O Festival Cuca Monga regressou ao Museu de Lisboa — Palácio Pimenta para a sua quarta edição nos dias 25 e 26 de setembro. Entre o coro dos pavões e a amizade entre artistas, organização e público, o festival cresce e sedimenta-se.
Temos acompanhado o Festival Cuca Monga ao longo dos anos e é um gosto vê-lo crescer, vê-lo sair das ruas de Alvalade para os jardins do Palácio Pimenta, no Campo Grande. Os palcos vão ficando maiores e as plateias vão ganhando espaço. A amizade que o constrói e que o impulsiona continua a mesma. É, por isso, um gosto também ver que a essência de um festival feito por amigos, com os seus amigos, se mantém. O cartaz está cada vez mais internacional e inter-regional, sem que perca o princípio da lusofonia; a restauração deste ano foi escolhida por Leonor Godinho (Vida de Tasca), sendo composta de negócios pequenos e locais; e a banca do merch continua a ser um espaço dos artistas do passado e do presente do festival. Além disso, o público está mais heterogéneo, havendo cada vez mais espaço para todas as idades e (alguns) estilos. A diversificação do cartaz além-Cuca Monga que tem aumentado a cada edição ajudará, com certeza, à maior multiplicidade estética que vimos nestes dois dias.
No primeiro dia, ainda chegámos a tempo de ver as últimas músicas da setlist de Marquise. O seu rock atmosférico casa mal com a luz do dia, mas a banda sabe conquistar o público que, às seis da tarde de uma sexta-feira, já estava no Palco da Relva a dançar. Bem-dispostos, foram um belo início de festival.
A voz bonita e potente de Rita Cortezão começou a soar no Palco do Bosque pouco depois. Acompanhada pelo baixo de Nanufrr e pelo canto dos pavões que se espalhavam pelos galhos das árvores que formam o “bosque”, Cortezão foi largando a timidez aos poucos, tal era a felicidade de ali estar e de poder dialogar sobre o seu disco “tudo, um pouco”. Neste que foi o último concerto da sua inesperada tour de verão, causada pela popularidade quase súbita do álbum, que ganhou todos os prémios e toda a atenção nos últimos meses, ouvimos as suas canções com um toque diferente da gravação em estúdio, que é sempre bom quando acontece, porque acrescenta camadas aos projectos e à sua execução. “lisbolha” mostrou-nos uma Rita muito divertida, pondo o público a cantar em coro, e “o tempo que fica” foi muito lindo. Rita Cortezão deu um concerto bonito e imperfeito, com improvisos e a naturalidade que a caracteriza. É, com certeza, uma escolha, a da performance incompleta, ou tomada por tamanha honestidade que transparece todos os desvios. A beleza daquele palco é que estes concertos funcionam perfeitamente ali.
Sol posto (ha!), seguimos para Vaiapraia, que “fazem canções simples sobre coisas difíceis”. Como já é hábito da banda, não usaram o seu slot para muito mais que música. Rodrigo Vaiapraia, acompanhado por chica na guitarra, April Marmara no baixo e Candy Diaz na bateria, são uma máquina bem oleada, com uma presença de palco incrível. O concerto, feito de músicas intercaladas com manifestos, teve passo acelerado, foi caótico e pôs toda a gente a dançar. “Kolmi”, “Eu Quero, Eu Vou” (de *Alegria Terminal*) e “Rabo” (de *100% Carisma*) foram as que mais chamaram pelo público, muito dele provavelmente a ouvir Vaiapraia pela primeira vez.
Pois é, o Festival Cuca Monga tem esta particularidade magnífica. Com apenas dois palcos e sete sets em cada dia, não há sobreposições, nem sequer concertos cujo fim e início se tocam. Sendo o recinto pequeno, e embora se sinta o convite a que as pessoas se espalhem para o convívio, a alternativa a estarmos num concerto é estarmos a ouvi-lo ao longe. Por isso, acabamos sempre por ver tudo o que o festival pensou para nós, o que cria um espaço óptimo de descoberta. O público, curioso, também respeita esta dinâmica e sabe prestar a devida atenção aos nomes que desconhece.
Fez-se tempo de regressarmos ao Palco do Bosque para um muito antecipado concerto de Leonor Arnaut. Vimo-la pela primeira vez a abrir para Jessica Pratt no B.leza, há quase dois anos, e ficámos com água na boca. O disco continua por lançar, mas agora percebemos porquê. Este concerto já foi muito diferente daquele que vimos. Nota-se uma constante construção das músicas e da performance de Arnaut. A multi-instrumentista apresenta-se num espaço e num tempo só seus: um metrónomo é tornado instrumento e o seu ritmo é instaurado. Não há mais nada naquele palco além de um espaço místico e escondido. Como ao ver um filme no cinema, não conseguimos parar de olhar curiosos, a querer sempre mais, sobretudo quando badalos se misturam com sintetizadores na construção melódica, tão diferente entre músicas. Enfeitiçados, ficámos saciados por mais uns meses e aguardamos com entusiasmo este lançamento.
Os Capitão Fausto subiram ao Palco da Relva e deram um concerto dentro de todas as expectativas que os últimos dois anos de *Subida Infinita* em tour nos prometeram. Entre esse disco e *A Invenção do Dia Claro*, muitos fan favorites foram tocados, eximiamente, mais as já obrigatórias “Santa Ana” e “Teresa”, de *Gazela*. Uma bela surpresa, no entanto, foi a “Breve Batalha de Formariz”, do *Pesar o Sol*, que nunca tínhamos ouvido ao vivo.
