, fazia lembrar os mais icónicos frontmen da história da música, do Jarvis ao Morrissey. Depois de abandonar o palco do nada, ou não fosse esse um concerto de rock ‘n roll, voltou para o encore: “R U Mine?” Nada temam: temos uma banda de estádio à moda antiga para as próximas décadas. Já pensaram que um dia pode haver uma digressão de 40 anos de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not?

The Lathums ©Ana Viotti

Estas botas foram feitas para caminhar

Não fora a primeira vez que se ouvira uma guitarra naquele palco. A abertura do palco principal esteve a cargo dos ingleses Lanthums que se apresentaram perante uma plateia muito bem composta para o primeiro concerto do dia, provavelmente já contando com muitos fãs do quarteto de Sheffield que dali já não arredariam pé. À boa maneira do rock britânico, trouxeram-nos guitarras rápidas, num aquecimento perfeito para o alinhamento que teríamos ao longo do dia. O público respondeu animado e não demorou a acompanhar com braços no ar e palmas. No fim, o jovem frontman Alex Moore despediu-se dizendo que esperava ver-nos a todos novamente no futuro próximo e nós só podemos subscrever.

Do outro lado do parque, no palco Colina, tocavam as Golden Slumbers que mostravam o seu novo trabalho, I Love You, Crystal, de março deste ano. O indie-folk acústico das manas Falcão é doce e límpido, mas não foi suficiente para convencer os festivaleiros, sobretudo quem vinha do palco Futura e da força crua do concerto dos Crawlers. Margarida e Catarina referiram o quão felizes estavam de estar na primeira edição do festival Kalorama e confessaram-se entusiasmadas para ver Alice Phoebe Lou, que tocaria dali a pouco, mas nem canções mais conhecidas como New Messiah conseguiram encantar a esparsa audiência que por ali ficou a aproveitar os últimos raios de sol do dia.

The Legendary Tigerman ©Cecile Lopes

No palco MEO, as hostilidades seguiram-se com The Legendary Tigerman. Com imagens de videoclips a intercalar a transmissão do concerto nos ecrãs gigantes, Paulo Furtado e companhia apresentaram-se “cheios de amor” e com um objetivo claro, espalhar a mensagem do nosso senhor e salvador, o rock ‘n roll. Com o sax barítono com laivos de Morphine de Cabrita e a bateria incansável de Katari à retaguarda, Legendary Tigerman trouxe ao Kalorama hits como “These Boots Are Made For Walking”, “Dance Craze” ou “Twenty First Century Rock’n’Roll” e acabou o concerto em apoteose no meio do público, como é aliás seu costume.

Alice Phoebe Lou ©Neia

A alegria contagiante de Alice Phoebe Lou

Recordam-se de dizermos que o rock ‘n roll não se faz só de guitarras? Também de alegria. No palco Futura, sob um bonito lusco-fusco, Alice Phoebe Lou tornou-se um dos pontos altos do dia – e a culpa é da sua energia. Conjugando a sua voz melosa, apropriada para o folk com laivos de Angel Olsen, com a energia indie da sua banda, a sul-africana atirou-se para o chão, saltou, berrou e espalhou amor. Em “Mother’s Eyes” falou da mãe, em “Touch” pediu para todos se abraçarem. O ponto alto veio no fim: “Witches” pôs todos a saltar, numa alegria contagiante, energética e rebelde que só pode vir do rock ‘n roll. “Portugal tem os melhores festivais! A vossa energia…”, confessava, classificando o festivaleiro português como “o melhor público”.

Jessie Ware ©Cecile Lopes

Apesar do dia ser do rock, no palco Colina também se fez a festa ao som de pop. Com o pôr do sol como pano de fundo, Jessie Ware, uma das coqueluches da pop britânica, subiu ao palco, acompanhada apenas por quatro bailarinos/coralistas. Se o concerto poderia parecer minimalista à primeira vista (sem instrumentos em palco e só um pano prateado em fundo), rapidamente percebemos que esta opção de stage design servia apenas para melhor destacar a intrincada cenografia criada pela coreografia muito bem ensaiada que os cinco elementos em palco puseram em prática. Incansavelmente e de pose em pose, Jessie Ware percorreu os hits da sua discografia mais recente e o público também não teve descanso. “Spotlight” abriu o concerto e forçou toda a gente a juntar-se à dança, na aula de aeróbica mais cool desde a Jane Fonda. A audiência entusiasmada continuou a acarinhar Jessie, que se disse muito feliz por estar ali durante os 45 minutos que lhe cabiam. “Ooh la la”, “Soul Control” e “What’s Your Pleasure” criaram mais momentos altos enquanto o sol desaparecia atrás da colina, o que só acrescentou à qualidade da apresentação.

Bonobo ©Cecile Lopes

A eletrónica atmosférica de Bonobo

Depois da tempestade de Arctic Monkeys, a eletrónica atmosférica de Bonobo foi a receita perfeita para acabar a noite. O músico inglês, que se apresentou com uma banda completa, incluindo vocalista e secção de metais, encheu o palco Colina com as suas sonoridades de eletrónica chill e ainda arrancou uns pezinhos de dança aos festivaleiros já a acusar o cansaço. Há qualquer coisa de especial em música eletrónica a saber a jazz tocada ao vivo com instrumentos reais e neste concerto vimos isso mesmo. Os músicos entraram e saíram do palco consoante a necessidade de cada faixa, mas foram aquelas com todos os elementos em palco que melhor preencheram a noite e que soaram mais introspetivas e belas.

Bruno Pernadas

À uma da manhã, os últimos passos de dança da festa também se fizeram com jazz espacial. No palco Futura, Bruno Pernadas fez magia com a sua fiel Fender Jaguar azul-bebé e interpretou alguns dos pontos altos de Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them (2016), assim como do último disco Private Reasons (2021), onde consta “Lafeta Uti”, momento épico do concerto que contou com a presença de Minji Kim. Acompanhado por Afonso Cabral (de You Can’t Win Charlie Brown) na guitarra, Margarida Campelo na voz e teclados, Diogo Duque no trompete, David Santos no baixo, João Correia na bateria e João Capinha no saxofone, Pernadas percorreu temas do disco de 2016 como “Spaceway 70”, “Problem Number 6”, “Anywhere in Spacetime” e “Valley in the Ocean”, que derreteu corações e embalou com o seu swing espacial. “Muito obrigado por terem ficado!”, afirmava humildemente Pernadas para um Futura cheio, com que espantado pela resiliência dos festivaleiros — que lotaram o palco secundário de madrugada e depois de um concerto musculado de Arctic Monkeys. Uma coisa é certa: se o fenómeno Pernadas só por si valia a pena marcar presença,  a explosão final com “Galaxy” foi, sem dúvida, um dos grandes momentos do MEO Kalorama.

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Autores: Alexandre R. Malhado e Ana Lúcia Tiago
Fotografia: Cecile Lopes (excepto onde assinalado)

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