Sob o pretexto de vir cantar em nome do “amor derradeiro”, Lex Walton, pode ter atraído enganadoramente comuns transeuntes, inocentes hippies e curiosos pacifistas, à procura de uma banda sonora para um fim de tarde solarengo.
Lex Walton, artista norte-americana de 25 anos está descontente. Com o quê? Muita coisa: em resumo, um país com 50 estados de nome EUA. A sua pátria e o mais perto que existe de inferno na terra, de acordo com Walton neste álbum. A relação que mantém com a terra natal é complexa, dado evidente em “For Thee I Sing”, o tema de entrada, que serve também como uma estranha dedicatória – “Thee” sendo os magnânimos EUA. Walton roga-lhe mil e uma pragas, manda-a à fava, faz-lhe o dedo do meio através de guitarras ruidosas e uma batida que – aviso – será ouvida no domínio “extra-fones” por toda a gente que estiver num raio de 20 metros. Só que, a partir de um interlúdio acústico, que fura a maciça parede sonora como uma pausa para respirar após um grande grito, toda esta intensidade é, de repente, relativizada. Walton até parece ter uma segunda voz neste pequeno excerto, em que se percebe um vibrato inédito no seu timbre, aproximável ao de um Devandra Banhart nos seus momentos mais frágeis.
As suas palavras começam a ser verdadeiramente medidas daqui para a frente. Percebemos agora que ainda existe um reminiscente carinho por este pérfido país corrupto, onde vive o fantasma dos seus ideias passados, baseados na esperança – “the land of liberty” – a memória de um tempo que Walton vê afastar-se para cada vez mais longe. Os gritos parecem-se agora a reprimendas maternais, de uma mãe desiludida, mas que não deixa esquecido o amor que tem pelos filhos. Walton sente essa desilusão, que sai em forma desta raiva que tem como único objetivo, paradoxalmente, o amor: “All I want is ultimate love forever”, como canta repetidamente, outra vez com o seu timbre Banhart – por isso, sabemos que é sentido – no último tema do mesmo nome.
Após a calmaria volta a tempestade, e depois deste pequeno interlúdio – de fulcrais 15 segundos – volta a raiva que o antecedeu, agora sob novos alvos, que é para isso que cá estamos. Por mais que me tenha agradado este refrescante oásis acústico, não é o que forma a essência do projeto. Há muito caminho por caminhar. E o resto do
caminho, temo, que não seja pavimentado. Só se for no sentido de ter como influência os Pavement, porque há um alto nível de experimentação, em que vários sons serão ouvidos em simultâneo e atmosferas únicas passarão pelos nossos ouvidos umas atrás das outras, tornando cada tema um novo teste para a nossa atenção. As músicas são muito rápidas e curtas (o álbum não chega a vinte minutos de duração total), mas não deixa de ser imensamente rico. A base é quase sempre indie punk, com um toque de rock alternativo aqui e ali (pensando outra vez nos Pavement), mas os condimentos vêm de vários cantos da despensa. Dou como exemplo o tema “Hipster Runoff”, na minha opinião, o mais bem-conseguido. Estruturalmente uma canção pop irrepreensível e estilisticamente muito complexo e interessante: com elementos de rock, presença de técnicas de sample e uma secção rítmica muito variada. Cada música é como que um circuito de rali, em que curvas e contracurvas são mais frequentes do que estradas a direito. A lírica faz também boa parelha com as suas desconjuntadas escolhas musicais, onde o humor e o sentimentalismo não têm qualquer sentido de hierarquia. Há sempre espaço para os dois. Aviso também que a base de referências da artista revolverá muito em volta da internet e da cultura popular jovem, com efeito, recomendo a aquisição de um jovem para o público mais velho, pois há termos que sem o devido esclarecimento poderão ser ouvidos com a mesma opacidade que o inglês dos peregrinos terá sido recebido pelos ameríndios.
Assim, em pouco tempo, Lex Walton prova, com este Ultimate Love Forever, que é uma ótima compositora, uma letrista dotada de uma enorme criatividade, uma enciclopédia de bom gosto musical e, sobretudo, alguém que não tem papas na língua.