A noite terminou com uma plateia muito esparsa para ver Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo que, ainda assim, não se deixaram intimidar pelos espaços vazios. Levaram consigo o seu espírito de luta e fizeram rock contra o fascismo, o imperialismo e as desigualdades sociais. “Cinema brasileiro” é uma divertida homenagem à cultura, “Como são cruéis os Estados Unidos” um potente manifesto e “Minha Mãe É Perfeita” o espaço ideal para um mosh agressivo. “Se você não dançou, não beijou na boca e não abraçou um amigo, o que está fazendo aí?”, atirou Chablau já perto do fim do set, o qual percorreu a apelar à bagunça. “Debaixo do Pano” e “Segredo” foram momentos divertidos e a banda fechou o primeiro dia do festival a pedir que acreditemos nas utopias.
No segundo dia não houve sol, mas houve imensa alegria. Beatriz Pessoa abriu o Palco da Relva muito bem disposta, com um microfone decorado de lacinhos e envergando o seu vestido de noiva em jeito de comemoração do aniversário do seu casamento. Para apresentar o seu novo disco, *Muito Mais*, entregou toda a sua confiança e o seu maior sorriso e convidou a plateia pouco composta a aproximar-se mais, pois aquele era “um concerto para dançar”. “Ai Quem Me Dera” chamou ao palco o rap de Femme Falafel (que no dia anterior já se tinha juntado a Leonor Arnaut nos teclados) e “I Wish” teve Miguel Marôco. É um cartaz que se interliga. Já em “Muito Mais”, Pessoa pediu que o marido, o realizador Daniel Mota, fizesse um dueto consigo, pedido a que este acedeu desconfortavelmente, mostrando-se desejoso de fugir para qualquer recanto. Não julgamos; compreendemos que será difícil resistir à energia contagiante de Beatriz e ao seu pop saltitante, mesmo que tenhamos medo do palco.
Seguimos para o ambiente místico do Palco do Bosque, apropriado à música de Manu Julian, vocalista dos Pelados que aqui se apresentava a solo. Vestida de tule e estrelas, a sua bonita voz cantou músicas não lançadas de um disco que sai para o ano. Depois, foi hora de Manel Cruz.
Em palco, estava só ele e as suas guitarras: na plateia, um público-coro. Em constante diálogo, entre a palavra e a música, Manel Cruz deu um concerto acústico de manifesto pelas “coisas lindas e que não têm mal nenhum”. “Ainda Não Acabei” e “Como Um Bom Filho do Vento” puseram toda a gente a cantar, e “Mau Hálito” (Foge Foge Bandido), “A Aldeia do Maluco” e “Ovo”demonstraram uma setlist tão plural como a sua discografia.
Bruno Berle é outro nome que cabe perfeitamente nos segredos do Palco do Bosque. Discreto, mas muito generoso e gentil, passou este que foi o último concerto da sua tour europeia a convidar o público crescente a cantar consigo. Berle é daqueles artistas que não precisam de quase nada e que magicamente conquistam uma pequena multidão. “Tirolirole” e “Vim Dizer” foram cantandas em conjunto com a audiência sorridente, mas o momento mais bonito do concerto foi “Quero Dizer”.
Finalmente, a estrela desta edição do Festival Cuca Monga: Sérgio Godinho & Zarco subiram ao Palco da Relva, onde já não havia espaço para mais ninguém. A expectativa era enorme. Em palco, estavam os Zarco, Sérgio Godinho e a sua filha Leonor Godinho. A setlist ficou a cargo dos Zarco e isso fez-se notar. “Já não cantava esta há bué!”, admitiu Sérgio Godinho depois de “Caramba”, que foi uma grande animação. “O Primeiro Gomo de Tangerina”, “A Carroça dos Poetas”, “Etelvina” e “Elixir da Eterna Juventude” foram algumas das músicas do gigante da música portuguesa escolhidas e que deixaram toda a gente enternecidamente divertida. O repertório foi intercalando canções de Godinho e músicas de ambos os discos de Zarco, chegando mesmo a diluir os dois universos para criar músicas únicas daquele concerto. As melodias de “Cidades Safari” e “Tava Num Bar” foram enquadradas em letras de Godinho, “A Noite Passada” teve arranjos ao estilo de Zarco e “7 por sala” teve direito a rap de Leonor Godinho. Por fim, claro, como não podia deixar de ser, “Liberdade” foi quase gritado por toda a gente e “A Gente Vai Continuar” foi uma bonita homenagem a Jorge Palma, que nos deixou e que nos faz tanta falta.
O concerto de Sérgio Godinho & Zarco teve coro em uníssono, palmas efusivas e muita amizade. Um pouco como a energia que edifica o Festival Cuca Monga todos os anos. Por isso mesmo, por ter sido tão intensamente bom, abandonámos o festival aqui. Ingratamente para o cartaz que continuou até às 2h da manhã, não conseguíamos ver mais nada depois desta festa.
Nas palavras de Manel Cruz, a “revolução dos afectos” que tomou o Palácio Pimenta no último fim-de-semana juntou gerações, estilos e manifestos diferentes. O Festival Cuca Monga continua a crescer e a assumir-se um lugar de boas convicções e de sonhos à medida do bairro de Alvalade. É pequeno em tamanho e grande em programação, mais ambicioso a cada ano e continuamente despretensioso. É sempre um gosto celebrar a lusofonia entre amigos.
Fotografias por Felipe Kido.




























